Resenha: Metal Church – “Dead To Rights” (2026)

Poucas bandas atravessaram tantas turbulências quanto o Metal Church. Desde sua fundação, em 1982, o grupo norte-americano enfrentou mudanças constantes de formação, crises internas, oscilações no mercado fonográfico e até períodos de inatividade. Ainda assim, a banda sempre encontrou forças para se reinventar e seguir relevante dentro do universo do Heavy Metal tradicional.

Voltando alguns anos no tempo, após a saída do vocalista Ronny Munroe em 2014, a banda apostou no retorno de Mike Howe, cantor que marcou época no próprio Metal Church em álbuns clássicos como “Blessing In Disguise” (1989) e “The Human Factor” (1991). A volta foi recebida com entusiasmo pelos fãs, principalmente graças à qualidade de trabalhos como “XI” (2016) e “Damned If You Do” (2018), discos que recolocaram o grupo em evidência na cena headbanger.

Infelizmente, a trajetória sofreu mais um duro golpe em 2021, quando Mike Howe faleceu tragicamente. O acontecimento abalou profundamente a banda, que chegou a reconsiderar sua continuidade no cenário musical.

Reformulação e novo começo

Mesmo diante da perda, o grupo decidiu seguir em frente. Em 2023, lançou o competente “Congregation Of Annihilation”, já com Marc Lopes assumindo os vocais. Embora o álbum tenha agradado parte do público, os bastidores continuavam conturbados. A situação culminou em uma reformulação drástica promovida pelo líder e guitarrista Kurdt Vanderhoof, que anunciou em 2025 uma formação praticamente inédita. Dos integrantes anteriores, apenas ele e o guitarrista Rick van Zandt permaneceram. Para completar o lineup, entraram Ken Mary na bateria, o ex-Megadeth David Ellefson no baixo e o talentoso vocalista Brian Allen.

Com sangue novo e motivação renovada, o quinteto rapidamente começou a trabalhar em “Dead To Rights”, décimo quarto álbum de estúdio da carreira e lançado em 10 de abril pela Rat Pak Records. O disco entrega dez faixas distribuídas em pouco mais de 47 minutos, tempo suficiente para mostrar que o velho espírito do Metal Church continua vivo — pesado, agressivo e extremamente fiel às raízes do Heavy Metal oitentista.

Antes mesmo do lançamento oficial, a expectativa já estava elevada graças aos excelentes singles “F.A.F.O.” — sigla para “fuck around and find out” — e “Brainwash Game”. Ambas as músicas evidenciavam uma banda revitalizada, mas fortemente conectada à sonoridade clássica dos primeiros trabalhos, especialmente os cultuados “Metal Church” (1984) e “The Dark” (1986).

Peso, agressividade e nostalgia

Com o álbum completo finalmente disponível, restava saber se a qualidade apresentada nos singles se manteria durante a audição. Felizmente, a resposta é positiva e com pouquíssimas ressalvas. Mais do que sustentar o alto nível, o grupo entrega na maior parte do tempo composições com enorme potencial para se tornarem favoritas dos fãs e, dessa forma, marcando presença nos futuros shows ao vivo.

A abertura com “Brainwash Game” e “F.A.F.O.” funciona como uma verdadeira descarga de energia. Os riffs são inspirados, pesados e extremamente bem construídos, enquanto Brian Allen impressiona ao remeter, em vários momentos, ao saudoso David Wayne. Sua performance vocal adiciona identidade e personalidade às faixas, sem soar como mera imitação.

Na sequência, a faixa-título “Dead To Rights” surge como um dos pontos mais altos do disco. Mais cadenciada e carregada de peso, a música evidencia o excelente trabalho de baixo de David Ellefson, além de apresentar um refrão forte e memorável, daqueles feitos para serem cantados em coro.

Um retorno promissor

Logo depois, “Deep Cover Shakedown” mantém a intensidade em alta com passagens rápidas e uma atmosfera que remete diretamente aos primeiros anos da banda. Já “Feet To The Fire” desacelera momentaneamente o ritmo e aposta em melodias mais emotivas e introspectivas, funcionando como uma espécie de respiro antes da explosiva “The Show”, uma das composições mais agressivas e vibrantes do álbum.

Na reta final, “Heaven Knows (Slip Away)” entrega guitarras cavalgadas e um clima totalmente voltado ao Heavy Metal clássico. A excelente “No Memory” eleva ainda mais o nível com linhas melódicas muito bem encaixadas e grande senso de dinâmica. Encerrando o trabalho, “Wasted Time” mantém a consistência, enquanto “My Wrath” fecha a experiência de forma intensa e energética.

Embora exista uma leve queda de impacto na segunda metade do álbum, isso está longe de comprometer o resultado final. “Dead To Rights” é um disco sólido, honesto e extremamente competente, servindo como uma apresentação promissora dessa nova formação do Metal Church.

Agora, resta torcer para que a banda finalmente encontre estabilidade e consiga desenvolver todo o potencial demonstrado aqui. Pela qualidade técnica dos novos integrantes e pela química apresentada neste trabalho, existe espaço de sobra para voos ainda maiores nos próximos lançamentos.

Nota: 8,5

Integrantes

  • Kurdt Vanderhoof — guitarra
  • Rick van Zandt — guitarra
  • David Ellefson — baixo
  • Ken Mary — bateria
  • Brian Allen — vocal

Faixas

  1. Brainwash Game
  2. F.A.F.O.
  3. Dead To Rights
  4. Deep Cover Shakedown
  5. Feet To The Fire
  6. The Show
  7. Heaven Knows (Slip Away)
  8. No Memory
  9. Wasted Time
  10. My Wrath
Fabio Reis
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
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