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Resenha: Lux Incerta – “Dark Odyssey” (2022)

“Imagine que você, pobre moribundo, está caminhando sem rumo, guiado apenas pelo sonar do anoitecer. De repente, o caminho encontra uma floresta pantanosa que te mostra o norte através do reflexo da Lua cheia sob o rio que contorna o local. A noite fica mais densa e seus passos mais pesados por conta do solo enlameado. Suas pegadas vazias encontram outras pegadas maiores que se dirigem à direção próxima da que tu estavas percorrendo. O efeito da bebedeira deixa sua visão turva, tirando o pouco de foco que restava em sua percepção. O clima anuncia a aproximação de um ser sedento por seu sangue e sua alma. Está na hora da caçada…”

Lux Incerta é uma banda forjada na lápide quebrada de Paris em Île-de-France. Seu poderio foi inaugurado em pleno ano 2000, mas somente doze anos mais tarde é que os franceses lançaram seu debut intitulado A Decade Of Dusk”. Antes desse grande feito a banda lançou quatro demos entre 2001 e 2007, com a quarta demo sendo uma reedição da terceira. Demo 2001″, “Demo 2003″, Lux Incerta”, de 2004, eLux Incerta (Reedition 2007)”, respectivamente. “Dark Odyssey” marca o novo triunfo da banda ao lançar seu segundo full length e de forma independente no dia 8 de abril. As cordilheiras do Doom encontram os desfiladeiros do Gothic, tornando a trama bastante densa e latente. Ao menos é essa a primeira impressão antes de ouvir o novo trabalho do Lux Incerta. E já que estamos aqui para acompanhar este desfecho, vamos averiguar os sete capítulos desse misterioso pergaminho sonoro. Antes disso, vale mencionar que o álbum foi mixado e masterizado por Fabien Devaux, enquanto o mesmo teve a direção artística de Philippe Tulleau e Gilles Moinet. A arte da capa é assinada pela talentosa Marianne Blanchard. As participações especiais ficam por conta do violoncelista Raphaël Verguin e do pianista Rémi Pardigol.

   
Lux Incerta/Divulgação

O dia começa seu show de encerramento e abre espaço para as garras do anoitecer chuvoso. Estas perfuram os céus, sangrando em brilho lunar… A sede de sangue inicia-se através da estrutura sonora corrompida pela não-vida e que atende por “Far Beyond The Black Skies”. “Muito além dos céus negros / A chuva sem fim está caindo / Não limpa meus olhos / Não alivia minha pele” – os ventos fortes provocam ondas fortes de choque diante da realidade contida na chuva dos pecados de seu personagem que, isolado e preso ao catastrófico mundo individual, se entrega à escuridão com o pensamento de que os dias de morte são tidos como formas de arrependimentos e os que estão por vir são apenas promessas. Junto às estrofes para complementar o desfecho inicial temos em primeira mão dois artistas convidados para o cortejo. O pianista Rémi Pardigol inicia o caminhar massivo, narrando a trajetória do errante em seu derradeiro destino. Em seguida temos o violoncelista Raphaël Verguin despejando pétalas de flores secas através de seu instrumento. O texto imaginário é colocado à tona graças a este instrumental que apresenta o moribundo desesperançoso. Todo o instrumental surge para nos mergulhar nesse mar gélido e vagaroso do Doom Metal. As guitarras ensaiam um lado Gothic agonizante e cortante, rivalizando entre melodias fúnebres e acordes mais pesados como o abrir de tampa de um caixão milenar. As variações rítmicas induzes as linhas de bateria para que reajam e provoquem inundações espirituais com suas viradas e jogadas de mestre através dos pedais duplos e tons. O momento se torna mais intenso próximo da pausa proferida quase à capela pelo vocalista Agone. Este também faz parte das linhas cavernosas e cativantes de baixo, ao lado de Maxime Pascal. Vocais em tons vampíricos e melodias que vão de encontro ao subgênero ligado a este tema, enquanto a sonoridade acompanha tudo de perto. A decolagem ocorre após o instante mais calmo deste primeiro rito de passagem. Se o Iron Maiden tocasse uma música longa assim e com todas essas variações dentro da mesma, seria incrível demais. O final é parelho ao começo e serve de emenda para…

