Resenha: Graceless – “Icons of Ruin” (2025)

Uma das gratas surpresas do Death/Doom Metal holandês lançou disco novo. O Graceless, que já não é mais surpresa para quem acompanha o site Mundo Metal, lançou o seu quarto álbum de estúdio no dia 30 de maio via Listenable Records. O trabalho atual sucede o ótimo “Chants from Purgatory” (2022), assim formando a sua primeira quadra de ases. Será tão bom mesmo? Veremos a seguir.
A premissa é de um álbum sujo como madeira velha e revigorante como um biotônico. A junção do Death Metal com o Doom Metal costuma trazer excelentes resultados, principalmente quando essa mistura fina é oriunda de nomes tradicionais do estilo. Os compatriotas do Asphyx fazem parte desse seleto grupo, só para exemplificar. “Icons of Ruin” foi lançado via Listenable Records no dia 30 de maio e traz uma capa com moldes de vitral. O álbum foi gravado e produzido por Jörg Uken no Soundlodge Recording. Maurice de Jong ficou a cargo do layout. “Resurrection of the Graveless” e “Hardening of the Heart” foram dois dos três singles lançados a receber videoclipe. Enquanto “Sanctified Slaughter” ganhou um lyric vídeo.
Desvendando a nova urna musical dos holandeses
Se a Suécia é tida como um dos berços do Death Metal, a Holanda é um dos principais pontos do mapa a revelar nomes do Death/Doom Metal. O Graceless está de volta e deve surpreender a que não ouviu até então seu novo trabalho de estúdio. Dez faixas completam o pacto em favor da música extrema, densa e mórbida. Diante desses dez versículos sonoros em meio a este capítulo musical novo, estaremos cara a cara com essa sonoridade pujante e voraz.
Primeiramente, ao que tudo indica, será uma bela viagem pelo bosque maldito de uma localidade sem nome. Se ainda estiver com vida, me acompanhe por esta trilha destruída pela chuva intensa e que deve ser a causadora desse novo rito musical. Além disso, também saberemos se os singles lançados e as outras sete músicas possuem o mesmo poder de destruição.

No mundo real, a escuridão domina
O comboio percussivo dá a cartada inicial, enquanto as guitarras e o baixo afiam seus encordoamentos para que a blasfêmia musical seja posta em prática. E, certamente, é o que ocorre diante dos nossos ouvidos. Além disso, os riffs de “God Shines in Absence” ganham maior velocidade e encorpam de tal maneira que, para uma visão niilista, é a melhor ocasião para uma bela valsa.
As variações entre o médio veloz e a cadência estratégica funcionam muito bem, mesmo em se tratando de um início de tracklist. Contudo, a correria toma o posto principal junto aos solos de guitarra muito bem inseridos. Enquanto a ausência de uma divindade é o que se manifesta, o vazio é preenchido com bases bem construídas. Apesar de tudo isso, ainda termina com um solo mais melódico e condizente com a perda da fé.
Afinal, a premissa em destaque é que a desgraça e o caos são as únicas certezas em um mundo sem propósito.
Oposição às noções religiosas convencionais
“Sanctified Slaughter” aborda a corrupção da religião, onde o som percorre o rito do pedal duplo constante e as palhetadas precisas e em sequência. A morbidez entra em cena onde a violência e a matança são justificadas ou glorificadas em nome de uma causa sagrada. No entanto, todas as peças são encaixadas de modo a criticar a brutalidade cometida sob o manto da fé.
Observe o baixo de Jasper Aptroot em formato de pêndulo. Cada toque é como um chamado para o fim imediato. No entanto, isso não fica em um tipo de piso apenas, passando por nuances durante o andar da carruagem maldita. Os trechos longos em pedais, antecedendo a parte mais agressiva e sangrenta da música, trazem um tempero contido na receita do God Dethroned. Por fim, o trecho mais agressivo toma a dianteira e causa uma surpresa bastante positiva para o som em si e também para a audição do disco.
“Sussurros à beira do túmulo
O hino final do diabo
Suas almas para sempre condenadas
Nas terras sombrias do pecado”

