Resenha: Hellcrash – “Inferno Crematörio” (2025)

Hellcrash é o nome de um dos grandes responsáveis por trazer toda aquela sujeira contida nos vãos dos tacos do chão sujo de um bar. Bar este que possui um copo em que você só enxerga o outro lado se for para o inferno. E é disso que precisamos!

Mais sujeira em meio a uma imensidão límpida, cretina e nariz empinado. Pois, cá estamos para averiguar mais um novo mistério envolvendo um disco novo de um dos grandes nomes da nova geração do Metal apodrecido.

Hellcrash is back!

De acordo com o enunciado em seu Bandcamp oficial:

“O trio de Speed ​​Metal retorna com seu álbum mais rápido e pesado até agora.
Com uma produção completamente repaginada e algumas das músicas mais elaboradas da banda, Inferno Crematörio é uma verdadeira dose de Heavy/Speed ​​Metal que você pode injetar diretamente nas veias!”

Portanto, os italianos estão de volta para acrescentar ao molho da sua macarronada altas pitadas de Sazón de enxofre.

“Demonic Assassinatiön” (2023), álbum antecessor a este, trouxe uma das capas mais bem sucedidas no quesito “censura própria”. Sabedora sobre os tempos frescurentos atuais, a banda lançou duas versões da capa. Ambas podem ser vistas através da resenha feita por mim ao clicar AQUI.

A capa da abertura possui uma simulação de selos colados nas partes provocativas, digamos assim, enquanto a capa original que está no corpo da resenha, aparece com a imagem horrenda completa. Vale uma camiseta com essa capa e também a do novo disco.

Hellcrash logo/Bandcamp

O novo álbum dará continuidade à desgraceira já conhecida?

É o que investigaremos juntos através deste pequeno manuscrito. “Inferno Crematörio” veio para fechar a primeira trinca de ases dos italianos endiabrados. O novo artefato regado à cerveja barata e cinzas de cigarro foi lançado em 23 de maio via Dying Victims Productions. E para calar a boca de que o underground deve ser um lixo totalmente bagunçado e sem noção, mantendo um coração enegrecido só por alguns imbecis clamarem por isso, a banda de Rock podre e veloz lançou um videoclipe para a faixa-título. Ou seja, por mais que não seja uma sonoridade a alçar voos muito grandes, ainda sim investem na arte visual juntamente com a musical.

Mirko Penati ficou a cargo da produção executiva, mixagem e masterização, enquanto o baterista Samuele Scalise (Askesis, Burial, Restos Humanos, Ruptured) foi o responsável pela artwork.

…E a tão aguardada terceira bolacha incandescente chegou

Assim como fora dito na resenha do disco anterior, o aguardo de uma futura e terceira bolacha incandescente acabou. De fato, não demorou muito a vir. Afinal, foram apenas dois anos de espera, isso se arredondarmos as datas. Contudo, a banda segue o seu caminho pelas labaredas infernais em busca de um lugar à escuridão.

Hellcrash/Divulgação

Chamas negras infernais

O céu está em chamas! Prova disso é a intro “Flames of Hades”, a qual convoca o deus do submundo para liberar o seu poder sobre o plano terreno através da condução de bateria proferida por A.R. Evilbringer. Tal condução é totalmente ligada ao Speed Metal e isso alegra os corações acelerados e ávidos por um bom e sujo Rock veloz! A guitarra e o baixo surgem pouco depois e incrementam o caldo amargo com altas doses de enxofre. A abertura do disco é breve, porém muito funcional para o que vem a seguir.

O desmoronar das paredes do céu

O primeiro riff acelerado entra em cena a bateria faz tudo decolar. Obcecado pelo mal e pelo Metal, a massa sonora veloz vem como um elefante desgarrado, atropelador, 3/3! Referências de Magic The Gathering à parte, “Inferno Crematörio” promove um furacão com um início bem ríspido e acelerado. Os solos em couro e pregos carregam caos de megawatts na escuridão, fazendo com que o raio caia duas vezes no mesmo show! Além disso, no meio desse turbilhão de ódio, temos versos que atingem a aleatoriedade como podemos observar aqui:

“Condenado ao Inferno, nunca serei um escravo
Minhas legiões estão marchando para a batalha novamente
Prefiro reinar no Inferno a servir ao seu deus
Prefiro ser um assassino e matar mil prostitutas”

Pura poesia feita sob o derretimento do ferro em lava incandescente, não é mesmo? Afinal, quando demônios habitam o Purgatório, ocorre um verdadeiro Crematório Infernal!