…O mergulho nas águas do abismo, que é demarcado por “Dying Sun”, com sua falta de luminosidade. Completamente mais intensa e cheia de energia em seu princípio, Pheel Ti (Phil T.) com seu kit poderoso, Tibo Pfeifer e Arkham (Gilles Moinet), ambos guitsrristas, se concentram e oferecem ao honorável público a menor tarifa nacional regado a um belo vocal gutural e incendiário próximo. A calmaria envolta por um mistério atordoante provoca euforia quanto aos isolados acordes. Os vocais de Benjamin Belot, vulgo Agone, ganham um tom semelhante ao de Dave Gahan (Depeche Mode) em seus momentos mais melancólicos. A canção se eleva e os guturais entram e cena. Uma mistura exuberante de Theatres Des Vampires, Sorcerer e o Moonspell atual, amplia o poderio da criatura ao perseguir sua vítima pelo pântano. “Longe no vazio escuro / Queima um sol moribundo / Expirando, em um último suspiro / Pois seu fim chegou / Convulsões esticam sua superfície / Como o inferno de fogo explode / Sua viagem chegou ao fim / Mas não vai morrer sozinho” – o brilho do sol cada vez mais fraco entrega ao sofrível ser a sua última cartada para que nada seja em vão. A luz se torna congelante ao cair das nossas almas. O fim não é nossa culpa, mas a história apagada coloca a presença de tudo em vão. O fato é que desaparecemos em um grito silencioso. Os solos de guitarra mirabolantes e condizentes quanto à estrutura do mesmo. Um som vindo do pântano ecoa e eferece um enxoval de melodias contidas e acordes com intervalos… Temos os sons de violoncelo como parte fundamental antes de entrarem as guitarras mais pesadas. Quando os pedais duplos entram em cena, os guturais se aprofundam e evocam as pegadas deixadas pelo ser em terceira pessoa até que esta sonoridade se esvai…

“Decay And Agony” te coloca em um mundo repleto de dedilhados misteriosos e vagarosos. Melodias agudas confrontam os sons mais graves, provocando o misto necessário entre decadência e agonia. A projeção da faixa coloca em evidência trechos da letra em francês, dialeto natal da banda, e provoca um atrito durante a perseguição na floresta, tornando o som muito mais agressivo, flertando com o Black Metal, e tendo como pano de fundo as maravilhas que o Tristania promovia à época da Deusa inesquecível, Vibeke Stene. A próxima parte apresenta um contrabaixo batendo forte como um coração pulsante, que clama por mais intensidade sonora. Tudo se repete e carimba a identidade musical sem qualquer desvio de conduta. “Quando as noites duram mais que os dias / Quando não há luz e não há fuga / Quando os céus caem sobre a decadência / Da procissão de tons desbotados” – a solidão que a humanidade sente é o reflexo da decadência mergulhada em agonia, provocando um grito interno da tempestade contínua, representando o sofrimento eterno dos espíritos errantes.

“O succube des instants perdus qui presse mon cœur de ses doigts crochus
Ton sourire carnassier promet des nuits hédoniques, mais me livre toujours aux
gouffres abyssiques”

