Resenha: Mayhem – “Liturgy of Death” (2026)

Para os adeptos de longa data do Heavy Metal, o Mayhem dispensa apresentações, especialmente quando o assunto é a vertente mais nefasta do gênero: o Black Metal. Embora a banda carregue um início conturbado, o grupo equilibra sua trajetória musical com os fatos históricos tenebrosos que marcam sua existência.

Curiosamente, muitas pessoas conhecem a aura sombria e os dramas da banda, mas ignoram sua discografia. Mesmo após as perdas de Dead e Euronymous — o primeiro por decisão própria e o segundo pelas mãos de Varg Vikernes (Burzum) — o baixista Necrobutcher manteve a chama acesa. Dessa forma, ele lidera seus aliados na continuidade de uma jornada triunfal em prol do profano.

Além disso, o Mayhem figura como um dos pilares da Second Wave do Black Metal. Embora apresentem uma discografia reduzida em comparação a seus pares, os músicos se sobressaem pela qualidade técnica. Certamente, o álbum “De Mysteriis Dom Sathanas” (1994) permanece como o carro-chefe e um clássico mundial. Entretanto, o tempo avançou e agora os escandinavos apresentam seu oitavo disco, intitulado “Liturgy of Death”.

Nesse sentido, o novo álbum sucede o elogiado “Daemon” (2019) com a missão de elevar ainda mais a bandeira da banda, aproximando-se da sonoridade dos primeiros trabalhos. Ainda que discos como “Ordo ad Chao” (2007) e “Esoteric Warfare” (2014) dividam opiniões por não serem tão impactantes, o novo trabalho demonstra evolução. Portanto, o Mayhem recupera seu prestígio e identidade, entregando um Black Metal mais organizado e vigoroso.

Proposta mantida, porém, evoluída

O dono do nanquim virtual vive brincando com o aspecto de muitos discos de Black Metal serem muito crus e quase inaudíveis (para não dizer por completo) de forma proposital. No famoso documentário “Until the Light Takes Us”, é mostrado que os músicos visitavam locais repletos de entulho, debaixo de viaduto, para encontrar material a ser utilizado nas gravações – é aí que entra a história do ventilador.

Quem acompanha as nossas lives do Canal Mundo Metal no YouTube, sabe muito bem referente a isso. Entretanto, são outros tempos e o Mayhem se profissionalizou a ponto de não precisar de tal artifício. Por bem ou por mal, cá estamos em 2026 para entregar uma análise de disco de uma banda muito importante para o Metal extremo em geral. E o lado bom disso é que a banda também entende essa importância, assim buscando inspiração maior para lançar um novo trabalho.

“Liturgy of Death” foi lançado via Century Media Records em 6 de fevereiro, com a nítida intenção de incendiar o ano praticamente a partir do seu início. Tore Stjerna foi o responsável pela produção, mixagem e engenharia do novo artefato sonoro. Thomas Johansson cuidou da mixagem, enquanto a artwork é assinada por Daniel Valeriani. Natacha Kanga contribui com vocais adicionais e Necromorbus e adiciona percussões ao álbum. Garm, mais conhecido pelos trabalhos exercidos junto ao Ulver, marca presença na faixa de abertura com backing vocals.

Mayhem / Bandcamp

A estrutura do novo rito do Mayhem

A produção é cristalina o suficiente para destacar as nuances de cada instrumento, mas preserva a “sujeira” e o gélido, característicos do Black Metal norueguês. O disco possui uma abordagem mais ritualística e menos direta do que a banda costuma oferecer. Este, portanto, soa como uma missa negra, utilizando elementos de outros subgêneros como o Doom Metal, arpejos dissonantes e coros operísticos para criar uma sensação de horror iminente.

As letras de “Liturgy of Death” (2026) afastam-se do tom mais direto de álbuns anteriores para mergulhar em uma abordagem profundamente filosófica e niilista sobre a mortalidade. O álbum funciona como uma meditação sobre a morte, tratando-a não apenas como um fim biológico, mas como um “portal para uma forma superior de ser”. 

Essa junção, contudo, resulta em um som mais técnico e com mais camadas. Isso possibilita o ouvinte a encarar várias climatizações dentro de uma mesma música, hora com mais suspense, revolta e desespero, e hora com muito mais desespero, por assim dizer. Afinal, a condução de um ritual maligno deve pesar na mente a ponto de faze-la descer vários níveis até encontrar este lugar e poder presenciar de perto as labaredas das trevas em prol do sacrilégio.

Mergulhando na obra através de seus principais pontos

As portas do mausoléu se abrem e a tensão aumenta consideravelmente para que “Ephemeral Eternity” dê as primeiras cartas sombrias. Conforme fora dito, o primeiro versículo musical conta com a participação especial de Garm (Ulver). Nele, a finitude do tempo frente à indiferença do cosmos é abordada.

O início da jornada é marcado por um rito que avança pelas entranhas do destino e decreta o fim de tudo que antes era vivo e fazia parte deste plano, inclusive em húngaro. Os pedais acelerados de bateria acompanham este ritual promovido pelas guitarras e baixo, além do formato em reza maldita da canção.

