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Resenha: Helslave – “From The Sulphur Depths” (2021)

Gravadora: Pulverized Records

Quem acompanha a movimentação do cenário italiano de Metal em todas as suas principais vertentes sabe muito bem que o país da boa massa já não é mais uma espécie de coadjuvante relacionado a este assunto há muito tempo, se é que fora algum dia. Diante de tantas bandas excelentes surgindo, somados aos retornos triunfais de vários medalhões e também de bandas que tiveram seu início lá pela década de 80, e que finalmente estão de volta à ativa, nós sempre estaremos sujeitos a apresentar algo novo. Seja um lançamento de uma banda mais antiga, ou um trabalho inicial de uma banda estreante. O fato é que isso quebra qualquer resquício de argumentação fajuta e sem qualquer fundamento de que o Metal e o Rock “morreram”. Eu costumo dizer que a pessoa em si é quem morreu para o Metal e para o Rock, pois é ela que está desistindo desse caminho, o melhor caminho de todos, o caminho da arte que não é fajuta e não lhe impõe nenhum tipo de ordem. Basta você apreciar os seus artistas prediletos e está tudo mais do que certo.

   

Revelada a localidade daquela que venho apresentar ao caríssimo e sábio público leitor, vamos aproveitar para comer aquela macarronada da mama e degustar aquele vinho que você guardou desde que completou quinze anos de idade. Ora, ora! Está mais do que na hora de ver o inferno em chamas elevar sua prole e invadir o plano terreno através dos romanos do Helslave! Sim, para quem conhece a banda, eles estão de volta com mais um petardo do submundo, sucessor de “An Endless Path” (2015), “From The Sulphur Depths” (2021) anota mais uma marca histórica para a banda que acaba de lançar o seu segundo full-length. Pela capa já podemos notar várias diferenças, pois os traços lembram muito as artes de álbuns como “Left Hand Path” (1990), clássico do Entombed, “Penetralia” (1992), relíquia do Hypocrisy, “Imperial Doom” (1992), maravilha ostentada pelo Monstrosity, e “Like an Everflowing Stream” (1991), álbum do Dismember que jamais envelhecerá. Isso só para citar alguns com capas de temática e traços parecidos. “From The Sulphur Depths” foi lançado no dia 23 de abril deste mesmo ano via Pulverized Records, colocando a banda em evidência mais uma vez e com mais força para alcançar fatias maiores do mercado fonográfico de Metal extremo. Jari Sgarlato (guitarra), Francesco Comerci, (bateria), Luca Riccardelli (baixo), Diego Laino (vocal) e Marco Benedetti (guitarra) formam o quinteto pertencente a Roma, Lazio. Dan Swanö cuidou da mixagem e masterização, enquanto meu quase chará Stefano Morabito gravou as linhas de bateria. Juanjo Castellano é quem assina a arte de capa magnífica.

Ao mergulhar nas profundezas do enigma absoluto sobre os ritos do mundo inferior perante o pecado da carne pútrida e imprestável, nos deparamos com um cheiro forte de enxofre ao declarar o que está escrito na primeira pilastra envolta de sangue. Seu nome é aquele que vemos no portão principal que representa a capa do disco, ou seja, “From The Sulphur Depths”, faixa de introdução ao material putrefato contido nesta receita macabra. E é dessas profundezas que ouvimos vários sons misteriosos capazes de prender o ouvinte em meio à cena que se mostra cada vez mais presente, até que a criatura se aproxima e… Através do primeiro berro constante é dada a largada para a profana “Unholy Graves”, que serve de inspiração para violar os túmulos das criaturas mais poderosas e implacáveis que o mundo carnal ainda não viu. Vocais bastante potentes nas linhas guturais que o bom amante do Metal da morte aprecia apoiados por guitarras serrilhadas e sangrentas, e um baixo com sonoridade de chumbo batendo no solo com toda a força do mal fervilhante. E o que falar das linhas de bateria? Simplesmente marcantes e causadoras de feridas mortais em qualquer ser que não suporta o poderio e a violência sonora da gigante vertente que conhecemos por Death Metal.

