Resenha: Hellripper – “Coronach” (2026)

O sucessor do ótimo “Warlocks Grim & Withered Hags”, de 2023, foi lançado e se tornou mais um reforço na discografia qualificada da one-man-band a qual atende por Hellripper. O multi-instrumentista James McBain comanda cada engrenagem dessa fábrica musical e acaba de colocar na praça o álbum “Coronach”, quarto trabalho de estúdio.

A nova obra do músico escocês foi lançada pela Century Media Records em 27 de março e marca uma continuidade no processo criativo de James, além da própria evolução como músico e criador de sonoridades extremas.

Nesse novo trabalho, a evolução criativa com relação às estruturas das músicas é bastante notória, pois incluem mais camadas e variações rítmicas dentro das mesmas – variações bruscas e determinados momentos e que trazem um ar apocalíptico ainda maior.

James McBrain insere vocais infernais daqueles em que o cantor dilacera a própria alma ao vociferar como uma besta abismal. Isso reflete em grande parte das estrofes, além dos refrãos serem ainda mais poderosos e repletos de pura energia maligna. E é o que apreciamos e buscamos através dessa plumagem sonora.

Hellripper une o que há de melhor dentro do Black/Thrash, Black/Speed e Black Metal propriamente dito. Porém, o disco não pode ficar apenas nesse resumo e iremos nos aprofundar mais na sonoridade contida em “Coronach”.

James McBain / Hellripper / Bandcamp

A evolução sonora do Hellripper

McBain detém o controle total do seu universo de pensamentos e experimentações musicais – todas elas voltadas para o Metal – para oferecer mais combustível ao seu projeto. Projeto esse com cara de banda, pois se apresenta como uma banda e só falta incluir os integrantes nas gravações dos próximos discos, caso queira. No entanto, o modelo atual funciona muito bem e suas ideias prevalecem de tal forma que trazem um ar de composição em banda mesmo.

Além disso, o multi-instrumentista James também realizou a gravação e mixagem das músicas. Damian Herring cuidou da masterização, enquanto Mortensis Artwork – como o próprio nome diz – ficou a cargo da artwork. Adam Burke é quem assina a capa de “Coronach”. O álbum contou com músicos de apoio que ajudaram a abrilhantar ainda mais a obra e serão destacados no rodapé deste pergaminho musical.

O mar envolto de sonoridade abissal pede passagem e é hora de um mergulho profundo no novo capítulo maléfico do Hellripper!

Os novos capítulos envoltos por histórias e mitos locais

“Coronach” explora o lado sombrio da história, do folclore e da literatura da Escócia, terra natal do mentor e idealizador do Hellripper. Aqui, te aviso sobre uma condição. Não existem sons retos ou de um subgênero musical apenas. A viagem mescla vários caminhos, embora a entidade obscura sonora prevaleça sobre o disco. Já colocou sua touca de banho favorita? Então, vamos ao mergulho nesse mar pantanoso cheio de mistérios a serem revelados.

O vampiro de Melrose Abbey e a referência à própria infância

“Hunderprest” abre caminho para a lenda do vampiro de Melrose Abbey passar. Trata-se do monge escocês que teria retornado dos mortos para matar sua sede através de fluídos corporais rubros. O início já insere uma parede sonora ao injetar um acorde alto e com dedilhados e tremolos de destaque. A bateria mantém uma cavalgada veloz em percurso, enquanto as guitarras entregam uma junção entre o Black/Thrash Metal e o Heavy Metal. Os teclados com notas contínuas de sustentação, evidenciam o pano de fundo denso e lamuriante. Os vocais ásperos ditam o tom da prosa, enquanto a área mais extrema e categoricamente inserida no Black Metal é chamada. Além disso, os solos surgem para distorcer a alma de cada ser, com uma roupagem mais voltada ao Heavy tradicional, em companhia das bases extremas. Contudo, os vocais de McBain ganham tons mais guturais na parte final da faixa.

“Kinchyle (Goatkraft and Granite)” faz referência à própria infância e história familiar do músico na região de Kinchyle. A sonoridade entrega de cara um misto de Black/Heavy com Speed Metal em dados momentos. A bateria marreta sem piedade e o refrão possui bastante destaque ao emanar bastante energia. Soa como uma faixa mais divertida e descompromissada, por assim dizer. Mas o seu lado mais insano provoca à uma valsa de caneca cheia! Possui variações interessantes e condizentes com a trama, sem que haja um desligamento precoce da audição do disco.

