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Resenha: Marduk – “Memento Mori” (2023)

Cinco anos se passaram desde o lançamento de “Viktoria”, 14º álbum de estúdio da banda sueca de Black Metal, Marduk, até então. Certamente, esse é um tempo considerável para lançar um disco novo, pois fica a dúvida sobre qual caminho a banda tomará a partir de um novo trabalho após um intervalo consideravelmente entre médio e longo.

   

Os representantes de Norrköping, Östergötland, na Suécia, uma das terras do Metal, estão na ativa de 1990 e estiveram prontos até então para lançar mais um trabalho. Seria “Memento Mori” algo com o formato mais retilíneo, como o sempre falado e lembrado “Panzer Division Marduk” (1999)? Ou seria algo mais variado e “trampado” por assim dizer? Assim sendo, eram as expectativas que esse novo material traria para os adeptos não somente da banda como também do metal extremo como um todo.

Detalhes sobre “Memento Mori”

O novo disco foi lançado em 1º de setembro através do selo Century Media Records e traz consigo dez faixas em um total de pouco mais de 40 minutos de salsa e merengue. Decerto, esse é um tempo muito bom para a audição de um álbum completo, ainda mais nos dias de hoje.

O novo full length apresenta em seu cardápio sonoro músicas com andamentos variados, mas todos voltados para o que a banda já fez em sua rica discografia. Além de mesclar elementos de outros estilos e também do próprio Black Metal, com a intenção de ampliar o seu leque musical dentro de sua proposta original. Entretanto, não espere por algo como a “reinvenção da roda” ou mudança de hábito, só para exemplificar. Apenas espere o Marduk fazendo músicas para os fãs do Marduk. Simplesmente isso.

O andamento das canções é pertinente ao que a banda normalmente oferece ao público. Portanto, não há aquela sensação de susto ou repulsa ao ouvir pelas primeiras vezes “Memento Mori”. Basta entender que todas as bandas médias e grandes de Black Metal estão em processo de evolução musical dentro do próprio estilo e que o Marduk não ficaria de fora dessa. Todavia, para o fã mais radical, essa é uma boa hora para apreciar algo próximo ao que Mystic Circle e Dark Funeral vem fazendo em seus álbuns recentes, respectivamente.

Marduk/Facebook

Quem circunda o novo trabalho

A própria banda é quem assina a produção do álbum, enquanto o mesmo foi gravado no Endarker Studio de setembro de 2022 a março de 2023. A engenharia da obra ficou a cargo de Devo Andersson. Håkan Sjödin é o soldado indicado para os cliques das fotos e a Holy Poison Design foi responsável pelo layout. Quanto às participações especiais, tivemos o próprio Devo Andersson no baixo, Joel Lindholm também no baixo, mas somente nas faixas 3 e 8. Por fim, o saudoso LG Petrov (R.I.P 2021) apresenta seus vocais adicionais na faixa 10. É uma homenagem merecida com toda a certeza.

Lars-Göran Petrov, também sueco, ficou reconhecido junto a um dos grandes pilares do Death Metal mundial, o incontestável “Left Hand Path”, clássico debut lançado em 1990 pelo Entombed. Além de ser o dono dos vocais do Firespawn, entre outras ótimas performances em outras bandas e projetos. Por fim, o Marduk acerta em cheio na homenagem mais que merecida e, certamente, faz com que mais pessoas olhem para esse novo álbum com mais carinho e atenção.

Singles de “Memento Mori”

“Blood of the Funeral” foi o primeiro single lançado pelo Marduk em divulgação ao vindouro álbum de inéditas. A divulgação foi reforçada através de um videoclipe feito para essa música. Porém, a banda não ficou apenas nessa faixa e, logo depois, escolheu “Shovel Beats Sceptre” como o próximo single. Contudo, o resultado foi mais um videoclipe lançado. Ambos pela Blooddawn Productions em parceria com a Century Media Records.

Vale ressaltar o trabalho feito pelas bandas de Black Metal, Death Metal e Thrash Metal através dos videoclipes. Se antes ninguém se importava muito e lançava tudo de qualquer jeito, hoje os tempos são outros e as bandas entenderam que é mais um meio de divulgação válido para elas e para os adeptos. Portanto, aquela premissa “tr00” de que a banda se vende ao produzir vídeos e por isso está errada, caiu por terra há muito tempo. Ainda bem. Tanto que isso me fez voltar a consumir esse formato. Por mais que se faça música extrema, é importante a divulgação através de vídeos das principais músicas e, assim sendo, podem passar nos telões durante os shows em festivais ou apresentações independentes.

