Resenha: Nervosa – “Slave Machine” (2026)

“Slave Machine” é o sexto álbum de estúdio da Nervosa e chegou às plataformas no dia 3 de abril via Napalm Records. O trabalho reúne 12 faixas distribuídas em pouco mais de 43 minutos e marca um momento importante na trajetória da banda: pela primeira vez, o grupo mantém a mesma formação em dois discos consecutivos. Assim, Prika Amaral (vocal e guitarra), Helena Kotina (guitarra), Hel Pyre (baixo) e Michaela Naydenova (bateria) repetem a parceria registrada em “Jailbreak” (2023), álbum frequentemente apontado como o ponto mais alto da fase recente da banda.

Antes de entrar propriamente na análise, vale explicar por que esta resenha demorou um pouco mais para sair. O primeiro motivo envolve justamente a enorme expectativa em torno do disco, especialmente no Brasil. Em casos assim, o “calor do momento” costuma gerar avaliações precipitadas e carregadas de empolgação — leia-se: elogios fáceis. Já o segundo motivo diz respeito à mudança sonora adotada pela banda. Quem acompanha a trajetória da Nervosa percebe rapidamente que “Slave Machine” abandona a essência do Thrash Metal mais tradicional para apostar em uma sonoridade moderna, aproximando-se com bastante afinco do Melodic Death Metal.

Uma mudança pensada para o mercado

Essa transformação não aconteceu por acaso. Atualmente baseada na Grécia, a banda se encontra muito mais conectada ao circuito europeu de festivais e grandes turnês. Com o suporte da Napalm Records, a mudança de direcionamento soa estratégica e claramente pensada para ampliar o alcance do grupo em mercados onde estilos mais modernos possuem maior apelo comercial. Dessa forma, “Slave Machine” surge como uma tentativa de consolidar a Nervosa em um novo patamar internacional.

Embora exista uma nova geração resgatando o Thrash Metal old school com ótimos resultados, o mercado europeu continua favorecendo estilos mais acessíveis dentro do universo extremo. Consequentemente, bandas em ascensão acabam adaptando parte de sua identidade para sobreviver dentro desse cenário competitivo. Por isso, o novo álbum dificilmente agradará os fãs mais puristas do gênero. Em contrapartida, o disco provavelmente conquistará ouvintes mais jovens e alinhados à estética moderna do Metal europeu.

Na parte técnica, a produção ficou novamente nas mãos de Martin Furia, guitarrista do Destruction, mas algumas escolhas acabam prejudicando o resultado final. As constantes dobras vocais aplicadas à voz de Prika Amaral, por exemplo, aparecem em excesso e em determinados momentos causam certo desgaste durante a audição. Além disso, a mudança na timbragem das guitarras afeta diretamente a identidade do álbum. Os riffs cortantes e agressivos típicos do Thrash Metal deram espaço para bases mais pesadas e comprimidas, aproximando o som de bandas modernas do Melodic Death Metal. Como consequência, o talento de Helena Kotina acaba subaproveitado. Enquanto “Jailbreak” apresentava solos marcantes e linhas melódicas memoráveis, “Slave Machine” aposta em guitarras mais genéricas e menos inspiradas.

Um começo promissor

Apesar disso, o disco começa de maneira extremamente forte com a sequência formada por “Impending Doom”, “Slave Machine” e “Ghost Notes”. Mesmo dentro da nova proposta sonora, a banda entrega composições empolgantes nesse início. “Impending Doom” traz provavelmente o melhor riff do álbum, além de uma melodia viciante e um refrão extremamente eficiente. Já a faixa-título começa como um verdadeiro ataque de Thrash Metal, mas gradualmente incorpora elementos de Melodic Death Metal sem soar artificial. O resultado funciona muito bem e transforma a música em um dos grandes destaques do trabalho. Em seguida, “Ghost Notes” apresenta uma abordagem ainda mais moderna, antecipando o direcionamento predominante do restante do disco, embora mantenha momentos interessantes.

No entanto, a partir de “Beast Of Burden”, o álbum perde força consideravelmente. A audição passa a alternar entre faixas mornas, previsíveis e pouco inspiradas. Existem bons momentos isolados ao longo do caminho, mas eles não sustentam o mesmo nível apresentado na abertura. “You Are Not A Hero” acaba soando excessivamente genérica, embora os solos de Helena Kotina salvem parte da experiência. Em contrapartida, “Hate” surge como uma das melhores músicas do álbum graças aos ótimos riffs e à agressividade que aproxima um pouco a faixa da identidade clássica da banda.

Entre identidade e modernização

Na reta final, “The New Empire” reforça de vez a nova direção musical da Nervosa, equilibrando passagens de Thrash Metal com trechos claramente influenciados pelo Melodic Death Metal. “30 Seconds” segue a mesma fórmula, enquanto “Crawling For Your Pride” até apresenta boas ideias nas guitarras, mas não consegue elevar o nível do disco. Já “Learn Or Repeat” lembra em diversos momentos bandas como Arch Enemy, levantando inevitavelmente o questionamento sobre a personalidade da Nervosa.

Perto do encerramento, “The Call” aparece como um verdadeiro respiro, recuperando parte da agressividade visceral que sempre caracterizou a banda. Entretanto, o álbum termina com “Speak In Fire”, uma faixa apagada e sem grande impacto, encerrando o trabalho de maneira anticlimática e melancólica.

No fim das contas, “Slave Machine” representa claramente um ponto de transição na carreira da Nervosa. O disco possui potencial para ampliar significativamente o alcance da banda e aproximá-la de um público mais jovem e globalizado. Porém, ao mesmo tempo, sacrifica boa parte da personalidade construída nos trabalhos anteriores. A tentativa de modernização é compreensível dentro do cenário atual da indústria, mas a banda precisará encontrar um equilíbrio mais sólido entre identidade artística e exigências de mercado. Caso contrário, corre o risco de se tornar apenas mais um nome genérico que aponta sua bússola para caminhos convenientes.

Esperava mais…

Nota: 6

Integrantes

  • Prika Amaral — vocal e guitarra
  • Helena Kotina — guitarra
  • Hel Pyre — baixo
  • Emmelie Herwegh — baixo
  • Michaela Naydenova — bateria

Faixas

  1. Impending Doom
  2. Slave Machine
  3. Ghost Notes
  4. Beast Of Burden
  5. You Are Not A Hero
  6. Hate
  7. The New Empire
  8. 30 Seconds
  9. Crawling For Your Pride
  10. Learn Or Repeat
  11. The Call
  12. Speak In Fire
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
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