“Tudo é vazio, a morte reina suprema
Monarca eterno, enquanto tudo se desvanece, nada perdura

Ao pó todos retornarão
A existência se estilhaça
No vazio todos os horrores evoluem”

A ritualística de “Despair” avança e se entrelaça com o latim para reforçar o poderio das trevas em meio a um culto ancestral, conectando a morte a algo sagrado e inescapável. Os primeiros passos já revelam uma violência sonora prestes a acontecer em fração de segundos. Isso é tão inevitável quanto a morte e os slides feitos através das guitarras soam como portais abertos para o nada absoluto.

As trevas são encarnadas junto aos vocais variados de nefastos de Attila Csihar. Embora a sonoridade esteja tão veloz quanto um golpe certeiro de foice, podemos observar o baixo de Necrobutcher sustentando o alicerce com a devida precisão que lhe é sabida. Hellhammer mostra serviço e eleva as chamas percussivas a partir de então.

Em meio a esse poderio amargo, temos uma devida cadência em momentos propícios para as vozes de padre maligno surgirem e tornarem a música um verdadeiro espanto. A velocidade permeia a maior parte do disco e oferece variações imediatas por entre essa velocidade toda. Ou seja, a banda está mostrando suas habilidades em se desvencilhar de sonoridades totalmente retilíneas. Vale ressaltar que este é um dos singles da obra e recebeu um videoclipe.

“In tenebris vita perit
Nil aeternum
No god remains
Mors sacra regnat”

A filosofia da mortalidade

Em “Weep for Nothing”, Attila canta sobre um destino comum a todas as almas mortais, sugerindo que as portas da morte se abrem igualmente para todos. A filosofia da mortalidade habita o mundo carnal, lidando com a inevitabilidade do fim e a “realidade do desespero”. Portanto, a morte reina sozinha e nenhum deus permanece. Essa é uma das faixas mais diretas do disco em se tratando de início avassalador. Coube a ela ser um grande exemplo disso, como sendo um verdadeiro aviso para os exércitos do submundo avançarem e racharem o céu com toda a escuridão plena.

Morten Bergeton Iversen e Ghul guiam suas guitarras banhadas em fogo-fátuo até as profundezas do além para retirar cada nota gélida e ardente ao mesmo tempo. Isso resulta em uma proclamação do fim de tudo e de todos perante a rainha de toda a existência: a morte.

“Ó mortais miseráveis
Vocês nunca honraram a morte
Como a criação perfeita da Natureza
A morte, o fim da lenta decadência da idade”

“Aeon’s End” repete bastante da principal fórmula da faixa anterior e mantém o disco com aquela parede sonora tradicional do estilo. Entretanto, a mesma se mostra mais feroz e mais faminta por almas desesperadas. O tema é um dos mais diretos do disco e descreve o colapso final da existência e a destruição de todas as estruturas humanas, tanto físicas quanto espirituais.

O refrão recebe um leve tempero do Death Metal à base de sangue profanado, aliado a vocais mais cadavéricos e insanos. Porém, o maior destaque fica por conta das linhas precisas e incisivas de bateria. Cortesia de Hellhammer. A música muda o seu andamento junto aos solos bem conduzidos e repletos de melodias congelantes e inquietas, assim voltando ao seu habitat principal dentro do tabuleiro infernal.

“Altares em chamas consumidos pela tempestade do tempo
As cabeças dos falsos santos se desfazem em pó
Seus santuários apodrecem sob o solo profanado
O fim se desenrola onde a gênese começou agora”

Photo: @loudflash.com

O tremolo é o guia do niilismo existencial

É neste ritmo que “Funeral of Existence” entrega um ar diferenciado à trama. O compasso é mais vagaroso, se aproximando do Doom Metal. No entanto, se engana aquele que pensar que o Mayhem ficaria no mesmo lugar. A potência submundana retorna e coloca o vazio como destino final de tudo. Não apenas do mundo físico, mas dizendo que a vida, a consciência e a matéria deixam de existir, retornando ao silêncio absoluto.

As variações entre riffs e sequência de dedilhados contribuem para trazer em primeiro plano o niilismo, evidenciando que o universo representa um caixão fechando a si mesmo. As linhas mais melódicas e lúgubres aparecem em maior parte aqui e unem forças com o tema.

“Toda a criação apodrece
Na risada obscena do destino
Sem piedade, sem ordem
Apenas o caos permanece”

O sofrimento como princípio regente é o que aparece na música “Realm of Endless Misery”. Em versos cantados com a mais repleta fúria, agonia e desespero reunidos, a existência humana é descrita como um estado onde o sofrimento não é a exceção, mas a regra. A letra utiliza imagens de medo e manipulação para retratar a vida como uma armadilha mental sem redenção.