Caminhos pantanosos do novo artefato sonoro

“Memento Mori” possui suas variações, mas sempre calcado na premissa tradicional do Black Metal. Embora, possua andamentos variados, o lado extremo se destaca como um todo, tornando a obra mais visceral e macabra o bastante para ser dita como um álbum do Marduk. As mudanças não tornam o álbum complexo ou voltado para algo progressivo jamais. É bom ressaltar para nenhum desavisado comparar com tal situação.

O fã de música crua, grotesca, mal gravada e tocado com cordas desafinadas, pode até torcer o nariz de início, mas entenderá a proposta assim que ouvir com a atenção devida, pois a alma visceral despojada segue de vento em polpa nessa nova jornada.

Principais destaques sombrios da horda sueca

   

Como toda boa obra, existem músicas que alçam voos maiores que outras em um disco. De acordo com quem as escuta, umas e outras acabam caindo mais facilmente no gosto pessoal. Mesmo que não se encontre nenhuma canção ruim. De fato, isso é normal de se acontecer e ao analisar esse novo manuscrito da música nefasta, encontramos pontos altos e moderados dentro do álbum. Vamos mergulhar mais profundamente nos temas de maior destaque sem se desfazer da ala morna do álbum. O álbum é ótimo, antecipando a conclusão, mas vamos entender juntos os motivos para tal.

Marduk/Facebook

O início da jornada macabra

A faixa-título é quem abre o disco e oferece ao ouvinte um mergulho sem volta nos mares sufocantes dos porões aonde são guardadas as armas sujas de sangue, contrastando com os dedilhados e riffs cavernosos que se aproximam. Alguém está prestes a abrir a porta de ferro retorcido pelo tempo a espera de uma surpreendente… camada sonora!

Decerto, a ideia funciona tão bem a ponto de manter a direção da bússola musical no ponto ideal. O som crescente ganha destaque e a jornada insana começa a partir de então. “Memento Mori” apresenta em seu cardápio lírico motivos para destacar o júbilo pela morte e sacrifício do divino. “Venha e alegre-se, venha e cante / Para o único rei legítimo / Venha e desnude sua respiração / Pois o nome dele é Morte” – só há um rei e não é esse que parou de respirar. O seu único direito de nascença é um buraco no chão. Portanto, celebre a morte.

Em meio ao comboio de notas velozes e repetidas de guitarra, lá está o contrabaixo elevando a estrutura e providenciando à bateria o espaço ideal para perseverar em suas alas mais extremas. Os tais dedilhados se fazem presente, antecedendo um momento mais cadenciado, como se um exército subisse a escada circular de uma torre maligna. A guitarra traz notas mais isoladas e pesadas, fazendo uma ponte com a faixa seguinte.

“Heart of the Funeral” é a menor faixa do disco, contendo exatos 2min23s de duração, tornando-a rápida e rasteira então.

Cavando a própria vala

Sons de pás abrindo uma cova são a intro dessa malevolente faixa. “Blood of the Funeral” apresenta muita agressividade em seu início, intercalando dedilhados agudos com passagens densas e ríspidas, porém com intervalos que garantem o deleite da criatura ouvinte. O baixo se apresenta com pancadas em notas mais graves a ponto de se tornar uma arma contra o inimigo. A guarda jamais fica baixa nessa história e os vocais de Daniel Hans Johan Rostén, vulgo Mortuus, se esganiçam como uma criatura abissal prometida para a devastação total. O som demonstra como vem a ser o princípio do fim de maneira colossal e absoluta.

Os versos sequenciam a veneração do fim de quem se dizia justo e envolve na trama a antiga prostituta, a qual é mencionada a sua morte e a sua falsa serventia. “Seio podre / O fedor dela é minha igreja / Sua concha servirá de púlpito / Até ser recuperado pela terra” – é como uma sátira a tudo que envolve o salvador de tudo e por onde ele esteve.

“No alto da carne
Da sentença e do salmo
Bêbado de sangue
Do funeral
Montado pela luxúria
E sede sepulcral
Venho vestido de fome
E o trauma do nascimento”

Os vocais vão diminuindo o ímpeto, enquanto a trilha sonora se coloca à frente, ao mesmo tempo em que se afasta também. O ar de mistério se engrandece com o badalar dos sinos distantes…

Por entre sinos e passos largos em justificativa ao poder da pá sobre o cetro

O som dos tais sinos se aproxima juntamente com a percussão que simula um exército invasor, com a clara intenção de explorar e destruir o lugar. “Shovel Beats Sceptre” inicia em formato de hino e discurso de batalha. Aquele incentivo inicial e questionamento sobre o real propósito do conflito. Assim, soando como um combustível extra para o soldado e serviçal das trevas usar da investida contra o inimigo.