Curve-se ao Demônio do Fogo Negro!

Seria algum parente do lendário e supremo Cavaleiro Negro da Armadura Reluzente? Bem, é melhor citá-lo somente essa vez para o texto não ficar infinito. A noite é do Diabo e aqui só servimos fogo enxofre. Itaipava jamais, pois tudo tem limite!

Você se sente livre das garras mortais pela morte ácida e acorrentado aos perigos dos abismos mais profundos do inferno. Tal sensação é partilhada ao se deparar com “Black Fire Demon”. Aquela clássica e breve abertura de música oitentista começa e você tem tudo voando pelos ares novamente. A bateria trepidante desde o início alterna as suas linhas, enquanto a guitarra se empenha em rasgar os alto-falantes com riffs afiados. No entanto, o baixo realiza ótimas marcações e entra em comunhão com a guitarra em meio a dedilhados diferenciados e que somam forças com a chegada do solo. As variações prosseguem até que o final traga o mesmo ímpeto do início, com o apoio incondicional do Mochila de Criança.

“Satanás, livra-me do tormento da vida
Minha alma transcendeu ao fogo eterno
No abismo eu caio, para ver o além
As vastas planícies do inferno onde eles rondam, sob um céu negro…”

O libertar da escuridão diabólica

Quase todas as músicas do Hellcrash contêm versos sexuais no meio da parafernália. É assim que o Senhor do submundo age, de forma bem bagunçada e incluindo lances bem provocativos e, por vezes, engraçado! Em “Purgatory Raiders” temos esse momento “punhético” na trama e é algo bem intenso e contundente.

“Nas profundezas das favelas de Jerusalém, um lance de dados
A virgem chupa rolas para recuperar o manto de Cristo
Um beijo de Judas, a lança de Longino pegou fogo
O Gólgota está encharcado com o sangue dos porcos sagrados”

Por pouco o boquetão nervoso não é no próprio Chessus! Há quem diga que Madalena cuidou bem do meninão, mas isso fica para uma próxima rodada de dominó com pedra de osso no bar. O fato é que o trovão ecoa no aparelho de som e você se depara com palhetadas velozes e mais agudas, sempre pendendo para o Speed, e isso provoca a própria banda a colocar mais carvão para assar a carne das vítimas. A bateria ilumina o caminho para os saqueadores do Purgatório, enquanto orgias majestosas guardadas pelo olho que tudo vê. Antecedendo o solo, temos um vocal distorcido do também guitarrista L.C. Hellraiser. As partes menos velozes não encaixam tão firmemente e o juramento acaba sendo quebrado.

Morrendo pela espada de Baphomet

Se não bastasse a treta no purgatório e o serviço sem nota nas esquinas sombrias de Jerusalém, ainda temos que enfrentar a lâmina afiada de Baphomet. “Sword of Baphomet” traz consigo uma junção do que a banda é capaz de produzir com uma junção entre Venom e Raven numa tacada só!

A faixa contempla os vapores negros que engolfam a caverna do Diabo e a própria maldição provocada pelo tirano. Os dedilhados menos cavalares apresentam uma climatização muito gratificante e voltada para a gloriosa década de 80. Os solos são puro Heavy Metal oitentista com bases apropriadas para a ocasião. A parte final é um caldeirão com todo o receituário dos bons pratos da época citada e em prol do reino luciferiano.

Tragédia do sexo sacrificial

Lembra do que eu falei a respeito de conter insinuações de sexo ou algo ligado em algum verso de cada canção boa de tocar em formatura? Aqui é o verdadeiro hino para isso! “Rapid Possession” te arremessa de cabeça em uma rocha com lava borbulhante e revela os prazeres de Hades. Hora é Hades, hora é Satanás. Mas isso é o de menos, pois aqui você se depara com os Sucos desconhecidos de luxúria negra para desfrutar do êxtase final. Aqui, portanto, é figura de linguagem. Pois, trata-se das prostitutas do inferno. A possessão rápida ocorre de modo em que a bateria apela para a caixa e, logo após as primeiras notas de guitarra e baixo, decola para atingir o céu com suas chamas de coração negro e puro aço!

Aqui temos uma pitada de Sodom lá do início de carreira, mas a fórmula traz o bom e eterno Motörhead, somado ao que já foi citado e toda a estrutura dos italianos. As prostitutas do Inferno são enganadas por conta do sexo sacrificial. Ninguém sai ganhando, mas a música podre e bela é garantida!