A morte não é apenas o fim…
…Mas um processo doloroso que é desejado. E o desejo de expiação por meio de um sofrimento físico e espiritual intenso é cauterizado pelo tilintar vagaroso e agoniante da guitarra, até que as notas densas surgem e ampliam essa dor. A aceitação de um fim doloroso e inevitável é contemplada pelos passos vagarosos de “Lash Me to My Painful Death”.
Hécate, deusa grega associada à magia, às encruzilhadas, à noite, à lua, e aos limiares entre o mundo dos vivos e dos mortos, é representada nessa música como um ponto contrário ao que é desejado. A evocação da punição e tormento extremos ocorre em alinhamento ao conjunto de palhetadas em modo tremolo, enquanto o baterista Marc Verhaar conta os passos dessa lenta dança. Sob o ar mergulhado em condução rítmica de bateria, a sonoridade avança de forma esfumaçada e experimentando os prazeres da carne com feridas expostas.
O ritmo cavalar ascende e se mistura aos passos médios da faixa, unindo forças com o dedilhado agoniante principal. Assim, destacando um desejo de expiação por meio de um sofrimento físico e espiritual intenso, ou a aceitação de um fim doloroso e inevitável.
“Hécate
Sombria Senhora da mente
Seus feitiços me ofuscaram
Nunca mais me ajoelharei diante de tiNas sombras mais escuras do meu desespero
Encontrei o fundo do abismo
Transformei meu ser, meu eu interior
Em um andarilho das almas”
O fim da civilização e a desordem do mundo
“Night of the Slain” chega com o ímpeto de gente grande e nos coloca de uma atmosfera de batalha e carnificina. O rangido das guitarras provoca cortes. Desses cortes vem a sensação de serem proferidos através de uma explosão. Explosão essa com estilhaços de vidro e metal por todos os lados. A cadência providencial ganha força com a trepidação dos pedais e notas a mais de contrabaixo, cortesia do baixista Jasper Aptroot.
Os solos soam como anunciantes de uma cena apocalíptica, onde a morte e a destruição prevalecem, ecoando a brutalidade e a lamúria do Death/Doom Metal. A partir da segunda parte dos solos, temos um pouco de Heavy/Doom, mas que depois descamba para o Death Metal mais tradicional. Palhetadas contínuas e precisas, juntas com uma bateria a pleno vapor. Em mid-tempo os segundos se vão e a locomotiva passa com todo aquele ar fúnebre e denso, sendo um dos grandes artifícios dessa faixa.
A rejeição consciente da fé e a perda da compaixão
O endurecimento do coração acontece devido o processo de se tornar insensível e frio diante da dor e da crueldade do mundo. Entretanto, essa insensibilidade e frio são percebidas ao longo da audição de “Hardening of the Heart”. Dedilhados lamuriantes e soturnos são distribuídos de maneira contínua e com leveza, porém densa. Apesar disso, a densidade aumenta quando o processo é entregue nas mãos de toda a estrutura sonora. No entanto, o andamento em velocidade calma reflete a perda da empatia e o mergulho na escuridão.
O dedilhado, antes mais simplório, de fato, ganha mais diferenciais e entrega uma faceta gótica. Tudo isso em comunhão com as bases progressivas no sentido de serem constantes e crescentes. O baixo é a alma deste episódio e o seu ruído faz com que o seu peso se espalhe por toda a construção da música. O alicerce se modifica conforme os pedidos feitos pelas passagens musicais da mesma. Todavia, o seu trecho final apresenta uma agressividade da bateria de Marc e do baixo de Jasper. Dessa forma, alimentando a parte aguda do ornamento melódico e dos ótimos solos de guitarra. Não é à toa que considero um dos ápices de “Icons of Ruin”.
Rebelião contra a autoridade divina
A impiedade representa a falta de reverência ou a rejeição da religião. A sonoridade complementa essa direção, tornado cada movimento sonoro mais atrativo que o normal. Aqui, com toda a certeza, caberia uma música mais impetuosa para não soar sem tanta pressão. A cadência nos riffs pesados como concreto de secagem rápida unem-se aos pedais e tons de bateria tocados na medida de tempo que a estrutura musical pede.
A música aborda a negação da moralidade religiosa e a adoção de uma perspectiva mais profana e sombria. “Ungodliness” traz Grooves dentro de uma camada de morbidez hipnótica, sendo que a força motriz fica junto à cavalgada em riffs e pedais. Não obstante, os vocais do também guitarrista Remco Kreft apresentam bastante sofrimento e temperam o clima com mais escuridão e danação. O ritmo é um tanto mais reto em comparação às demais faixas, mas cumpre bem o seu papel.
O triunfo do anoitecer sombrio
O “sol mais negro” é uma imagem de escuridão total e desespero, representando o oposto da luz e da esperança. “Rise of the Blackest Sun” oferece a quem ouve um aparato inicial cheio de mistério e angústia, de fato. O tilintar do prato, servindo para contar o tempo e enfeitá-lo de maneira condizente, certamente funciona muito bem e abre espaço para uma camada sonora maior e mais carregada de metais nobres.
Não se apresenta como uma música mais rápida, mas propõe a “ascensão” deste sol. Sendo assim, o símbolo do triunfo da maldade e da decadência sobre a bondade é representado pela calmaria nos instrumentos e um retorno com dedilhados entristecidos e recheados de lamento. O retorno gradativo aos primeiros comandos da faixa emerge nesse momento, mas acaba trazendo uma linha ainda mais arrastada, antes que a condução da bateria faça a música se movimentar novamente.