“Unholy Graves” single

Logo a seguir temos um desabar de estalactites que causam um som ensurdecedor ao tocarem o solo repleto de estalagmites. A breve narrativa da canção anuncia mais uma devastação sonora que se elevará desse lugar para o plano principal com a intenção de prosperar e também de proliferar diante do mundo abusivo atual. “Thrive In Blasphemy” é o tema certo para ser tratado em momentos de repúdio e ódio sem qualquer motivo importante ou concreto. Novamente o quinteto romano despeja toda sua veracidade em prol do som demoníaco e impuro. Os riffs executados pela dupla de guitarristas, Jari Sgarlato e Marco Benedetti, são catastróficos a ponto de fazer qualquer estrutura firme sofrer vários abalos sísmicos seguidos. Momentos mais densos e menos velozes são encontrados durante a audição, que se fazem ter mais destaque ao servir de abertura para mais solos certeiros e condizentes com o andamento da canção. O desfecho é simplesmente magistral e conta com mais um solo curto junto a um reinício na linha do Entombed em seus anos dourados. Também é possível encontrar elementos de bandas que praticam o que chamamos por Blackened Death Metal, porém, apenas detalhes mais breviloquentes sem tirar o foco da ideia principal que é manter-se somente dentro das entranhas do Death Metal. Agora se você pedia pra entrar no mosh em meio a toda essa danação perpétua, chegou a hora! Embora possamos dizer que desde o início já se imagina o mosh que cada faixa possa causar. Mas, deixemos isso com “Perpetual Damnation”, pois esta se mostra bastante presente graças ao seu princípio imediato sem que possa respirar junto às labaredas constantes da caverna subterrânea. O rio de lava borbulhante corre próximo aos seus pés que somem na fumaça provocada pelo atrito com o enxofre, que por sua vez torna o ambiente quase sem opções para respirar e seguir em frente. Cada marretada na bateria provocada por Francesco Comerci só aumenta o ardor e sofrimento de quem ficou preso nessas profundezas e pereceu como um ser inanimado e sem valor, enquanto os solos de guitarra enfeitam a obra e infestam o lugar com seus diabretes famintos por almas jovens.

Você foi o escolhido para bater o último prego do caixão da mais nova vítima de nosso plano astral. Através do ocultismo e do esoterismo, você dá de cara com seu passado e seu futuro ao mesmo tempo em que vive o presente, ouvindo “Last Nail In The Coffin” no último volume, e consta toda a base diferenciada e explorada dentro do estilo sem se jogar em mares estranhos que lhe possam causar uma dor jamais sentida. Afinal, é melhor e mais confortável permanecer em seu território sonoro para que este seja cada vez mais abrangente e atrativo aos adeptos de plantão. Você perguntou se há uma pitada de Death ‘n’ Roll? Ah, poderá encontrar sim em meio a tantos detalhes que fazem o som dos italianos ser cada vez mais exuberante. Neste momento você realiza um desejo maligno e o que podemos dizer é que seja feita a tua vontade desde que ouça “Thy Will Be Done” e mantenha firme com toda sua energia sombria capaz de derrubar prédios com apenas um olhar de fogo. Nas entradas às margens do rio de lava temos blast beats, riffs cavalgados, palhetadas constantes para baixo, acordes compostos e muitos solos viscerais para nenhum demônio botar defeito. A nossa vontade está sendo feita aqui e parece que estão limpando a área com sua musicalidade impetuosa para que o mal prevaleça e os temas apocalípticos sejam estudados nas escolas.

“Funereal Lust” single

Graças às suas preces estamos diante de uma luxúria fúnebre, onde cada patente do exército infernal se prontifica a explorar e destruir determinada área, seja carnal ou espiritual. O clamor pelo ato funéreo é colocado à prova através de excelentes linhas de guitarras e baixo, que contornadas pelos vocais enraivecidos de Diego Laino, fazem o mundo girar para o lado contrário, tamanha a pressão exercida pelos seus guturais, quanto pelo empenho do baterista Francesco Comerci, outro que executa um papel fundamental para a banda e para quem gosta de verdade desta sanguinária vertente que torna “Funereal Lust” bem viva mesmo com tanta morte jorrada como água saindo de um cano furado. Enfim, é dado o início da profanação completa iluminada pelas tochas de fogo-fátuo de “Desecration”, que logo de cara apresenta seu incendiário vocalista Diego Laino listando as tarefas de um ser maligno junto ao comboio de notas gritadas pelos instrumentos de seus respectivos compatriotas. Solos e diferenciais para que a canção tome uma proporção única se fazem presentes constantemente, o que evita de alguém pensar que está ouvindo a mesma canção o tempo todo. Isso passa anos-luz longe de tais profundezas musicais. Jari Sgarlato & Benedetti formam um verdadeiro duo de guitarristas que marcam com ferro em brasas as duas fórmulas bem apresentadas não apenas nesta, mas em todas as canções até o presente momento em que estamos diante de uma passagem que leva para o hall central dessa gruta profunda e soturna.

