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Resenha: Ildaruni – “Beyond Unseen Gateways” (2021)

Gravadora: Black Lion Records

Esta resenha começa com o seguinte desafio: Cite cinco bandas de Heavy Metal oriundas da Armênia em apenas um minuto (cronometrando o tempo…).

   

Conseguiu? Pois é! Esta é sem dúvidas uma missão impossível quando se trata de um país com pouca visibilidade (ou nenhuma) quando o assunto é Heavy Metal.

Felizmente, o país deu cria a uma das melhores bandas de Pagan/Black Metal da atualidade e pelo andar da carruagem, certamente, teremos um roteiro modificado e, quem sabe num futuro não muito distante esta realidade sobre as bandas armênias seja uma página virada.

O personagem central dessa história atende por ILDARUNI, quinteto formado em 2016 na cidade de Yerevan, trazendo em seu line up Artak Karapetyan (vocais, baixo), Mark Erskine (guitarras), Robert Meliksetyan (guitarras, backing vocals), Garbis Vizoian (baixo) e Arthur Poghosyan (bateria).

Executando um excelente Black Metal, e mergulhando fundo também pelo estilo Pagan Metal, o quinteto lançou em abril deste ano, “Beyond Unseen Gateways”, álbum de estreia contendo oito faixas, divididas em apenas 52 minutos de duração.

Abordando temas como paganismo, ocultismo e mitologia, o disco traz influências de bandas como Borknagar (antigo), Orphaned Land, Dissection, Enslaved, Windir, Wormwood, Insomnium, Melechesh, Meadows End, Varathron, Batushka, Thyrfing e Rotting Christ, este último, certamente, a grande influência do grupo já que sua música em dado nos remete à sonoridade de Sakis & Cia.

Isso se aplica principalmente à qualidade musical e a produção de altíssimo nível que, aliás, já se tornou característica positiva para os estilos mais extremos. Para coroar o lado técnico, o álbum conta com a mixagem e masterização de George Emmanuel (Lucifer ‘s Child, Rotting Christ) e foi gravado no Pentagram Studio, na Grécia.

O disco apresenta um trabalho rico em melodias, tal qual em instrumentação já que em dado momento as harmonias e melodias se fundem com o Folk e o Celtic Metal, embora a essência e a raiz de sua música seja de fato o Pagan/Black Metal propriamente dito.

As letras também retratam sobre o período pagão da Armênia antiga, principalmente as lutas de Van Kingdom contra o Império Assírio, relatos de guerras e também algumas vitórias e lutas não celebradas de certos reis.

Apresentação feita, é hora de mergulhar nas melodias cativantes de “Beyond Unseen Gateways” e descobrir que Yerevan não é apenas a cidade com um grande número de bibliotecas públicas, museus, teatros, jardins botânicos e zoológicos.

O disco abre com a sombria “Haldinini Baushini, Imsheini Tariani”,faixa quase instrumental, não fossem as vozes declamadas em tom de sussurros. Em seus “três minutos e meio” de duração, suas harmonias conduzem o ouvinte à uma atmosfera épico/celta/medieval, convidando-o a adentrar na atmosfera sombria e deveras encantadora de “Beyond Unseen Gateways”. Sabe a sensação de que estamos diante daqueles rituais onde sacrifícios são realizados e almas são oferecidas aos deuses como troca? Pois bem, essa é a atmosfera presente na “Intro” de abertura que nos prepara para a destruição sonora vindoura.

Com claras referências aos gregos do Rotting Christ, “Treading The Path Of Cryptic Wisdom” abre os portões para que possamos adentrar e desbravar o mundo sombrio e denso do disco. Trazendo linhas de vozes agonizantes e uma levada ora cadenciada, ora mais branda, mergulhamos em suas melodias belíssimas e em seu instrumental executado com maestria, nos remetendo aos já citados Rotting Christ da fase “Sleep Of The Angels”, “Aelo” e “Rituals”.