Se você possui uma tinderbox, já está com o pacto praticamente selado em prol da vingança contra o livro de mentiras, personagens que gerem a trama e qualquer ser imundo com ligação ao mentecapto da via crucis. Se tesoura vence o papel, a pá vence o cetro e a vida é regida por uma ampulheta ao invés de ser um relógio. Portanto, a carne é dinheiro quando o martelo cai. Ou seja, a crueldade importa mais do que a benevolência para os que se dizem divinos e puros.

   

A canção possui um compasso completamente distinto de sua antecessora, oferecendo mais peso de modo cadenciado, enquanto a proposta de hino de batalha é executada com voracidade e dedicação à arte da música extrema. Entretanto, a caminhada é voltada para o fim de tudo, principalmente para toda a corrupção envolvida nos versículos dos capítulos dos salmos. Em suma, o direcionamento se mostra equilibrado ao variar suas linhas musicais. A canção circunda e obedece o ritmo oferecido ao término da faixa anterior de forma esplêndida.

A rigidez da morte através da marcha dos ossos

“Marching Bones”, sétima faixa do disco, apresenta a marcha definitiva de ossos em direção ao túmulo. Sob cascos velozes da rigidez da morte, os túmulos estão abertos e aguardando o disparo das flechas. Antes de tudo, ouça o grito e marche junto para a vitória profana. Siga em frente logo em seguida.

“Carroça de caveira, parede de caixões
Campos exuberantes com forca e rodas Catherine
Os túmulos estão abertos
E ansiosos para nos mostrar o significado da ganância”

A poesia abstrata enumera várias formas de caos profundo com uma trilha sonora bastante apropriada. Ao passo que tudo fica ainda mais obscuro diante de um contrabaixo estridente e profano, as hordas impõem sua investida calamitosa e sangrenta. Rugidos de guitarra são ouvidos do alto da montanha. Arremessos de lanças e flechas são vistos em forma de repiques e linhas vorazes de bateria. Aqui o Marduk relembra os tempos de “Heaven Shall Burn… When We Are Gathered” (1996) e “Nightwing” (1998). Os compassos são inseridos com facilidade e você pode ouvir com tranquilidade, enquanto tudo desaba à sua volta. Os blast beats e jogos rápidos de pratos aparecem como moscas varejeiras, sufocando a vítima até seu último suspiro.

1632 e 1689 – os anos do verme

Em sequência à sua antecessora, “Year of the Maggot” mostra de forma rebuscada e abstrata costumes e acontecimentos entre os anos de 1632 e 1689.

“Geometria sacral, luxúria cardeal
Uma pálida viagem em ondas sepulcrais
Um navio negro de convulsão espiritual
Em um mar revolto de decadência real”

O tema docemente amargo inicia já na emenda com traços ligados ao porão escondido para determinada prática. O eco formado através do subsolo abre caminho para a ala extrema da música. Vocais característicos interpretam a trama como um verdadeiro demônio das terras ancestrais. Após uma condução de bateria impecável, temos um dedilhado de guitarra mais próximo do metal da morte. Isso certamente faz alusão à uma faixa do Krisiun chamada “Ageless Venomous”, do álbum de mesmo nome lançado em 2001. Além dos outros componentes, baixo e bateria, respectiva e obviamente.

A retomada para o caminho das trevas é instantânea, até que há uma mudança de andamento. O baixo indica o caminho, a guitarra acompanha, e por fim, a bateria contragolpeia de maneira tradicional ao manuscrito dos suecos. Há o retorno para o ritmo anterior até que seu fim definitivo chegue.

Photo by: H.Sjödin/Facebook

O que nós fomos é o que nós somos e seremos

“As We Are” é a décima joia do infinito. Notas leves e espaçadas iniciam mais essa jornada com tons de fim dos tempos. Os efeitos ampliam o lado percussivo, juntamente com os arranjos de guitarra. Tais efeitos se mostram como objetos tirados de épocas passadas. Após o refrão cavernoso, incitando a época mais primitiva da banda, temos um solo de guitarra condizente com a trama. Contando com a honrosa e saudosa presença de LG Petrov, a canção ganha ainda mais valor.