As ondas sonoras de piano colocadas em “Farewell”, trazem a despedida de quem não viu mais a luz do dia e não pode contar com todos os que importam com o fim de uma era. A embriaguez em pântano úmido não amplia em peso nem velocidade as peripécias promovidas pela banda. A climatização junto à sonoridade mais arrastada e contendo variações, se assemelham aos sons praticados por bandas como os suecos do Tribulation e os russos do The End Of Melancholy. “Eu não consigo encontrar o calor para outro dia / Não consigo encontrar forças para remover a argila / Do meu rosto moribundo deitado no chão / Vou desistir ou ainda pedir mais?” – em uma madrugada de janeiro o fim foi decretado e a alma entristecida busca recordar e alertar seu ente querido para que este valorize o tempo em que passavam juntos, na qual havia sentimento real. Metaforicamente é de se pensar nos percalços e momentos cruciais dessa jornada para que ambos possam caminhar pelo mesmo bosque. Estamos diante da metade do caminho até a saída do pântano sombrio e encontramos uma placa escrito: “Shervine”. Dedilhados ritmados e percussão que acompanha essa trajetória é a receita para essa faixa instrumental que homenageia Michel Shervine Hejazy (1976-2021). O rito de passagem traz à lembrança o disco “A New Dawn”, da banda russa Skyforest, lançado em 2020. Com um tema sonoro mais atmosférico e melódico dentro do Black Metal, o disco se aproxima do que é executado neste subgênero. A homenagem póstuma é válida, apesar de mais curta que as outras músicas do álbum descrito.

Bandcamp

Ao buscar por sobrevivência diante das sombras que encurralam tua mente, e diante de toda desilusão mundana, vem a queda com “Fallen”. O glorioso Candlemass se faz presente em meio a esse mar gótico provocado por possíveis influências e inspirações voltadas para os lados do Moonspell e Hooded Menace. Os guturais ressurgem e as guitarras tremulantes despejam álcool no papel em chamas. Vocais que alternam entre gutural e límpido com pitadas de drive espalhados pelo planeta musical. Os solos atendem o chamado e promovem o fim dessa guerra, enquanto os acordes finais lembram os temas instrumentais que o Soulfly lança em todos os seus discos, mais especificamente, “Soulfly V”, do álbum “Dark Ages” (2005). O mundo que compartilhamos / Faleceu em um incêndio / Nós pertencemos a uma sombra enterrada / Os anos e décadas / E os séculos levaram / Para o túmulo do que fomos” – a explicação junto aos versos da canção apontam para o modo em que nós somos as noites e dias vazios, nos escondemos do sol para ficarmos no cinza, longe da iluminação do representante maior do sistema solar. Somos milhões de vidas divididas em dias de dor escondidas nas entrelinhas. O silêncio da memória coloca em primeiro plano fim baseado no começo.

Seu perseguidor te cerca no fim do caminho e o convoca para a segunda canção instrumental do disco, “The Ritual”. O ritual é colocado em prática, dando a ideia de ser exercido abaixo de alguma ruína ou em alguma galeria subterrânea de algum castelo. Sons de órgão são projetados para unirem-se aos acordes de guitarra, além da condução precisa de baixo. O compasso concentrado da bateria exige uma ordem entre o baterista e o metrônomo para que a cadência não fuja de controle. O ritual segue…

O fim fica depois do pôr do sol e a vítima não conseguirá escapar de sua presa… O pântano grita de forma gelada e angustiante. É hora de partir…

Lux Incerta/Divulgação

Observações e curiosidades:

Lux Incerta é uma expressão latina que significa “luzes do crepúsculo” vindo do início da meia-idade, sobre a luta quando o dia deixa a noite chegar.

Todos os sons foram compostos por Gilles Moinet, Benjamin Belot e Philippe Tulleau. As letras ficaram por conta de Benjamin Belot.

O álbum é dedicado em memória de Michel Shervine Hejazy (1976-2021).

“Les éternités immobiles
Gardiennes des secrets proscrits
Les éthers mystérieux et subtils
Plongent mon être dans la folie
Et quand enfin je vois l’architecte triste
Froid et muet comme un astre éteint
De ces mornes errances catatoniques
C’est un miroir que je tiens”

Nota: 9,2

Integrantes:

  • Arkham (guitarra) – Gilles Moinet
  • Agone (vocal, baixo) – Benjamin Belot
  • Pheel Ti (bateria) – Phil T.
  • Maxime Pascal (baixo)
  • Tibo Pfeifer (guitarra)

Artistas convidados:

  • Raphaël Verguin (violoncelo)
  • Rémi Pardigol (piano)

Faixas:

1. Far Beyond The Black Skies
2. Dying Sun
3. Decay And Agony
4. Farewell
5. Shervine
6. Fallen
7. The Ritual

Redigido por Stephan Giuliano

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