Resenha: Paganizer – “As Mankind Rots” (2026)

O whisky passa décadas em barris, desenvolvendo camadas de sabor, com complexidade de notas, texturas e variações. Alguém pode enxergá-lo apenas como “álcool forte”. No entanto, quem realmente aprecia vai além e começa a perceber suas nuances. É quase impossível gostar de whisky logo no primeiro contato; o paladar precisa ser desenvolvido com o tempo e a experiência.

Outro ponto essencial é a autenticidade. Quem valoriza uma bebida forte e de qualidade entende que métodos tradicionais — como o uso de barris específicos e processos clássicos — são fundamentais para agregar valor e profundidade ao sabor. No fim das contas, degustar um bom whisky é, acima de tudo, uma experiência.

Essas são as características de um grande whisky. Mas seria possível aplicar essa mesma lógica a um estilo musical? A resposta é simples: sim.

O Death Metal, especialmente em sua vertente Old School, também ganha valor com o tempo. Bandas clássicas como Entombed, Death e Grave não soam datadas — soam fundamentais, pois ajudaram a moldar tudo o que veio depois. A complexidade do estilo se esconde por trás da agressividade: há camadas de riffs, mudanças de ritmo, atmosfera e intenção.

Death Metal x Tempo

Um ouvinte casual pode interpretar tudo como “barulho”. Porém, um bom Death Metal vai muito além de riffs desconexos e brutalidade gratuita. Assim como no whisky, é preciso adaptação. Vocais guturais, produção crua e intensidade extrema exigem tempo de assimilação. Com o passar do tempo, aquilo que antes parecia excessivo se transforma exatamente no que se busca.

Além disso, a força do Death Metal reside na tradição: a valorização do som orgânico, da produção menos polida e da estética crua. E, assim como na degustação de um bom whisky, existe um ritual. Não se consome de qualquer forma — é preciso desacelerar, prestar atenção e absorver. O mesmo vale para o gênero: ouvir alto, sentir o peso e mergulhar na atmosfera.

No fim, tanto o whisky quanto o Death Metal não foram feitos para agradar a todos. São experiências voltadas para quem valoriza o primitivo e o autêntico. É exatamente por isso que “As Mankind Roots”, do Paganizer, se destaca tanto: um verdadeiro reduto do Old School em pleno 2026. Um disco “envelhecido” com cuidado, construído sem pressa e com absoluta convicção.

Paganizer – 2026

Paganizer: sinônimo de podridão

Lançado em fevereiro de 2026, o álbum funciona como um verdadeiro manual do Death Metal Old School. Formada em 1998, na Suécia, a banda é liderada por Rogga Johansson, um dos nomes mais prolíficos e respeitados do cenário europeu.

Profundamente influenciado pela cena sueca clássica — moldada por nomes como Dismember, Entombed e Grave —, o grupo passou por um hiato no início dos anos 2000, retornando em 2006. A partir daí, iniciou uma fase extremamente produtiva, marcada por lançamentos constantes.

Atualmente, a formação conta com Rogga Johansson (vocais e guitarras), Dennis Blomberg (guitarras), Martin Klasén (baixo) e Matthias Fiebig (bateria).

Old School em “As Mankind Rots”

O disco começa de forma direta: sem introduções ou ambientações prolongadas — apenas riffs e pancadaria. Essa abordagem remete imediatamente ao Death Metal dos anos 90, especialmente à escola sueca: cru, objetivo e sem excessos.

A base do álbum é construída sobre riffs que soam como motosserras, combinados com velocidade e uma dose generosa de podridão sonora.

Com mixagem e masterização de Ronnie Björnström (conhecido por trabalhos com Hate e Blood Red Throne), o disco apresenta uma produção moderna, mas sem abrir mão da crueza e do peso encorpado. Nada soa polido demais — e isso trabalha perfeitamente a favor da proposta.

Rogga é o lider e a mente por trás desse monolito do metal

Os vocais de Rogga Johansson seguem profundos e agressivos, sem qualquer tipo de experimentação desnecessária: puro Death Metal em sua essência.

As faixas são curtas, diretas e repletas de riffs memoráveis. Em um cenário onde muitos artistas buscam reinventar a roda, o Paganizer segue na direção oposta — e faz isso com convicção. Aqui, não há espaço para excessos ou desvios estilísticos.

A experiência é clara: trata-se de um disco sem concessões. Nada de agradar tendências modernas ou suavizar a agressividade. Pelo contrário — a banda aposta tudo na essência do gênero e entrega um trabalho violento, cru e honesto do início ao fim.

