Resenha: Kreator – “Hate Uber Alles” (2022)

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Se olharmos para a carreira do Kreator, vamos perceber que a banda sempre foi do tipo que não se apegou a rótulos ou classificações. Sendo assim, não seria justo ouvir um novo lançamento dos caras pensando em colocá-los dentro de uma espécie de prisão Thrash sem sentido. Analisando friamente a discografia do grupo, dá pra afirmar que os alemães possuem 3 fases distintas. Desde os primórdios ainda na chamada fase clássica, Mille, Ventor e cia, sempre reproduziram a sonoridade que quiseram sem se importar com críticas ou taxações. Era pesado, era veloz e era visceral, mas soava assim por que essa era a musicalidade que os movia naquele momento. Depois de cinco discos absolutamente diferentes uns dos outros, mas todos imponentes e extremamente importantes para a criação dos alicerces do Thrash Metal, o Kreator decidiu ampliar os seus horizontes musicais e, durante toda a década de 90, usou e abusou das experimentações.

Esta fase transitória rendeu discos que causaram a ira de muitos fãs saudosistas, mas analisando estes trabalhos sem pensar em subestilos, não dá pra dizer que são trabalhos ruins. Definitivamente, são diferentes, não foram concebidos para o fã básico de Thrash que quer ouvir apenas Thrash e nada mais, mas o fã de Metal em geral consegue extrair diversos momentos pra lá de interessantes. Por último, chegamos ao início do novo século e, à partir de 2001, com a chegada do excepcional “Violent Revolution”, o Kreator deu início a uma nova era, a terceira de sua carreira. Podemos afirmar que esta é a fase que perdura até os dias de hoje, pelo menos até o lançamento deste novo “Hate Uber Alles”.

Mesclando a fúria Thrash de trabalhos como “Extreme Aggression” e “Coma Of Souls” com as melodias polêmicas de “Outcast” e “Endorama”, a banda vem apresentando trabalhos bastante lineares desde o começo dos anos 2000. E mesmo com todos estes discos sendo nivelados por cima, alguns headbangers ainda reclamam do “excesso de guitarras melódicas”, das “experimentações” ou de uma possível “repetição de fórmulas”. Pois bem, “Hate Uber Alles” chega com a ingrata missão de agradar a gregos e troianos. Os fãs mais novos adoram a atual fase e os fãs mais antigos desejam uma volta às raízes. Mas e a banda, o que faz em meio a este cabo de guerra? Resposta: nem toma conhecimento desta rinha e grava o disco que der na telha! Foi isso que fizeram. Nem gregos e nem troianos, o que temos aqui é, possivelmente, o início de uma nova fase.

“Como assim, uma nova fase? Começaram com experimentações de novo?”

Calma jovem padawan! Quando me refiro ao início de uma fase diferente quero dizer que o novo trabalho de estúdio do Kreator não tenta ser uma espécie de sequência de seus discos anteriores e possui mudanças em comparação ao que a banda vinha entregando nos últimos anos. São mudanças traumáticas ou de direcionamento musical? Não, e se você por um acaso estiver com medo de que os alemães afinaram, fique tranquilo, eles não afinaram.

“Hate Uber Alles” traz um Kreator renovado, mais pesado, porém, menos veloz. São 11 composições distribuídas em 46 minutos, onde a faixa de abertura é uma introdução acústica chamada “Sergio Corbucci is Dead”, que serve de preparação para o início “pé na porta” com as viscerais “Hate Uber Alles” e “Killer Of Jesus”. Estas duas ao melhor estilo Thrash old school rápido e cortante. A canção título foi o primeiro single disponibilizado pelo quarteto e tem cara de hino, daqueles em que os fãs cantarão o refrão com os punhos levantados para o alto nos shows. Já “Killer Of Jesus” é uma pedrada direta e reta, sem riff de abertura, sem introdução, ela apenas inicia. Ríspida e violenta, capaz de maltratar pescoços desacostumados e causar um tremendo torcicolo nos mais veteranos. Este começo de audição sugere um track totalmente calcado no Thrash da velha escola, mas o disco não segue por este caminho.

Em “Crush The Tyrants”, temos uma composição em que a cadência é compensada pelo peso. O ritmo é quase como uma marcha e as cavalgadas mid-tempo envolvem o ouvinte por completo. Outro ponto que merece menção é o refrão chiclete e os timbres vocais de Mille. O single “Strongest Of The Strong” é a faixa mais óbvia e acessível, é a canção do track que tenta dar continuidade ao trabalho que vinha sendo feito nos discos anteriores em músicas como “Satan Is Real”, “Fallen Brothers” e “From Flood Into Fire”. Com um riff inicial que lembra um pouco o de “Son Of A Bitch”, do Accept, esta é uma composição cheia daquelas guitarras melódicas e, é bom que se diga, é a única com essas características. Se o Kreator não buscou fazer um disco totalmente voltado ao Thrash old school, também não tentou fazer nada melódico ao extremo. Aliás, este é o trabalho menos melódico desde o retorno ao Thrash em “Violent Revolution”.