Não há redenção ou clemência para a devastação sonora encontrada em uma das melhores faixas de “Liturgy of Death”. Suas climatizações e variações rítmicas se entrelaçam e formam uma camada coesa de escuridão e toda a sua profundeza. O lyric video ajuda a fortalecer a mensagem e a oferecer um ritual completo dentro da sua residência e prol do inevitável.

“Uma profunda sombra de tristeza
Um tormento que permanece
Destino astral demoníaco
Assombrando e implacável
Na esteira do terror
A esperança não passa de um sonho que se desvanece”

Morte, a senhora de tudo

O sangue aqui é o combustível que abre os portais para a “não-existência”, sendo derramado como uma oferenda líquida para divindades esquecidas ou forças ancestrais do caos. A música utiliza metáforas de oferendas e altares. Ela sugere que o indivíduo deve se entregar voluntariamente ao abismo, transformando a própria extinção em um ato de adoração ao vazio. Em suma, a morte é tratada como uma bênção e um caminho natural a ser exercido. Junto a isso, temos em “Propitious Death” uma sonoridade com um contraste a se destacar.

Curiosamente, a letra é acompanhada por uma sonoridade que alterna entre o blast beat habitual e tradicional, a qual domina grande parte da música e que representa a agonia do sacrifício. E enquanto isso, as passagens mais melódicas e anestesiantes, trazem para perto a ideia da paz pela morte alcançada.

Em resumo, a música celebra a morte como a chave mestra que destranca as correntes do mundo material, permitindo que o espírito finalmente se dissolva no absoluto.

“Ó, imaculada e persistente
Passagem onipotente
Ó, majestoso Fim
Enterre-me agora
Deixe a chama que atravessa esta argila se extinguir  
Deixe o círculo da vida eterna morrer”

Sentença final e absoluta

A grande apoteose opera de maneira funcional para o álbum e resulta em algo bastante positivo para o Mayhem, mostrando que a banda possui muita lenha para queimar. O potencial mostrado neste novo trabalho é grande e a banda pode acertar ainda mais os seus ponteiros. Em “The Sentence of Absolution”, as estrofes focam no conceito de que a morte é o único perdão real para o fardo da existência, reforçando a temática ritualística que dá nome ao disco.

A absolvição final vem da ideia de que a última sentença (a morte) é quem traz a paz verdadeira, livrando a alma do fardo de viver. As palhetadas fervilhantes do trio de cordas, somado ao dono do kit envolto por chamas negras infernais, dão início ao caminho mais importante da vida, obtendo a verdadeira sentença absoluta.

O andamento principal é mais reto e constante, além das notas mais incandescentes repetirem bastante. Afinal, aqui é a representação do caos se alimentando do fim de tudo. O poder arcano da banda entra em ebulição e fecha o novo trabalho com dignidade. Sim para o céu e sim para o inferno. O Mayhem está de volta ao plano carnal! E com direito ao término do rito com percussão, voz maquiavélica e também pessoas em volta acompanhando essa reunião.

“A maior felicidade é nunca ter nascido
[?]”

Curiosidades cadavéricas e Considerações mortíferas finais

A faixa bônus “Life Is a Corpse You Drag” – contida em outras edições – resume bem o conceito do disco: a ideia de que a vida é um fardo pesado (um “cadáver”) que carregamos até o momento do alívio final. “Sancta Mendacia” é outra faixa bônus.

O Mayhem mostrou em “Liturgy of Death” que a banda está bastante afiada e a ponto de entregar uma boa sequência de álbuns. Se considerarmos “Daemon”, uma obra de ótimo nível, poderemos ver em breve uma trinca bem forte dentro de sua discografia recente. Isso seria um impacto de bastante importância, visto que a banda ainda é mais citada pelo seu passado conturbado do que pela sua trajetória musical. Em suma, Necrobutcher sobreviveu a toda turbulência passada e segue tocando e compondo, que é o que mais importa.

A capa lembra e muito o famoso live album pirata intitulado “The Dawn of the Black Hearts”, de 1995. Sim, esse live com a capa do Dead morto, após dar fim em si mesmo e com a foto tirada por Euronymous, é um álbum pirata.

De acordo com o site Metal Archives:

“Este é o único álbum pirata autorizado a figurar no Metal Archives, devido ao seu conteúdo histórico controverso. A capa é uma fotografia do vocalista do Mayhem, Dead (Per Yngve Ohlin), após seu suicídio em 8 de abril de 1991. A foto foi tirada por Euronymous.”

“Sokan imádkoznak a templom homályában
De mind porrá lesznek sírjukhoz vannak rendelve
Ismerd meg önmagad
Orákulum
Mi az ember”

nota: 8,5

Integrantes:

  • Attila Csihar (vocal)
  • Ghul (guitarra)
  • Hellhammer (bateria)
  • Necrobutcher (baixo)
  • Teloch (guitarra)

Faixas:

  1. Ephemeral Eternity
  2. Despair
  3. Weep for Nothing
  4. Aeon’s End
  5. Funeral of Existence
  6. Realm of Endless Misery
  7. Propitious Death
  8. The Sentence of Absolution
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