“Rotting Pile Of Flesh” single

A necromancia toma conta do ambiente através da pilha de carne apodrecida, servindo de sinal para as tais ordens de invadir o plano terreno e coletar o máximo de almas puras possível. O rito da carne recebe a trilha sonora de “Rotting Pile Of Flesh” com aval do líder dos gárgulas que sobrevoam noite adentro em busca de seres alimentados pelo pecado da vida suja e corrupta. Com um refrão intimidador o vocalista Laino interpreta a sua peça como ninguém e esbanja técnica ao ampliar e ao diminuir suas linhas graves e vorazes. Nesse ritual nada sagrado avistamos aquele popular urro esticado quase ficando de fundo para seja estendido o tapete negro para mais solos inacreditáveis de tão bem encaixados na “múzga”. O final ressoa como um eco dentro da caverna. Ideia mais do que bem aproveitada. Chegamos ao hall central, onde estão sentados à mesa os representantes de cada um dos dezoito portões do inferno, e estão te esperando para assinar a sentença dos vivos. Após a introdução rústica e bruta, ouvimos um solo, e após isso um som mais arrastado que amplia o marcador em favor do vocal gutural de Laino. Tanto as bases quanto a segunda guitarra são bastante precisas e esboçam um manuscrito essencial para este clima carregado e cheio de pesadelos insanos que alimentam as diversas criaturas viventes de tal ambiente. A faixa “The Sentence Of The Living” possui cara de final de disco, mas um final apoteótico, eu diria. Você pode sentir a cada nota mais aguda a dor acachapante, lamuriante e perversa, revestida de chamas abrasivas durante a jornada. O final definitivo apresenta um violão marcado por um coro ao fundo, em que o povoado mongol pratica desde o início dos tempos.

Se no ano anterior tivemos uma disputa muito acirrada em se tratando de Death Metal, neste ano parece que a coisa irá se repetir com tantos lançamentos de qualidade das mais variadas bandas que, por estarem mais livres para seguir seus propósitos, conseguem extrair suas ideias com mais facilidade e colocá-las em prática, para a partir daí fazer a alegria dos adeptos dessa clássica vertente do Metal. É claro que estamos apenas na metade de 2021, mas o Helslave se tornou carne de pescoço para quem deseja buscar as melhores posições e figurar entre os grandes trabalhos do ano vigente. Contudo, o Helslave conseguiu sair de banda surpresa e comum com o seu bom debut para uma banda muito experiente e capaz de nos presentear com um marco musical desse calibre. Que estes nobres italianos possam frequentar as terras brasileiras assim que as coisas se normalizarem, pois ouvir esse álbum na íntegra será completamente marcante para quem puder presenciar.

Falando nisso, nada como presenciar algo tão sublime que beira a perfeição, não é mesmo? É claro que o nobre leitor pode não chegar até a mesma conclusão, mas jamais poderá dizer que participou de uma aventura ruim ligada ao Metal da morte. A competência dos músicos para com o seu propósito em relação ao tipo de música escolhida para tocar é bastante sólida e destacável, reforçando os dizeres ao tratar o segundo álbum como um divisor de águas em seu repertório. Daqui para frente a estrada será ainda mais repleta de desafios, tanto para notar a resistência de uma banda com um grande trabalho em mãos, quanto para uma banda que estará diante de um processo inédito quando estiver prestes a lançar a sua terceira ponta de lança, ou seja, mais um disco após o lançamento do esplêndido “From The Sulphur Depths”. É mais do que hora de resgatar tudo aquilo que se procura em um álbum de Death Metal e aproveitar os bons ventos italianos que permeiam o cenário mundial referentes ao Metal em geral.

Nota: 9,5

Integrantes:

  • Diego Laino (vocal)
  • Jari Sgarlato (guitarra)
  • Marco Benedetti (guitarra)
  • Luca Riccardelli (baixo)
  • Francesco Comerci (bateria)

Faixas:

  • 1. From The Sulphur Depths (Intro)
  • 2. Unholy Graves
  • 3. Thrive In Blasphemy
  • 4. Perpetual Damnation
  • 5. Last Nail In The Coffin
  • 6. Thy Will Be Done
  • 7. Funereal Lust
  • 8. Desecration
  • 9. Rotting Pile Of Flesh
  • 10. The Sentence Of The Living

Redigido por: Stephan Giuliano

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