A próxima é “Become Immortal”, a canção mais diferente que ouvi da banda nos últimos anos. Trata-se de um Heavy Metal totalmente tradicional com um início a lá Judas Priest/Iron Maiden e direito a “ô ô ô” e tudo no final. Apesar de fugir bastante das características do grupo, é sem dúvida um dos pontos altos da audição. Quando ouvimos o início de “Conquer And Destroy”, a primeira coisa que chama a atenção são as linhas de guitarra do guitarrista Sami Yli-Sirniö, mas quando o som explode em energia e vitalidade, pensamos: “agora sim vem mais uma bordoada Thrash”. E isso se confirma mesmo que depois do começo frenético, temos na verdade uma canção de camadas que vai se modificando e o andamento vai sendo alterado diversas vezes. Longe de ser ruim, esta é uma música que transita entre a velocidade e a cadência com extrema maestria. Se “Become Immortal” pode causar certa estranheza por ser um Heavy, “Conquer And Destroy” nos leva de volta ao ponto de partida com um Thrash técnico e trabalhado.

“Midnight Sun”, o terceiro single disponibilizado antes do lançamento, traz a participação da cantora pop Sofia Portanet e, apesar de ter estranhado bastante essa música quando a ouvi de forma avulsa, no contexto do tracklist e junto com suas co-irmãs ela se destaca e acaba se tornando uma das minhas favoritas. Os riffs e as linhas de guitarra são maravilhosos e o refrão não vai desgrudar da sua cabeça após algumas audições, acredite em mim.

Chegamos próximos do fim e, mais uma vez, “Demonic Future” despeja a fúria Thrash sobre nossas cabeças. Aqui, precisamos fazer uma pausa para destacar o trabalho do excepcional baterista Jürgen “Ventor” Reil, poucas vezes lembrado, mas certamente um dos grandes nomes do estilo. As linhas, as viradas e a complexidade que Ventor impõe nas composições é um total diferencial na música do Kreator. Podemos destacar também o novato Frédéric Leclercq, que assumiu o posto de baixista da banda em 2019 e, em “Hate Uber Alles”, debuta em um disco de estúdio com a maestria de um veterano. Essa dupla ainda vai dar o que falar.

A penúltima música é “Pride Comes Before The Fall” e, certamente, esta é a minha predileta. Com um início suave e Mille cantarolando alguns versos com voz limpa, não dá pra imaginar o apocalypse sonoro que está por vir. Esta faixa transita muito bem entre aquele Thrash mid-tempo a lá “Violent Revolution” e “Suicide Terrorist”, e às vezes parte para uma sonoridade que nos remete a pedradas do porte de “Civilization Collapse” e “World Anarchy”. O final apoteótico vem com “Dying Planet”, outra música bem diferente de quase tudo que o Kreator lançou nos últimos tempos. Com quase 7 minutos de duração, é a mais longa do disco e possui diversas mudanças rítmicas e de andamento. O que predomina é o peso, a cadência, o clima perturbador e a aura inquietante que praticamente te transporta para dentro de um filme de terror.

Se eu tivesse que fazer alguma ressalva negativa a banda por algum motivo, seria por não terem acrescentado a faixa “666 – World Divided”, single lançado no final de 2020, na época da pandemia, que cairia muito bem no tracklist de “Hate Uber Alles”.

Com toda certeza, o fã que estiver aguardando um álbum de Thrash Metal cru e visceral, vai estranhar. O fã que ouvir pensando em clássicos dos anos 80 também vai torcer o nariz. Mas aquele fã que entendeu que a proposta do Kreator é e sempre foi experimentar e mesclar musicalidades extremas com hormonias e melodias difentes, certamente, vai ter o cuidado de ouvir o álbum mais vezes e, à partir do momento que entender o que a banda quis apresentar, a tendência é ir gostando mais a cada audição.

“Hate Uber Alles” não foi feito para agradar nichos específicos do Metal, mas para ser apreciado como um trabalho musicalmente variado, de extremo bom gosto e, sem dúvida, com a assinatura do Kreator.

Nota: 8,5

Para quem gosta de acompanhar podcasts e canais que fazem resenhas em vídeo, inscreva-se no canal do Mundo Metal e aproveita para assistir a nossa resenha sobre “Hate Uber Alles”:

Integrantes:

  • Mille Petrozza (vocal e guitarra)
  • Ventor (bateria)
  • Frédéric Lecrercq (baixista)
  • Sami Yli-Sirniö (guitarra)

Faixas:

  1. Sergio Corbucci is Dead (Intro)
  2. Hate Uber Alles
  3. Killer Of Jesus
  4. Crush The Tyrants
  5. Strongest Of The Strong
  6. Become Immortal
  7. Conquer and Destroy
  8. Midnight Sun
  9. Demonic Future
  10. Pride Comes Before The Fall
  11. Dying Planet

Redigido por Fabio Reis

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