Resenha: Headspawn – Samsara (2026) (EP)

Fundado em 2019, na cidade de João Pessoa, na Paraíba, o Headspawn conquistou espaço na cena nacional com uma sonoridade pesada e fortemente ligada ao Groove Metal. Quem ouviu Parasites, trabalho lançado em 2023, provavelmente associou o grupo a nomes como Sepultura, especialmente das fases de Chaos A.D. e Roots, e Korzus, no período de KZS. No entanto, a banda já acrescentava doses generosas de melodia e vocais limpos, elementos que ajudavam a construir uma identidade própria.

Essa descrição, porém, já não se aplica completamente ao trio. Samsara apresenta uma abordagem diferente e insere o power trio formado por João Paulo Cordeiro no baixo, Marconi Jr. na bateria e Alf Cantalice nos vocais e na guitarra em um universo muito mais amplo de possibilidades. Ao longo da história da música pesada, inúmeras bandas passaram por mudanças sonoras, algumas com maior competência e outras nem tanto. A questão nunca foi simplesmente mudar, mas compreender como e por que realizar essa transformação.

Quando uma alteração nasce de uma convicção artística genuína, como parece acontecer aqui, a recepção tende a ser mais positiva do que nos casos em que um grupo apenas decide seguir tendências. Em Samsara, EP independente com lançamento em 7 de agosto, o Headspawn se reinventa sem abandonar completamente suas características. As levadas de Groove Metal e Thrash Metal perdem espaço para composições mais intimistas, sombrias e diretamente conectadas à década de 1990.

Photo: Renata Luna — @renata_luna_

Uma nova identidade sem o abandono das raízes

Se anteriormente a música do Headspawn remetia imediatamente ao Sepultura, agora as principais referências passam por Alice In Chains, Soundgarden, algumas das experiências promovidas pelo Faith No More e elementos de Stoner Metal e Sludge Metal. Ainda assim, o peso permanece intacto, assim como as sonoridades tribais e as brasilidades que sempre fizeram parte do DNA do grupo.

Dura Mater abre o trabalho com uma impactante batida tribal antes de mergulhar em uma atmosfera de Grunge que remete ao Alice In Chains. O resultado surpreende logo nos primeiros instantes. A mudança de proposta se torna evidente, mas, ao contrário de outras bandas que decidiram explorar novos caminhos sem a preparação necessária, o Headspawn demonstra segurança, coerência e domínio sobre a direção escolhida.

Mais pesada e cadenciada, Creature mantém a mesma linha e constrói suas estruturas a partir da sonoridade eternizada pelo grupo de Seattle, especialmente pelas guitarras de Jerry Cantrell. Entretanto, o trio adiciona uma dose extra de peso e vocais mais agressivos ao longo da composição. Dessa maneira, evita transformar a referência em mera imitação e preserva sua personalidade.

Entre o peso conhecido e novas experiências

Hive Of Ghouls é a faixa que mais se aproxima de Parasites e, consequentemente, a composição mais ligada ao Groove Metal dentro da lista. Trata-se de um momento de reafirmação, no qual o trio demonstra que, apesar da nova direção, suas raízes continuam firmes. As brasilidades, os elementos tribais e o peso característico aparecem com maior evidência, criando uma ponte natural entre o passado e o presente.

Enquanto o Alice In Chains representa a principal influência nas primeiras músicas, Martyrdom flerta diretamente com o Soundgarden. A faixa soa como se Chris Cornell dividisse os vocais com Max Cavalera em momentos estratégicos. Embora essa combinação pareça improvável, o resultado se mostra extremamente interessante e revela uma banda disposta a explorar contrastes sem perder o controle da composição.

Na última faixa, Sleep, o Headspawn transporta o ouvinte para uma atmosfera próxima à de Jar Of Flies, EP lançado pelo Alice In Chains em 1994. Com andamento predominantemente acústico e explosões esporádicas de peso, a música encerra o registro de maneira melancólica, intensa e bastante coerente com a proposta apresentada ao longo das cinco composições.

O conceito lírico

Liricamente, Samsara acompanha a trajetória de um personagem marcado pelo sofrimento e pelo confronto constante com o mundo ao seu redor. Cada faixa representa uma etapa dessa jornada: Dura Mater aborda o surgimento da vida e da consciência; Creature retrata o abandono de crianças doentes e a rejeição imposta pela família, pela sociedade e até mesmo por Deus; enquanto Hive Of Ghouls discute a desumanização e a dificuldade de preservar a própria individualidade diante dos padrões opressivos da sociedade moderna.

Na sequência, Martyrdom trata do feminicídio, da cumplicidade social com o agressor e do apagamento das vítimas, enquanto Sleep encerra a narrativa com o personagem revendo sua existência e percebendo que a dor não trouxe qualquer sentido à sua passagem pelo mundo. A palavra “vida” aparece em quatro das cinco composições, mas assume significados diferentes em cada uma delas. Dessa forma, o Headspawn utiliza a existência humana como eixo central do EP, tendo o sofrimento como cenário permanente de toda a narrativa.

Photo: Renata Luna — @renata_luna_

Um passo de transição cuidadosamente planejado

Independentemente de o ouvinte preferir a face mais pesada e sombria da banda ou essa abordagem experimental e intimista, não há como ignorar a qualidade musical apresentada pelo Headspawn. Samsara soa como um trabalho de transição, talvez o primeiro passo em direção a algo ainda mais profundo e ousado que poderá surgir no futuro. Mesmo assim, o EP possui identidade suficiente para não funcionar apenas como uma passagem entre fases.

O trio construiu o material com cuidado, paciência e atenção aos detalhes. A produção valoriza os instrumentos, enquanto as performances individuais merecem destaque. O baixo de João Paulo Cordeiro ocupa um papel fundamental nas composições, criando texturas e conduzindo diversos momentos. Da mesma forma, os vocais de Alf Cantalice transitam com naturalidade entre universos diferentes, passando da agressividade para linhas mais melódicas e introspectivas sem parecerem deslocados. Marconi Jr., por sua vez, sustenta as mudanças de dinâmica com uma bateria precisa, pesada e versátil.

É provável que parte do público ligado exclusivamente ao lado mais agressivo de Parasites estranhe a nova direção. Ainda assim, Samsara não apresenta uma mudança oportunista ou artificial. O Headspawn amplia sua linguagem, assume riscos e encontra uma maneira convincente de combinar o Grunge dos anos 1990 com elementos de Groove Metal, Stoner Metal, Sludge Metal e música brasileira. Ao final da audição, permanece uma pergunta inevitável: até onde o trio pretende levar essa transformação?

Nota: 8

Integrantes

  • João Paulo Cordeiro – baixo
  • Marconi Jr. – bateria
  • Alf Cantalice – vocal e guitarra

Faixas

  1. Dura Mater
  2. Creature
  3. Hive Of Ghouls
  4. Martyrdom
  5. Sleep
Fabio Reis
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
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