Resenha: Lion’s Share — Inferno (2026)

Na ativa desde 1987, o veterano Lion’s Share, além do guitarrista e membro fundador Lars Chriss, também conta com o talento do vocalista Nils Patrik Johansson, conhecido por seus timbres e interpretações que remetem ao mestre Ronnie James Dio. O cantor entrou no grupo em 2007, lançou dois bons trabalhos — Emotional Coma (2007) e Dark Hours (2009) —, mas, desde então, concentrou seus esforços em registros do Astral Doors e de sua carreira solo.
Com isso, o Lion’s Share acabou ficando em segundo plano e, esporadicamente, lançou alguns singles avulsos. Acontece que algumas dessas músicas eram tão boas que mereciam integrar um álbum completo. Foi justamente com essa premissa que Inferno começou a ser preparado. Sete faixas apresentadas ao público entre 2019 e 2024 foram escolhidas: “Chain Child”, “We Are What We Are”, “Pentagram”, “Baptized In Blood”, “Run For Your Life”, “Live Forever” e “We Will Rock”. Além disso, o grupo trouxe mais duas canções inéditas: “The Lion’s Trial” e “Another Desire”. Pronto: bastou isso para que os suecos tivessem em mãos um dos materiais mais fortes do ano quando falamos de Heavy Metal tradicional.
Imagine que o Black Sabbath das fases Ronnie James Dio e Tony Martin se encontrou com o Accept da era Restless And Wild e trocou figurinhas com o Saxon atual, especialmente no período pós-Sacrifice. É mais ou menos essa a mistura que o Lion’s Share oferece. E sejamos sinceros: os amantes desse gênero não procuram grandes revoluções ou novidades. Na verdade, não existe necessidade de adição mirabolante ou invencionismo gratuito; basta fazer o básico com honestidade, inspiração e criatividade. Dá para afirmar que temos tudo isso aqui.
Produção direta, eficiente e sem desperdícios
Inferno chegou às lojas e plataformas de streaming no dia 27 de março, por meio de uma parceria da banda com a Metalville. As nove faixas ficaram distribuídas em pouco mais de 42 minutos de duração, tempo suficiente para o disco passar seu recado sem enrolação. A produção e a mixagem ficaram a cargo do próprio Lars Chriss, enquanto a masterização ficou nas mãos de Mike Lind. Completando o time em estúdio, os tecladistas Anuviel e Kay Backlund, o baixista Andy Loos e o baterista Fredrik Johansson, irmão de Nils, deram vida a esta nova formação do grupo.
A audição começa com a visceral “Pentagram”, conduzida por um riff inicial cortante, capaz de empolgar logo de cara, e por um refrão de fácil absorção. “We Are What We Are” chega na sequência e funciona como um hino e, ao mesmo tempo, como uma declaração de amor à comunidade do Heavy Metal. Não é à toa que a faixa ultrapassou a marca de 1 milhão de reproduções somente no Spotify.
“We Will Rock” fecha a trinca inicial e soa como uma homenagem ao saudoso Ronnie James Dio. O riff principal de Lars Chriss parece carregar uma intenção muito clara: soar como uma continuidade do hino “We Rock”, presente no clássico The Last In Line (1984). Já Nils Patrik Johansson, como sempre, entrega aquela performance que nos faz questionar como uma similaridade dessa magnitude é possível.
Entre Black Sabbath, Saxon e a velha escola
Em “The Lion’s Trial”, o grupo claramente busca inspiração no Black Sabbath. A faixa soa como um híbrido entre aquilo que foi apresentado em Headless Cross (1989) e Heaven And Hell (1980). Caso papai Iommi ouça esta composição, certamente ficará satisfeito com os pupilos.
“Baptized In Blood” mantém a audição interessante, mas são as duas faixas seguintes que realmente aumentam a temperatura. “Live Forever” traz um refrão marcante e, além disso, exibe linhas e solos de guitarra primorosos. Já “Chain Child” poderia facilmente ter sido gravada pelo Saxon. O riff inicial soa como Paul Quinn nos bons tempos, enquanto a canção transborda intensidade e energia.
Na reta final, “Another Desire” aparece como uma daquelas faixas que parecem ter sido compostas no fim dos anos 1980 e, por algum motivo obscuro, permaneceram guardadas até agora. Se alguém surgisse contando uma história dessas, eu realmente acreditaria. O encerramento chega com “Run For Your Life”, mais uma composição com DNA sabático, mas, desta vez, contemplando o começo dos anos 1990, época do magnífico Dehumanizer (1992).
Um disco para quem não quer modernismos
Por todas as referências mencionadas, fica claro que não estamos diante de um disco dotado de originalidade ou contemporaneidade. A missão do Lion’s Share é outra: apresentar uma coleção de faixas que representam exatamente o que os amantes do Heavy Metal tradicional querem ouvir. No entanto, a banda faz isso com naturalidade, talento e paixão, e isso, inegavelmente, faz toda a diferença.
Inferno pode soar datado para uma parcela considerável dos fãs, mas, para aqueles que apreciam o estilo com certa dose de conservadorismo e não gostam de experimentações ou modernismos, esta é uma audição quase afrodisíaca.
Nota: 9
Integrantes
- Nils Patrik Johansson — vocal
- Lars Chriss — guitarra
Convidados
- Kay Backlund — teclado
- Anuviel — teclado
- Andy Loos — baixo
- Fredrik Johansson — bateria
Faixas
- Pentagram
- We Are What We Are
- We Will Rock
- The Lion’s Trial
- Baptized In Blood
- Live Forever
- Chain Child
- Another Desire
- Run For Your Life