Destaque para a execução perfeita dos coros, cuja impressão é que estamos diante a batalha do bem contra o mal e enquanto os gritos de “avante” são bradados, almas são retiradas de seus corpos através de lâminas afiadas cujos corpos caem sem vida, esvaindo em poças de sangue. Esta é daquelas canções que já nasceram clássicas e certamente serão hinos do agora quarteto em suas apresentações ao vivo.

* Não por acaso, temos aqui o single contemplado com um belo Lyric Video.

Os riffs iniciais, precedidos por sussurros de “Perpetual Vigil”, dão a deixa perfeita para o ouvinte mergulhar nas melodias densas, sombrias e pesadas de uma canção com andamento mais lento e arrastado. Um dos pontos altos de “Perpetual Vigil” está nas linhas pesadas de baterias de Arthur Poghosyan, demonstrando técnica em determinado momento e doses extremas de peso quando necessário. Não menos importantes estão os vocais espetaculares e agonizantes de Artak Karapetyan, um dos melhores vocalistas do estilo na atualidade, bem como as partes orquestradas, executadas de forma genial, trazendo uma beleza a mais para a referida faixa.

A destruição sonora segue sob as harmonias de “Boundless Numen: Gardens of Ardini”. Em mais um momento de melodias extremas, somos conduzidos pelos vocais ásperos e aflitos de Artak, pelas guitarras sombrias da dupla formada por Mark (Erskine) e Robert (Meliksetyan) e pelos coros excelentes que dão a tônica perfeita em mais um momento grandioso do disco. A propósito, os coros presentes em determinadas faixas caíram feito luva na sonoridade da banda, bem como abrilhantaram ainda mais, este que é um trabalho absurdamente belo em todos os sentidos.

O encontro magistral entre o Folk, Medieval, Celtic e o Black Metal propriamente dito está presente na estupenda “Towards Subterranean Realms”, uma das músicas mais belas do disco, senão a melhor canção na opinião desse que vos escreve. Embora fique claro que não há em nenhum momento uma música “fraca” e/ou “morna” nesta gigantesca obra musical. Eu ficaria longos minutos descrevendo cada detalhe desta maravilha.

Não por acaso, esta é a segunda faixa mais longa do álbum, e sua construção sonora é algo que simplesmente não se explica, apenas se aplaude. Tudo aqui é absolutamente PERFEITO!

Ainda me pergunto como funciona a cabeça de um músico ao compor uma música dessa magnitude, e de forma perfeita unir com maestria, melodias, riffs, solos, peso, cadência, harmonia e ainda adicionar instrumentos não convencionais em um estilo cuja essência preza pela agressividade e brutalidade.

   

A propósito, o que são as vozes de Artak nesta faixa? Em seu “lamento desesperado” (leia-se, vocais), a impressão é que sua garganta está sob a lâmina afiada de uma faca e a qualquer momento o mesmo será degolado, tamanho o desespero em sua voz.

Preciso dizer: “Towards Subterranean Realms” ascendeu dentro de mim uma paixão avassaladora ao ponto de fazer um pedido aos nobres amigos: Quando eu não estiver mais neste plano de vida, esta deverá ser a trilha sonora tocada em meu funeral.

Ao final é necessário fazer uso da tecla “Repeat” sem nenhuma moderação.

*No caso do instrumento não convencional supracitado: Trata-se da Tin Whistle, também conhecida como Pennywhistle, pequena flauta de metal ocasionalmente também de madeira, usada principalmente nas músicas celta, medieval e escocesa.

Seguindo em alto nível e mostrando que agressividade é essencial em estilos como o Black Metal, somos levados pelos belos acordes de “Exalted Birth”, mais uma faixa perfeita em mais um momento envolvente, onde é difícil descrever com palavras a grandiosidade de suas harmonias e principalmente de sua atmosfera. Em resumo: Espetacular.

Em sua reta final, “Arakha” é mais um aula de peso, velocidade, agressividade e melodias brutais oferecidas por Artak & Cia. Tal qual um soco no estômago, somos atingidos em cheio por uma brutalidade sonora sem piedade, onde adentramos à conquista e reinado de Arakha, também conhecido como Nabucodonosor IV, o filho de Nabonido e Rei da Babilônia. A ascensão de Arakh é enaltecida em seu refrão que diz: ” Maru restu sit libbiya/Arakha, rei da Babilônia/Maru restu sit libbiya/Arakha, rei das terras”.

