Resenha: Helloween – “Helloween” (2021)

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Gravadora: Nuclear Blast

Para mensurar este novo trabalho do Helloween e o que ele significa para fãs, cena e a própria banda, seria necessário muito mais do que uma simples análise. Mesmo assim, vamos tentar abordar os principais pontos deste lançamento e ainda avaliar as novas músicas da forma mais objetiva possível e sem perder as informações mais importantes.

1. Reunião

Como quase todo grupo veterano, a longa discografia do Helloween passou por altos e baixos, porém, manteve-se relevante para gerações distintas. Os fãs mais antigos viram o surgimento dos alemães ainda nos anos 80 com os magníficos “Walls Of Jericho” e as duas partes de “Keeper Of The Seven Keys”, já a geração noventista assistiu o renascimento musical ocorrido em álbuns importantes como “Master Of The Rings”, “The Time Of The Oath” e “Better Than Raw”. Mesmo nas fases menos produtivas, souberam se manter em evidência e, em 2016, resolveram realizar um dos maiores e mais improváveis fanservices da história do Heavy Metal. Promoveram o retorno de dois de seus integrantes clássicos, o guitarrista, vocalista e membro-fundador Kai Hansen, e o vocalista Michael Kiske, o intuito era fazer uma turnê intitulada “Pumpkins United”. Somente estes dois retornos já seriam o suficiente para causar comoção, porém, o Helloween ainda manteve no atual line-up o vocalista Andi Deris e o guitarrista Sascha Gerstner, tornando-se pela primeira vez na história um hepteto.

Contando com nada menos do que três vocalistas icônicos para o gênero Power Metal, além de uma parede sonora com três guitarras realmente funcionais, ficava a dúvida se tal formação dos sonhos se manteria ativa ou se desmantelaria no decorrer da turnê. O que no início parecia ter sido uma inteligente ação de marketing planejada para não durar muito e render alguns milhares de dólares na conta dos músicos, acabou vingando de uma forma absolutamente natural devido a diversos fatores. São eles: 1) A bela amizade que nasceu da dupla Deris/Kiske (basta assistir aos vídeos de shows recentes que imediatamente vai perceber a sintonia); 2) A presença agregadora de Kai Hansen; 3) A maturidade dos músicos que resolveram colocar uma pedra em todos os desentendimentos passados; 4) Fazer do Helloween uma banda de fato e uma reunião de antigos amigos ao invés de uma empresa burocrática cheia de regras e contratos (como fazem diversos nomes da cena mundial); 5) Por fim, e não menos importante, a receptividade dos fãs (o público abraçou a idéia, compareceu em peso nos shows e lidar com uma situação financeira favorável ajuda a acalmar os egos).

Bom, todos sabem que a turnê foi um sucesso estrondoso, durando cerca de três anos e garantindo a banda participações de destaque em grandes festivais ao redor do mundo. A pergunta que não queria calar era se a “Pumpkins United” se limitaria a shows ao vivo repletos de grandes clássicos do passado ou se os músicos iriam se aventurar e compor músicas novas, mostrando que a formação como sexteto era sólida como parecia. Em 2020, foi anunciado que haveria sequência deste trabalho e um novo disco de estúdio estava sendo preparado para os fãs, o registro foi lançado no último dia 18 de junho e é sobre ele que falaremos a seguir.

2. A busca pelas raízes

Quando pensamos que a maior instituição do Power Metal mundial decidiu chamar seus membros clássicos para realizar shows ao vivo tocando apenas hits e faixas marcantes da discografia, temos que ponderar alguns fatores. O primeiro deles é que os fãs estariam alucinados para assistir a cerca de 3 horas de show onde todos os hinos seriam executados contando com seus cantores originais, e somente este fator já seria basicamente uma receita de sucesso. O segundo ponto é que a reunião ocorreu na hora certa e todos os músicos ainda estão em seus respectivos auges, logo, além do repertório ajudar muito, as performances foram estonteantes e renderam diversos elogios. A turnê foi uma ótima sacada e, caso os integrantes decidissem que já haviam cumprido o seu papel, todos estariam muito felizes com o resultado e a vida iria seguir normalmente sem maiores traumas. Mas gravar um novo álbum de inéditas com esta formação é uma outra história e, a partir desta decisão, o Helloween sabia que teria um desafio gigantesco pela frente. Uma coisa é se reunir e tocar sucessos do passado para fãs que queriam ouvir sucessos do passado, outra é compor novas músicas que, inevitavelmente, serão comparadas à exaustão com os grandes clássicos da carreira. Sabendo disso, a banda se concentrou ao máximo e decidiu fazer o óbvio: buscar por suas raízes.