“Esquecida – sem túmulo para lamentar
As prostitutas do Inferno são enganadas
Morte lenta por asfixia
Tragédia do sexo sacrificial

Possessão rápida, sua alma será minha
Possessão rápida, uma prostituta sodomizada
O exorcista tentou quebrar a maldição negra
Ele acabou massacrado e fodido na cruz!”

Sinos sabbathicos com Speed Metal

O som do sino traz à mente o nome do Black Sabbath e a marcação das bases reforçam este pensar. Entretanto, “Oathbreaker” não caminhará somente por esse traçado. Os laços com o Speed/Heavy se juntam novamente explodem em riffs e versos para te fazer queimar no inferno.

Aqui, o perjuro é feito em demasia, envolvo por couro e inferno, por magias e mistérios da morte. O ímpeto da bateria revela que o anjo caído está de volta para alegria da nação. Conforme as nuvens negras se aproximam, o vulcão entra em erupção em todo o Inferno através da intensidade e variação sonora simples, porém precisa. Está é a terceira melhor estocada no céu.

Da metade para o fim, temos um andamento se aproximando do Metallica (do velho testamento), mas que logo sobrevoa outros terrenos como o de si próprio. Os solos maideanos e com a aura Rock n’ Roll são o ápice e o charme mor da música. Por fim, a parte derradeira retoma o percurso inicial e coloca de volta à tona a banda que inaugurou o Heavy Metal.

“You’ll burn in Hell”

Lúcifer ascendendo, o Inferno abre suas asas!

O domínio de Lúcifer é concretizado aqui em “Mark of the Beast”, principalmente quando o não nascido está aguardando preso dentro do útero de Hades. Sendo batizado pelo ferro e execrado pelo Metal moribundo e repletos de fuselagem pós-guerra no inferno. A marca da besta garante passagem entre mundos e libera o portal para a entidade maligna caminhar diante de nós, meros mortais.

O empenho é demonstrado logo em seu início com riffs convidativos ao mosh no hall do castelo do anjo caído. A faixa ganha mais agressividade e combustível necessário para evidenciar a marca da besta e confirmar o comando do rei do submundo na Terra.

Após pouco mais da metade da trama, temos uma linha mais tradicional e com pitadas de peso a mais para garantir um andamento preciso e de destaque. Tanto é que esta apresenta o melhor momento do álbum. Todos os integrantes parecem estar mais desenvoltos e é por isso que a música ganha força a ponto de se tornar o segundo melhor destaque de “Inferno Crematörio”.

“Morrer pelo fogo, selo da morte
Incandescente, gravado na carne
Triplo seis, aço encontra aço
Lúcifer ascendendo, o Inferno abre suas asas!

A Marca da Besta!
Nascido do fogo maldito!
Marca da Besta!
Pela linhagem de Caim!
Marca da Besta!
Sob o signo do Inferno
Perecer por seu feitiço mortal!”

Hellcrash – Inferno Crematörio/Divulgação

A maldição dos Templários

O final do novo disco do Hellcrash apresenta uma música com mais de 10 minutos de duração. Seria um momento épico do disco? Em parte, sim, mas vamos direto aos fatos. “Templars’ Curse” possui andamentos diversos dentro de uma mesma premissa e a única a trazer elementos do Black/Thrash Metal propriamente dito. Ainda assim, sua aura veloz se mantém em primeiro plano e não há como não colocar “Inferno Crematörio” como um disco de Speed Metal. Todavia, os outros subgêneros que a banda costuma utilizar estão presentes, mesmo que em baixa escala.

O início é estupendo e o Hellcrash conduz com facilidade o veículo musical movido pelas chamas do inferno. Evilbringer deposita uma energia Punk em suas linhas velozes e ríspidas, somando ao seu trabalho voltado para o Speed e para o Heavy Metal, além de outros elementos interessantes. Skullcrusher conduz o seu baixo até encontrar a escuridão plena e crava as bases com muita devoção ao Metal praticado por ele e seus comparsas profanos.

A maldição dos Templários – Parte I

Quase na metade do percurso, temos uma banda apostando na cadência e nos dedilhados mais calmos, porém precisos e com toda a pompa e prosa misteriosa. Na sequência, dedilhados contínuos colocam o Metal mais tradicional em evidência para, logo depois mergulhar em algo mais extremo, como o próprio subgênero híbrido que a mesma gosta de praticar.