Apesar das vozes agonizantes, gritos desesperadores e um instrumental preciso onde cada detalhe se sobressai, não espere uma letra onde se trata de atos sexuais entre Équidna e Tifão, ou algum conto erótico relatando uma noite de sexo oral entre Medusa e Lúficer.

Destaques para os coros de vozes, ofertando ao ouvinte com um ar mórbido, sombrio e de certa forma, perturbador. Após sua última nota musical, é recomendado fazer uso da tecla “Repeat” por inúmeras vezes.

[Arakha (figura central da música): O último rei babilônico independente da Armênia, também conhecido como Nabucodonosor IV. Após a conquista da Babilônia pelo Império Aquemênida em 539 aC, os babilônios tentaram se rebelar contra seus conquistadores persas várias vezes. A primeira rebelião foi liderada por Nidintu-Bêl, mas foi violentamente reprimida por Dario, o Grande. A última resistência foi liderada por Arakha]

Cruzando a fronteira final e sem mostrar a mínima piedade por nossos (pobres) tímpanos, “Whence Ravenstone Beckons” comanda o ato final, fechando com chave de ouro este que é um dos melhores discos lançados em 2021, disputando com os franceses do Gorgon o primeiro lugar no pódio.

Em sua construção rítmica, a música traz riffs de guitarras voltados ao Heavy Metal flertando com o Death em alguns momentos, embora seu embrião sonoro esteja conectado ao Black Metal, e isso está evidente nos vocais ríspidos e ásperos do jovem Artak Karapetyan, nos remetendo a grupos como Immortal, I, Abbath, Borknagar (antigo), Vintersorg, Varathron, etc.

Além dos vocais que aqui flertam com I.C.S Vortex (Borknagar, Arcturus, Dimmu Borgir, etc) e Galder (Old Man Child), destaques para os coros, que mais uma vez são os grandes atrativos, e nos traz à mente o que fazem os mongolianos do The HU.

N do R: Apesar da sonoridade rápida, ríspida, agressiva e sombria do Ildaruni, suas letras não têm nenhuma ligação com o satanismo ou algo do gênero, temas comuns quando se tratam de bandas de Black Metal. Diferente de inúmeros grupos do estilo supracitado, o quarteto retrata em suas letras contos sobre sua cultura, suas crenças. pessoais, passando pela história pagã e pela mitologia.

Banda e disco extraordinários! Altamente recomendado.

Algumas observações acerca da banda e disco:

*O primeiro registro da banda foi “Towards Subterranean Realms”, EP contendo duas faixas (presentes no debut), lançada em julho de 2018.

*O disco traz participações especiais de Arthur Atayan (bagpipes, tin whistle) e Anna Hovhannesyan (backing vocal).

*A origem do nome Ildaruni: “Ildaruni” é na verdade o nome urartiano de um dos maiores rios da Armênia, também conhecido como Hrazdan.

*A excelente qualidade musical de “Beyond Unseen Gateways” rendeu ao grupo um contrato com a gravadora sueca Black Lion Records, responsável por divulgar o disco mundo afora.

*Atualmente, eles seguem como quarteto já que Garbis Vizoian (baixo), deixou o posto, embora tenha contribuído nas gravações do full lenght.

   

Nota: 9,9

Integrantes:

  • Artak Karapetyan (vocal, baixo)
  • Robert Melikselyan (guitarra)
  • Mark Erskine (guitarra)
  • Arthur Poghosyan (bateria)

Faixas:

  • Haldinini Baushini, Imsheini Tariani
  • Treading The Path Of Cryptic Wisdom
  • Perpetual Vigil
  • Boundless Numen: Gardens Of Ardini
  • Towards Subterranean Realms
  • Exalted Birth
  • Arakha
  • Whence Ravenstone Beckons

Redigido por: Geovani “Fox On The Run” Vieira

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