Roubos de túmulos e sedução vampírica

Os infames roubos de túmulos em Edimburgo, especificamente as atividades macabras de Burke e Hare no século XIX são retratados em “The Art of Resurrection”. O teclado melancólico ataca de maneira profunda no âmago do ser, criando uma atmosfera próxima ao que o Tristania apresentava em suas músicas. Porém, isso funciona como uma jump scare e mudança de cenário logo em seguida! O Black/Thrash ganha um tom mais progressivo, com o baixo aparecendo mais junto às camadas nefastas da faixa. O ritmo mais cadenciado traz uma junção entre o próprio Hellripper com algo de Crematory, principalmente nas linhas de bateria. Entretanto, o que se destaca mais é o riff principal voltado ao subgênero híbrido.

“Na ponta dos pés, passando por lápides risonhas
Lanternas escuras piscam na névoa passageira
Olhos brilhando, corações radiantes
Em direção ao túmulo, vamos tramando”

Inspirada na criatura mitológica escocesa Baobhan Sith, “Baobhan Sith (Waltz of the Damned)” mostra as suas garras a partir dos riffs de chamado para uma valsa vampírica de matar!

Os riffs insanos penetram os tímpanos da vítima do mesmo modo em que as presas das vampiras das Terras Altas atacam suas vítimas com suas presas afiadas. O refrão traz ainda mais agressividade, incluindo melodias densas e gélidas, além de soarem como verdadeiros arames farpados. As variações enriquecem a obra profana e entra em uma área em que os vocais ganham um tom mais grave, além da convocação da cavalaria sonora. O tilintar dos pratos revelam a aparição das moças de verde à espera de mais vítimas nas montanhas escocesas sob o prazer e riso de Deus.

“Um grito penetrante ecoou enquanto cortavam as gargantas de seus bastardos
O tempo desacelera enquanto, um a um, morrem – um banquete para os corvos”

Consoantes modificadas que representam o som extremo e a Idade do Bronze

“Blakk Satanik Fvkkstorm” se baseia no conto gótico Thrawn Janet, do autor Robert Louis Stevenson, focando em temas de feitiçaria e possessão em vilarejos isolados. O nome da faixa e a forma como é escrita entrega toda a faceta voltada para o Metal negro. Mas, dizer isso apenas seria muita heresia.

A faixa traz um apocalíptico Black/Thrash/Speed Metal com o tempero de enxofre na medida. As bases principais garantem o sucesso das possessões de época e tornam o disco mais revigorante e áspero – um deleite para quem aprecia obra com esse receituário. Os solos, por sua vez, entram em cena sob o guarda-chuva de bases vorazes e acrescentam mais força ao conto a qual é baseada a trama sonora.

“Bruxa! Ou seja você uma Anciã! Ou seja você um Diabo!
Se você estiver morta, que apodreça na sepultura!
Se você estiver condenada, vá direto para o inferno!”

“Sculptor’s Cave” faz referência a uma caverna real na Escócia associada a rituais da Idade do Bronze, além de evidências históricas de decapitação e exibição de corpos. Dessa vez, o baixo entra na jogada e, a meu ver, é o melhor representante para citar a época descrita.

A faixa do escultor traz um ímpeto semelhante à sua antecessora, porém aqui temos aquele tempero de bandas como Nocturnal e o próprio Desaster, mas sempre mantendo a sua identidade intacta. O som possui variantes importantes dentro de seu próprio percurso, acelerando a devastação sonora e obliterando corpos e almas em qualquer plano astral. O refrão veloz, dilacerante e melancólico forma a cereja do bolo maligno. No entanto, vale destacar o momento mais cadenciado também, que promove uma verdadeira marcha fúnebre a céu aberto, em alusão ao que ocorria em época. Quanto aos solos, possuem uma veia totalmente voltada para o Motörhead para depois cair na tentação do Metal moribundo e entregar nas mãos do baixo a chave do sucesso profano novamente. Diria que é uma das minhas queridas desse artefato giratório musical.