Após esse deleite em sonoridades mais cavernosas, temos uma banda buscando mais uma emenda em meio a Grooves providenciais. A jornada prossegue com solos de muito bom gosto e condizentes com o trecho em específico. A alternância em o Heavy e o Speed fica ainda mais evidente, tendo até mesmo o Heavy Metal com maior predominância.

Enquanto a escuridão persiste acima da cidadela, “Templars’ Curse” segue o seu caminho e, consequentemente, reencontrando o seu lado mais visceral e sujo. O caminho dos Templários é detalhado em meio aos versos e estrofes, mas ao mesmo tempo é contemplado por uma parede sonora variante e nefasta. O Santo Graal está impuro e você encontra o seu receituário na junção de cada emenda da música.

A maldição dos Templários – Parte II

A mesma te coloca em um cenário violento e cortante, e logo após, te coloca em um local mais amplo e sem tanta ventania. A condução dos pratos sob a tutela da guitarra e do baixo mais calmos, libera o passaporte para mais insanidade sonora. As ruínas são enterradas pela areia enquanto todo o tempo chega ao fim e a trilha sonora é perfeita para a ocasião.

O Metal negro e arruaceiro invade o cenário novamente até que as pausas sonoras de fim de som e de disco ganham espaço. Os vocais de Skullcrusher soam ainda melhores aqui, muito por conta do ódio mantido na voz. O quase silêncio dos instrumentos é percebido, mas o final ocorre em questão de segundos. Além disso, suas marcações de baixo e jogo de notas soa bastante presente no cenário.

Considerações luxuriosas finais

Certamente, o Hellcrash gosta de mencionar versos mais picantes de forma torturante, ou seja, contando algo que não possui final feliz. Em contrapartida, temos uma sonoridade bastante calcada no Speed Metal, além de conter momentos de Heavy tradicional e riffs rasgados. Skullcrusher calibra bem o seu baixo, enquanto Hellraiser alia seus vocais rasgados às bases para a letra.

De maneira muito conclusiva e eficaz, o mesmo Hellraiser sabe muito bem o que almeja e coloca a maioria dos riffs e dedilhados nos setores corretos de cada som. Porém, os solos trazem mais ênfase também para as mesmas faixas.

Por fim e não menos importante, Evilbringer destrói com seu kit em ritmos alucinantes. Porém, também opta por variar a sonoridade até para não parecer mais do mesmo. Inclusive, suas variações dentro uma proposta mais tradicional acaba por abrir a mata densa e encontrar um lugar muito bom para se alojar.

O disco aparenta estar melhor produzido que o anterior e nada atrapalha, exceto em alguns momentos de maior variação sonora, em que a faixa perde um pouco de fôlego. No mais, é um álbum digno de fechar a trinca inicial. Finalizando o novo capítulo, diria que o som da bateria melhorou bastante aqui em “Inferno Crematörio”, com relação aos dois primeiros álbuns. E isso é um ótimo ganho, assim acrescentando mais peso a uma banda em que optou por não trazer muito do Black/Thrash nesse disco. No mais, diria que a podreira reina no submundo da boa “múzga”!

“Enquanto as chamas do Hades queimam, consumindo cada alma mortal
O fogo negro marca um caminho flamejante até o túmulo do Último Cruzado
A Arca Dourada está perdida e o Graal não pode ser encontrado em lugar nenhum
Os Templários ousaram cruzar o Estige e suas águas ficaram vermelhas

Ruínas são enterradas pela areia enquanto todo o tempo chega ao fim
Os Templários falharam em quebrar o feitiço, o Diabo trouxe-lhes a morte
Sopro do dragão de sete cabeças, sete pecados e ameaças mortais
O velho pergaminho os avisou: o Anticristo retornou!”

“Vile acts – grave molestation
Her body is cold but still hot
Her cunt is martyred and ruined
On the altar sperm and blood flow

When the deed will be done she’ll be thrown into fire
When the erection is gone we don’t need her alive
Rapid Possession!”

nota: 8,6

Integrantes:

  • F.T. Skullcrusher (baixo/vocal)
  • L.C. Hellraiser (bateria)
  • A.R. Evilbringer (guitarra)

Faixas:

1. Flames of Hades
2. Inferno Crematörio
3. Black Fire Demon
4. Purgatory Raiders
5. Sword of Baphomet
6. Rapid Possession
7. Oathbreaker
8. Mark of the Beast
9. Templars’ Curse

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