Para isso, foi estabelecido que todos os integrantes teriam liberdade para opinar e compor, o pensamento principal foi conceber as melhores canções possíveis e todos procuraram focar nesta proposta. Sem egos ou vaidades, os músicos se empenharam no resultado final e o maior exemplo disso veio justamente de Kai Hansen. Para muitos, Kai é o principal compositor da banda e, para surpresa geral, o baixinho só tem uma faixa de sua autoria no disco. Ele mesmo explicou que chegou a compor outras três, mas não achou que estavam no mesmo nível das demais composições e escolheu deixá-las de lado.

Além desta liberdade artística, o retorno às raízes passou por outros processos. A banda escolheu gravar em dois estúdios e, cada um deles, foi escolhido com propósitos diferentes. O primeiro, o H.O.M.E. Studios, em Hamburgo, foi onde tudo começou em 1984 e a idéia era buscar aquela aura nostálgica que fez nascer as grandes obras iniciais. A imersão foi tão potente que o baterista Dani Loble fez questão de gravar usando o mesmo kit de bateria usado por Ingo Schwichtenberg durante as gravações de “Keeper Of The Seven Keys”. O segundo local foi o Valhalla Studios, onde gravaram “Master Of The Rings”, “The Time Of The Oath” e “Better Than Raw”. Com estas escolhas, ficou óbvio que a banda almejava alcançar o melhor dos dois mundos e que o novo trabalho tentaria buscar uma mescla entre a fase clássica de Kiske/Hansen e a fase inicial de Andi Deris no início dos anos 90.

A produção ficou a cargo dos mestres Charlie Bauerfeind e Dennis Ward, que tinham a incumbência de fazer o álbum soar ao mesmo tempo atual e nostálgico. Para isso, a produção foi mais analógica e orgânica, o que se mostrou extremamente acertado. Com tudo isso, ainda faltava saber se as músicas apresentadas seriam capazes de suprir as expectativas dos fãs e, para isso, precisamos partir para a análise musical.

3. Master Of The Seven Rings (The Time Of The Keys United)

Não, este não é o título do álbum, mas bem que poderia ser, já que é exatamente isso que ouvimos ao longo de mais de 1 hora e 20 minutos (contando com as 4 faixas bônus). A mescla entre o “universo Kiske” e o “universo Deris” é bastante convincente, mas ao invés de usar referências óbvias, escolheram chamar o disco apenas de “Helloween”. Geralmente, um álbum autointitulado é o primeiro da discografia, mas aqui ele tem a função de passar uma mensagem aos fãs. Além de dizer que é um novo começo para a banda, passa a idéia de que neste disco estão basicamente todas as principais características marcantes reunidas.

Isto já fica bem perceptível logo nas 4 faixas iniciais. “Out For The Glory” é uma canção veloz cantada por Kiske e remete diretamente para a fase dos “Keepers”, já o single “Fear Of The Fallen” tem Andi Deris como protagonista e Kiske apenas dá suporte em alguns momentos, é mais uma canção veloz e vigorosa, mas remete a fase dos anos 90. “Best Time” é uma espécie de “I Want Out” ou “A Little Time” dos tempos modernos e “Mass Polution” é uma típica composição de Deris dos bons tempos. O mais impressionante é que logo nas quatro iniciais, a banda já consegue entregar o prometido e nem estamos falando dos melhores momentos do disco.

“Angels” talvez seja o único momento em que a banda não tente buscar referências no passado e realmente olhe para frente. Cantada por Kiske, ela soa como uma espécie de Unisonic anabolizado. Em “Rise Without Chains”, temos o início de uma crescente inacreditável na audição e daqui pra frente, teremos uma sequência matadora que vai te arrancar suspiros. Na faixa em questão temos algo que remete a discos como “Better Than Raw” e “Master Of The Rings”, além de ser 100% Helloween em sua essência, conta com uma belíssimo solo e um refrão chiclete. “Indestructible” é o tipo de música que você acha apenas ok nas primeiras audições, mas com o tempo, começa a esperar a sua chegada no tracklist. É basicamente uma mescla entre os “universos” de Deris e Kiske e, além de vigorosa, traz um daqueles refrãos que só o Helloween sabe fazer.

A chegada de “Robot King” soa como um soco na cara e demonstra toda a inteligência da banda em saber colocar cada vocalista fazendo o que sabe melhor. Andi Deris dá um show nas partes mais agressivas e gritadas, enquanto Michael Kiske entra estrategicamente nas partes mais altas e melodiosas. A junção dos dois mundos acontece com perfeição aqui e não se resume apenas aos trabalhos vocais, as partes instrumentais e os solos também estão brilhantes e temos sem dúvidas um dos pontos mais altos da audição. Em “Cyanide”, Andi Deris comanda o espetáculo e, verdade seja dita, o cantor que um dia foi muito contestado por boa parte dos fãs, hoje é uma unanimidade. O cara vem cantando uma barbaridade e esta composição apenas evidencia toda sua capacidade.

