Resenha: Kate’s Acid – “Hellbender” (2026)

A banda belga de Speed Metal, Acid, está de volta com… Bem, o nome Acid está em disputa judicial e a vocalista Kate de Lombaert deu vida à sua própria versão da banda intitulada Kate’s Acid.

Kate não poderia usar a marca e adaptou uma própria e que tivesse proximidade e reconhecimento dos fãs pelos serviços prestados à sua antiga banda.

De acordo com informações do Metal Archives:

“O futuro da banda está atualmente em disputa. Eles publicaram um comunicado em sua página do Facebook afirmando que a vocalista Kate de Lombaert havia deixado o grupo e que continuariam com o baterista Anvill como único membro original. Essa informação foi contestada por um show no festival Keep It True Rising, onde Kate se apresentou na edição de 2021 com sua própria versão de Acid, intitulada Kate’s Acid.

Segundo o baterista original, Anvill, sua versão do projeto efetivamente terminou com a saída de Kate, mas ele detém os direitos da marca Acid.”

De acordo com as informações, os direitos da marca estão com o baterista Anvill. Porém, sejamos sinceros. Kate é a cara e a assinatura da banda. Anvill é um ótimo baterista na linha Speed/Heavy Metal, mas não era o principal destaque nem na fase de existência maior da banda. Enquanto isso, Kate angariava fãs por conta dos seus vocais característicos e voltados totalmente para o estilo. Eu poderia tratar o Kate’s Acid como Acid mesmo, mas creio que isso geraria bastante confusão. Bem parecido com Heaven and Hell e Black Sabbath nessa questão. Portanto, seguiremos com Kate’s Acid mesmo – e isso é Acid puro e com vigor renovado!

Photo: Christian Plath

Kate’s Acid – o futuro natural do Acid

O guitarrista Geert Annys, o baixista Camilo “Thunder Screamer” Ortega e o baterista Ashley “Ash” Ysewyn se uniram nessa nova empreitada de Katrien, que aos 64 anos busca retomar aquilo que havia começado nos saudosos anos 80. O resultado disso foi a ideia colocada em prática e, finalmente, ter saído do papel. O imbróglio envolvendo o nome original da banda acabou atrasando bastante esse processo, mas agora sim podemos ver o que a vocalista queria realmente colocar à tona. De fato, era retornar ao que o underground gostava e sonhava em ver novamente – o retorno de onde havia parado, sem modificar qualquer parte de suas raízes tradicionais.

Musicalmente, a nova joia da vocalista belga reabre os livros de receitas habituais da sonoridade que sempre a permeou. A junção do Heavy Metal com o Speed Metal de forma providencial e primordial foi e é fator preponderante nessa nova empreitada.

“Hellbender” foi lançado no dia 20 de março via High Roller Records, reforçando o fato de que, uma banda que abre shows de nomes como como Black Sabbath, Venom e Motörhead, não poderia ficar no limbo da música pesada. O Acid acabou se tornando um ícone cult do Metal europeu e o novo disco é um sucessor direto de “Engine Beast” (1985), terceiro álbum do Acid. Os outros dois, “Acid” e “Maniac”, foram lançados no ano de 1983.

“Hellbender”, o quarto álbum do Acid

Pronto, falei! Naturalmente, musicalmente e moralmente é o quarto álbum do Acid, mas verdadeiramente, oficialmente, não é. E mesmo não sendo, não pode ter o seu brilho retirado por conta de disputa judicial. O plano de Kate era retomar o som que ela fazia, que ela saber fazer e que ela sempre quis retomar.

Ela sabia que sua voz havia se tornando marcante no underground europeu e até mesmo fora da Europa. E, sabiamente, ela voltou com esse espírito e com parceiros que compraram a sua ideia. Claro que, essa nova turma acrescentou suas ideias e deu uma roupagem diferenciada, saindo do possível caricato para uma sonoridade com identidade e evolução. Sendo assim, o resgate da sonoridade tradicional trouxe grandes expectativas a partir do single que carrega o nome do disco.

O álbum “Hellbender” apresenta faixas com ritmo galopante e puxados para o nosso amado Rock Veloz, enquanto também traz o lado tradicional e com abordagem mais épica. Além disso, temos dois momentos diferenciados no disco a qual também serão comentados a seguir.

O lado mais Speed de “Hellbender”

Aqui, temos as músicas de maior apelo ao estilo rápido, rasteiro e cortante, das quais trazem aquele apelo mais acelerado em todos os aspectos. A banda pisa fundo no acelerador com a faixa-título, “The Lightning Conductor”, “Do Not Burn the Witch” e “Valkyrie”.