Um poder que governa a partir do lixo, da corrupção e da desonra
“A King in the Filth” pode se referir a uma figura de poder que ascende ou governa em meio à decadência e à corrupção. Isso é refletido na voz cadavérica de Remco (seria algum parente próximo da Namco? Só nerd vai entender) e espalhado por toda a conjectura da música. Temos um pouco de Heavy Metal, o que faz com que a canção acelere em dado momento. O Metal da morte é posto de volta em seu lugar primordial, enquanto em seguida, o som mais arrastado é colocado em primeiro plano. O final recebe a mesma camada de sonoridade mais veloz e incisiva, porém breve.
Um mundo sem esperança e abandonado pelos deuses
Outra faixa angustiante e repleta de notas lacrimejantes, sendo esta ainda mais intensa nesse quesito. O sofrimento é sentido em cada palavra vociferada em canto e toca em instrumento. Jasper faz o seu baixo ecoar como se estivéssemos em uma câmara ou uma masmorra. Quando “Beneath Starless Skies” ganha voo, as melodias atendem ao chamado e você sente a ausência de estrelas simboliza a falta de orientação e esperança. A faixa cria uma atmosfera desoladora e desesperançada, típica do Doom Metal, sugerindo um universo vazio e sem propósito.

A ascensão dos marginalizados e sem honra
Demorou, mas a arrasa quarteirão interplanetário chegou! “Resurrection of the Graveless” traz o contraste do que vem a ser a ressurreição, geralmente um símbolo de esperança, é subvertida e se torna um tema de terror. O ímpeto maior da faixa provoca solos mais energéticos e cheios de vibração, aonde o Death Metal fala mais alto.
Os “sem túmulos” são almas perdidas, esquecidas ou atormentadas que retornam para assombrar o mundo. A música faz uma homenagem ao Death Metal old school e suas raízes no horror. Semelhanças com Asphyx e Sinister não faltam e enriquecem a obra.
Entendimento e cortejo da obra
É notória a tradicionalidade inserida no novo artefato sonoro Graceless. Mas se engana quem pensa que o álbum cair na mesmice. Todas as faixas funcionam muito bem e caminham de acordo com os seus respectivos propósitos. Björn e Remco formam uma dupla de guitarrista muito consistente e criativa. Além disso, temos o baixo mágico de Jasper e a bateria precisa de Marc, fatores principais para um ótimo alicerce musical.
Contudo, alguns detalhes impedem desse novo álbum se tornar um marco na história do Metal como um todo. Faltou uma faixa mais veloz entre a metade do disco em diante e a terceira parte de um mesmo objeto. E pra finalizar, a banda holandesa mais uma vez desfila o seu talento com um novo álbum na praça e um novo trabalho para representar muito bem a banda em apresentações posteriores.
“Sangue no altar
A cruz sagrada profanada
Demonizado, possuído
Sua luxúria está descontrolada
Caindo em desgraça
A igreja está manchada de pecado
As freiras jazem frias e sem vida
Enquanto o diabo o atrai”
nota: 8,8
Integrantes:
- Jasper Aptroot (baixo)
- Marc Verhaar (bateria)
- Björn Brusse (guitarra)
- Remco Kreft (vocal, guitarra)
Faixas
1. God Shines in Absence
2. Sanctified Slaughter
3. Lash Me to My Painful Death
4. Night of the Slain
5. Hardening of the Heart
6. Ungodliness
7. Rise of the Blackest Sun
8. A King in the Filth
9. Beneath Starless Skies
10. Resurrection of the Graveless