“Prove a lâmina, enquanto ela talha feitiços ancestrais
Não há necessidade de temer o desconhecido
No fim, você caminhará além do Véu
Através do sangue, da salmoura, da areia e da sujeira você deve passar”

Doença letal à cavalos e inspiração junto ao poema de Sir Walter Scott

O título de “Mortercheyn” se refere a uma doença contagiosa e letal que afetava cavalos.  Em verso, ela é utilizada como metáfora para descrever a decadência do mundo. Seu início quase a coloca naqueles moldes de Black Metal primitivo, mas a sua investida é eminente e a titularidade do seu estilo principal prevalece novamente. O contexto mais agressivo toma a cena de assalto e libera toda a maldade em som e em voz. Riffs que chamam para a sequência da valsa sombria se tornam verdadeiros deleites dentro de um furacão em forma de música.

O momento em que a bateria se torna o evento principal é o que mais transcende a sensação de mistério, aperto e angústia, e que descamba em um verdadeiro turbilhão sonoro. Vale ressaltar que, o Hard Rock marca presença na parte final da faixa.

A apoteose recebe a marcha fúnebre e estende o tapete carmesim para “Coronach”, aquela que carrega o nome do disco. O Black Metal cadenciado toma forma e a canção inicia de forma narrada. Melodias entristecidas são entregues como lenços para quem chora a perda e/ou está se despedindo, de fato.

A música se baseia em um poema de Sir Walter Scott e descreve o funeral de uma figura heroica, mas ambivalente, cujas glórias públicas escondiam segredos maquiavélicos. Vocais guturais tomam o lugar dos vocais mais ásperos e rasgados, trazendo mais peso para a música. Da metade para o final, a mesma apresenta riffs de Heavy Metal, incluindo os próprios solos, sem a tirar do eixo.

Em questão de entrega, desempenho, fechamento de álbum, e solos mais extensos, a faixa-título cai muito bem como encerramento. Outra de minhas preferidas do disco. E digo isso enquanto James entrega mais lamento ainda em seus vocais até que a música se encerra.

Considerações esculturais finais

Sinceramente, eu não sei se é certo falar em nível de criatividade. Afinal, a criatividade depende da liberdade para que se concretize. E, portanto, quando o projeto é capitaneado por apenas uma figura, fica mais fácil de obter essa liberdade. Não que isso seja melhor do que uma banda se reunir para compor um disco. Isso vai de cada um, mas ao observar de uma forma mais superficial, fica evidente o alcance maior dessa liberdade.

James McBain sabe muito bem como conduzir essa sua liberdade. Tanto que, ao compor, o músico não impõe regras à si mesmo e apenas procura manter as suas criações dentro de uma identidade que o mesmo construiu ao longo desses últimos anos.

“Coronach” é, com toda a certeza, o seu trabalho mais libre e também o mais técnico. Mesmo assim, o lado completamente sujo de suas criações está lá e não foi nenhum pouco esquecido. Muito pelo contrário, segue como mais um trabalho voltado para o Metal extremo e carrega a chama do subgênero híbrido mais sólido do Metal: o Black/Thrash Metal.

“Eu sou a presa, eu sou seu destino, eu sou o fogo, eu sou o ódio
Eu sou o vazio, eu sou o espectro, eu sou a tempestade, eu sou a peste
Que seja maculada a terra por onde eu vagueio, entre as sombras e as pedras
Espreitando em forma de quiróptero, satisfeito com a ira da tempestade
Do ventre profano da terra erguem-se os nascidos do caixão
Hordas do claustro morrem em vão e em dor excruciante
Assim começará… O reinado de Sua majestade vampírica”

nota: 9,0

Integrantes:

  • James McBain (todos os instrumentos)

Músicos de apoio:

  • Joseph Quinlan (guitars solo adicional – faixas 1, 5)
  • Marianne (vocal adicional – faixas 1, 2, 5)
  • Jess Townsend (violino – faixa 4)
  • Max Southall  (percussão adicional – faixa 7)
  • Antonio Rodriguez (gaita de foles – faixa 8)

Faixas:

  1. Hunderprest
  2. Kinchyle (Goatkraft and Granite)
  3. The Art of Resurrection
  4. Baobhan Sith (Waltz of the Damned)
  5. Blakk Satanik Fvkkstorm
  6. Sculptor’s Cave
  7. Mortercheyn
  8. Coronach
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