Dois personagens: o motociclista mecânico Crazy Curly…

“Hellbender” é a faixa de maior ligação entre o passado do Acid e o presente com o Kate’s Acid, além da própria capa do novo álbum. A máquina poderosa que vemos na capa e também no lyric video promocional, é a construção finalizada pelo personagem Crazy Curly, mostrando o que aconteceu após mais de 40 anos. Tal personagem é tido como o rei da estrada e um excelente mecânico. Ou seja, a música representa a velocidade, a persistência e a atitude a qual envolve o Heavy Metal.

Após um início a qual a guitarra simula o ligar da máquina, temos os primeiros riffs ligando os motores, com bateria e baixo acendendo as turbinas. Uma levada contagiante e que te faz colocar a cabeça para a fora do vidro para tomar aquele vento maroto. Os solos são seguidos por compassos trepidantes e mais tradicionais, tornando toda a estrutura bastante elegante e viciante. Kate incorpora a Kate do passado, porém com o vocal mais encorpada e com mais habilidades que outrora. Somente esse som já destruiu discos inteiros lançados no mesmo ano!

…E o guarda florestal condutor de raios

“The Lightning Conductor” coloca em cena um guarda floresta e que este seria convocado pelo céu para um jogo. Pelo trecho da letra fica perceptível o jogo.

“Sete vezes atingido por um raio
Sete vezes ele testou a sorte
O para-raios humano é como ele é chamado
A lenda fala, sua história é contada
Ele é o para-raios”

A letra me fez lembrar de “Seventh Son of a Seventh Son” (Iron Maiden). E a sonoridade até possui algo relacionado ao receituário dos ingleses, mas segue a sua própria toada. Após o som do raio tocando o solo ou algum outro local, o ritmo veloz dá as cartas novamente. Guitarras aceleradas e ritmo de bateria constante, hora trepidante, hora com pedais duplos e tilintar brilhante de pratos. Kate utiliza vocais dobrados e traz um efeito muito bom para trechos em específico. Próximo do solo, a música acrescenta boa dose de melodia e, ao embarcar nos solos, deposita essa melodia com sabedoria até retomar o posto de suas bases.

A importância da bruxa com seu conhecimento ancestral e o legado da valquíria

“Do Not Burn the Witch” apresenta em seus primeiros segundos riffs eletrizantes e que largam na frente em qualquer corrida que se dispute. A levada cativante une forças com a própria letra a qual retrata a bruxa como fator de suma importância para grandes batalhas, pois ela detém o conhecimento ancestral e não tem culpa de toda a destruição que assola as terras. Afinal, no momento mais sem esperanças, você precisará dela e ela estará pronta para ajudar e os seus poderes serão revelados.

“Valkyrie” é um dos singles lançados pela banda e inicia com o som do chifre em meio à galeria de montanhas gélidas do Norte. O chamado acontece e a primeira alavancada de guitarra reforça o chamado, convocando riffs incendiários e uma bateria mais veloz que a maior parte do disco. O refrão uma energia alta em particular e os solos dão um charme mitológico ainda maior para a trama. Na segunda parte do solo, é possível imaginar um voo ao horizonte de um grupo de valquírias. Embora seja a faixa mais curta do álbum, com pouco mais de 3 minutos, entrega muito, mas muito mais do que muita faixa com 10 minutos ou mais de duração.

Faixas com linhas mais voltadas ao Heavy tradicional

Dessa vez, temos músicas como “Taking Back My Wings”, “Riding Out” e “Stormchaser” apostam em uma abordagem mais épica e tradicional. É o Kate’s Acid nadando pelos dois mares a qual conhece ambos os caminhos muito bem.

A retomada do controle perante à carreira musical e a ode às viagens de moto

“Taking Back My Wings”, como o próprio nome diz, retrata a recuperação e reorganização do que fora construído no passado. Trata diretamente sobre a volta da banda aos palcos, mais precisamente da própria Kate, e sem precisar apelar em nenhum momento. Apenas é descrito e comemorado esse retorno ao posto em que ela jamais deveria ter saído.

O riff inicial é daqueles bem pujantes e repletos de feeling, além do harmônico antes de partir para as bases em versos. A bateria modifica e muito a sua estrutura para acompanhar essa jornada diferenciada e imprime um ritmo elegante totalmente voltado para o tradicional. Os solos desfilam toda essa elegância, enquanto o baixo cantarola as bases e também entrega um conjunto de notas que fazem toda a diferença. Possui um tempero e um charme alá Black Sabbath, da fase Ronnie James Dio.