O compasso mais vagaroso, como passos de uma criatura soberana indo em direção à sua presa, comanda o epicentro da música e a coloca em um plano mais ao longe na linha do tempo. Antes de tudo, conte para trás, pegue impulso e corra junto da última parte mais veloz.

“O idioma pode ter mudado
Mas a mensagem é a mesma
Como você é, uma vez fomos
Como nós somos, você também será
Como você é, uma vez fomos
Como nós somos, você também será”

Em resumo, a ligação forte entre passado, presente e futuro é forte o bastante para mostrar o contraste de tudo o que foi feito e o que será realizado logo adiante. Aqui é o fim tradicional, mas…

Antes do fim…

A apoteótica e caótica “Psalm 156” oferece elementos voltados para o debut “Dark Endless”, de 1992. A sujeira é inserida de maneira correta. Portanto, a obra enriquece no sentido de torná-la mais obscura, crua e nefasta. Tudo isso através do clima arcaico e voltado para a ancestralidade. A rispidez toma conta do cenário. Todavia, a canção atinge velocidade ideal logo em seu princípio.

Outro detalhe é que a bateria contrapõe o ímpeto das guitarras, tornando o caos sonoro ainda mais alarmante e prazeroso de se ouvir. Aconselho escolher um bom vinho para desfrutar das frenagens do baixo, mais frequentes no Death Metal old school. E sem fugir da mística do metal negro, certamente.

   

“Grande é a tua compaixão, Senhor; preserva a minha vida conforme as tuas leis.” – Salmo 156.

“Psalm 156” aparece nas versões japonesas do novo full length.

Marduk/Facebook

Considerações mortuárias e curiosidades animalescas

O ótimo videoclipe de “Blood of the Funeral” conta com a presença de Daniel (vocal), Morgan (guitarra) e Simon (bateria), ambos integrantes oficiais do Marduk. A informação é referente ao fato das diferenças entre o modo de gravação do disco com a formação apresentada em vídeo.

O videoclipe de “Shovel Beats Sceptre” coloca o trio em cena no formato P&B. A imagem em cena ganha tons grotescos ao lidar com climatizações de época, assim colocando em maior evidência todo o horror vociferado entre versos.

Por fim, “Memento Mori” apresenta realmente algumas releituras e fraseados de outras épocas do Marduk, porém sem deixar de olhar para o futuro. O nefasto trio mostra que pode ir muito além sem deixar as raízes de lado. Entretanto, parte dessas raízes ainda insistem em frear a arrancada que o disco poderia dar. Algumas músicas não se postaram como destaque por não haver novidades ou algo que chame mais atenção do que o normal. Assim sendo, tais canções ficam em segundo plano se colocadas próximas às outras citadas em manuscrito virtual. Em suma, o resultado é muito positivo e promissor. Isso oferece ao Marduk mais uma página rica em shows bem executados e discos bem aceitos pelo público.

Catherine wheel

A roda de Catarina, ou Catherine, além de ser um instrumento de tortura da antiguidade, era conhecida por muitos nomes. Há quem a chamasse de roda de despedaçamento, roda de Santa Catarina, ou simplesmente roda.

Tal instrumento era utilizado para executar penas capitais desde a Antiguidade Clássica até o início da modernidade, principalmente em execuções públicas nas quais o condenado era preso à roda e tinha os seus ossos quebrados com maças e martelos até a morte. A roda ainda era utilizada na Alemanha no século XIX em justificativa à post mortem, com a intenção de humilhar o condenado, tornando o rito ainda mais sádico contra o acusado.

“Has it dawned on you yet?
Have you begun to grasp
That life is not a clock
But an hourglass?

Are you prepared?
Is your rat-nest in order?
Will your mind be at ease
When the shadows grow taller?”

nota: 8,7

Integrantes:

  • Morgan Håkansson (guitarra – faixas 7, 8)
  • Daniel Rostén (vocal [baixo, guitarra solo – faixas 3, 10])
  • Simon Schilling (bateria)

Artistas convidados:

  • Devo Andersson (baixo)
  • Joel Lindholm (baixo – faixas 3, 8)
  • LG Petrov (R.I.P. 2021) (vocal adicional – faixa 10)

Faixas:

1. Memento Mori
2. Heart Of The Funeral
3. Blood Of The Funeral
4. Shovel Beats Sceptre
5. Charlatan
6. Coffin Carol
7. Marching Bones
8. Year Of The Maggot
9. Red Tree Of Blood
10. As We Are
11. Psalm 156* (bonus track da versão japonesa)

Redigido por Stephan Giuliano

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