Por que Old School?

Musicalmente, o álbum reúne todos os elementos que definem o Death Metal Old School em sua forma mais pura. Os riffs são sujos, diretos e memoráveis, permanecendo na mente mesmo após o término das faixas. A bateria atua como um verdadeiro motor de destruição, enquanto os vocais reforçam a atmosfera densa e opressiva.

Outro destaque é a ambientação sombria, que soa natural em todos os momentos. Nada parece artificial. Tudo remete às entranhas da cena clássica, mas com uma produção que valoriza cada detalhe sem comprometer a identidade.

No fim, trata-se de um álbum perfeito tanto para iniciantes quanto para veteranos. Funciona como porta de entrada e, ao mesmo tempo, como reafirmação de que essa fórmula ainda é extremamente relevante.

É o Paganizer sendo direto: isso ainda funciona — e funciona muito bem.

Destaques do disco

O álbum se inicia com “As Mankind Rots”, trazendo riffs diretos e uma atmosfera quase apocalíptica. O ouvinte é imediatamente lançado ao caos, com um riff central marcante que estabelece o tom do trabalho.

Na sequência, “Devoured” intensifica a agressividade com uma abordagem mais acelerada. A bateria se destaca pela constância e impacto, enquanto a simplicidade estrutural trabalha a favor da eficiência.

“Aftermath Bleeder” introduz um leve groove, fugindo discretamente do tradicionalismo. Ainda assim, mantém o peso característico. A alternância entre cadência e explosão funciona com precisão, criando uma das faixas mais envolventes do disco.

Em “Only Maggots”, a banda explora uma faceta mais sombria e atmosférica. As guitarras mórbidas e os vocais grotescos constroem uma ambientação densa e opressiva, com excelente controle de dinâmica.

“Put on Your Gasmask” surge como um ataque direto: curta, rápida e agressiva. Funciona como um impacto imediato — quase um choque sensorial — e se destaca pela alta capacidade de replay.

“Hollow” traz uma leve variação, com elementos mais melódicos inseridos em meio à brutalidade. Ainda assim, mantém a intensidade com blast beats e riffs pesados, funcionando como um ponto de respiro sem perder força.

Vida longa ao… Primordial!

Mais longa e estruturada, “A Testament to Madness” apresenta uma construção mais elaborada, com excelente equilíbrio entre peso, cadência e velocidade. Os vocais de Rogga Johansson se encaixam perfeitamente em um instrumental sólido.

Retomando a pancadaria direta, “Afterworld” entrega riffs que remetem aos primeiros trabalhos do Grave, mantendo energia constante do início ao fim.

Em “The Rotting End”, a banda aposta em uma estrutura clássica: introdução simples, aceleração progressiva e peso contínuo. Um exemplo puro de Death Metal tradicional — e uma faixa que certamente funcionará ao vivo.

“One Way to the Grave” se destaca pelo riff altamente memorável. É o tipo de composição que permanece na mente, com um refrão forte e uma construção que remete diretamente a nomes como Entombed, Dismember e Unleashed.

Por fim, “Vanans Makt” encerra o disco com identidade e peso. A participação feminina e a atmosfera densa reforçam o caráter sueco do trabalho, mantendo coerência até o último segundo e deixando aquela sensação de “quero mais”.

Paganizer Live! – HGL Media

Conclusão

Nenhuma faixa soa descartável. Mesmo trabalhando dentro de uma fórmula conhecida — e, para alguns, até saturada —, o Paganizer consegue imprimir personalidade em cada composição por meio de variações sutis de andamento, atmosfera e estrutura.

Assim como um grande whisky, não há necessidade de reinventar — o clássico já funciona. Basta executar com convicção.

E aqui, isso é feito com maestria.

Nota: 9,3

Integrantes:

  • Rogga Johansson (vocal, guitarra)
  • Dennis Blomberg (guitarra)
  • Matthias Fiebig (bateria)
  • Martin Klasén (guitarra)

Músicos convidados:

  • Bulten (vocal feminino – faixa 11)

Faixas

  1. As Mankind Rots
  2. Devoured
  3. Aftermath Bleeder
  4. Only Maggots
  5. Put on Your Gasmask
  6. Hollow
  7. A Testament to Madness
  8. Afterworld
  9. The Rotting End
  10. One Way to the Grave
  11. Vanans Makt
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