“Riding Out” possui um início bem daqueles em que você está prestes a pegar a rodovia, sentido Sul do céu. As letras evidenciam e celebram a viagem de moto. Sexta-feira à noite é o grande momento. Ligue os motores e vamos pegar essa estrada musical.

Os riffs transcendem em melodias como um trocar de marcha. O ritmo inserido é cativante e também é enriquecido pelos vocais de Kate. Os solos bem distorcidos e condizentes com a trama dão um toque ainda mais especial ao som, que por sua vez, tem certo intervalo até pegar embalo novamente.

“Jogando sinuca, jogando dardos
Ou reunidos em volta da fogueira
Cerveja gelada por perto
Contando tudo sobre viagens e motos

Sua vida está em jogo
Então leia a maldita placa de trânsito
Reduza a velocidade um pouco antes da curva
A sorte pode não estar do outro lado”

O caçador de tempestades

Este personagem precisa contar a sua história e não recuará jamais. “Stormchaser” traz mais um capítulo voltado ao Metal tradicional, tendo um início à capela bem construído, além dos primeiros dedilhados que complementam esse início e iniciam a jornada com precisão. Os refrãos possuem bastante destaque devido ao seu formato mais encorpado. O Heavy Metal tradicional aliado ao Hard Rock de época oferece um ganho incrível aos solos, que por si só, são excelentes.

Sonoridades diferenciadas que somam forças para a qualidade da obra

Primeiramente, “Buccaneers” adiciona um toque de Hard Rock que varia entre os anos 70 e 80, enquanto “Air Raid” encerra o álbum com uma atmosfera mais suave, diferenciada e dominante.

Capitão Morgan, o Kraken e os tempos atuais

Logo a partir do primeiro riff de “Buccaneers”, ouvimos uma sonoridade que remete a Rainbow e elementos dos anos 70. A música apresenta um riff encorpado com uma levada constante; ela não ousa na velocidade, mas soa simpática e produtiva. O refrão reforça essa veia setentista e os solos mergulham nas décadas de 70 e 80, assim, deleitando qualquer fã de Classic Rock e Heavy Metal. A letra destaca o lendário Capitão Morgan, sua tripulação em alto mar e o próprio Kraken.

“Eles içam suas velas, seus sabres afiados
E mantêm seus revólveres sempre à mão
Por um barril do melhor uísque do Capitão Morgan
Eles lutam e saqueiam sob seu comando”

“Air Raid” encerra o álbum de forma magnífica. A faixa apresenta solos magistrais de guitarra, uma levada com identidade própria e uma letra que conecta metáforas à nossa realidade. A guerra nunca para; a mídia apenas deixa de noticiá-la por algum tempo. Classificamos a música como “a balada do disco”, e ela realmente cumpre esse papel. Mas a obra vai muito além disso. É a trilha perfeita para você terminar seu conhaque e voltar tranquilo para casa sob o tapete estrelado. Mas tome cuidado: mísseis têm cortado e sujado o céu no lugar das estrelas.”

Kate’s Acid / Reprodução

Considerações ácidas finais

Primeiramente, o lançamento de “Hellbender” impulsiona a retomada da carreira de Kate, permitindo que ela estabeleça uma continuidade real em vez de um retorno passageiro. Dessa forma, o disco consolida não apenas a volta do Acid, mas a estreia da sua nova formação: o Kate’s Acid.

Além disso, Camilo (baixo), Ash (bateria) e Geert (guitarra) demonstram todo o seu talento ao emularem com maestria o legado clássico da banda, enquanto imprimem suas próprias identidades musicais. Como resultado, o álbum foge de qualquer estigma de cópia barata e honra profundamente a história da banda. Por fim, desejo prosperidade à jornada do Kate’s Acid e torço para que Katrien traga seus novos comparsas para shows no Brasil em breve!

“Sem bandeiras, sem heróis, sem gritos de vitória
Apenas ecos assombrados de dor e medo”

nota: 9,0

Integrantes:

  • Kate de Lombaert (vocal)
  • Geert Annys (guitarra)
  • Camilo “Thunder Screamer” Ortega (baixo)
  • Ashley “Ash” Ysewyn (bateria)

Faixas:

  1. Hellbender
  2. Taking Back My Wings
  3. The Lightning Conductor
  4. Riding Out
  5. Do Not Burn the Witch
  6. Valkyrie
  7. Buccaneers
  8. Stormchaser
  9. Air Raid
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