Próximo do final, o ritmo segue frenético e a temperatura não para de subir. “Down In The Dumps” traz os três vocalistas cantando em grande estilo, cada um na sua especialidade e temos outro ápice de brilhantismo. Kai Hansen que até aqui havia cantado poucos trechos e se limitado basicamente a backing vocals, aqui é mais utilizado e, como já era esperado, não decepciona. Uma dica: a cada audição esta música fica melhor. Como não podia deixar de ser, a introdução “Orbit” nos prepara para o encerramento apoteótico do registro com a majestosa e imponente “Skyfall”. Assim como nos lendários “Keeper Of The Seven Keys”, temos um trabalho encerrando com uma canção épica com mais de 12 minutos de duração. Se você é fã incondicional daquelas composições cheias de viradas, mudanças de andamento e cheias de passagens e climatizações, certamente, você não vai decepcionar. Não se limite a versão do clipe (com apenas 7 minutos), ouça a versão oficial completa do álbum.

Em algumas versões, “Helloween” (o disco) ainda traz 4 faixas bônus excelentes. A porrada “Golden Times” (cantada por Kiske), a hardeira “Save My Hyde” (ao melhor estilo Deris), “Pumpkins United” (single lançado em 2018) e a happy happy Helloween “We Are Real” (canção festeira com os três vocais se alternando). Se você tiver a oportunidade de adquirir o CD duplo com as 4 faixas bônus, não pense duas vezes e adquira, não se trata de canções descartáveis ou típicos lados B que são infinitamente inferiores às canções oficiais do álbum, são músicas que poderiam (DEVERIAM) ter feito parte do tracklist.

4. Saldo positivo e futuro promissor

Obviamente, o saldo final é extremamente positivo e podemos afirmar sem qualquer tipo de dúvida que a banda entregou o que foi prometido. Talvez um Kai Hansen mais participativo em termos de composição no futuro possa somar ainda mais para que os resultados sejam melhores, talvez uma ou outra faixa com uma pegada um pouco mais visceral e que faça referências ao EP “Helloween” e ao debut “Walls Of Jericho” seja algo a se pensar também, porém, o que temos para hoje é um Helloween absolutamente renovado, motivado e inspirado.

As três guitarras funcionaram uma enormidade, Kai Hansen e Michael Weikath mostraram que ainda trabalham muito bem juntos e a surpresa ficou por conta da performance de Sascha Gerstner, que além de tocar uma barbaridade, ainda somou muito e soube se encaixar otimamente bem no meio de uma das mais brilhantes duplas de todo o Power Metal. O cara não foi escanteado em nenhum momento e realizou ótimos solos, além de conseguir brilhar de forma igual aos dois músicos supracitados. A parte rítmica formada pelo baixista Markus Grosskopf e o baterista Dani Loble também executou um trabalho coeso e funcional, mas a cereja do bolo foram os vocalistas. Ao demonstrar um total desapego pelo “eu” e priorizar o que realmente era necessário para cada música, conseguiram capturar o que de melhor cada um tinha a oferecer. Cada membro da banda contribuiu com suas principais habilidades para que a instituição Helloween cumprisse seu papel e apresentasse um álbum grandioso.

Diferente de outras bandas veteranas que ao lançar um ótimo trabalho, ficamos felizes e pensamos, “poxa, se pararem agora param em alta e com um grande disco”, neste caso soa realmente como um recomeço. A esperança de que registros ainda melhores possam aparecer a qualquer momento, faz com que o Helloween, mesmo com mais de 30 anos de bagagem, rejuvenesça perante seus fãs e volte a ser um nome extremamente promissor no cenário mundial (exatamente como já foi um dia).

Nota: 9,6

Integrantes:

  • Markus Grosskopf (baixo)
  • Michael Weikath (guitarra)
  • Kai Hansen (guitarra e vocal)
  • Michael Kiske (vocal)
  • Andi Deris (vocal)
  • Sascha Gerstner (guitarra)
  • Dani Löble (bateria)

Faixas:

  • 1. Out For The Glory
  • 2. Fear Of The Fallen
  • 3. Best Time
  • 4. Mass Pollution
  • 5. Angels
  • 6. Rise Without Chains
  • 7. Indestructible
  • 8. Robot King
  • 9. Cyanide
  • 10. Down In The Dumps
  • 11. Orbit
  • 12. Skyfall

Faixas bônus:

  • 1. Golden Times
  • 2. Save My Hide
  • 3. Pumpkins United
  • 4. We Are Real

Redigido por Fabio Reis

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