Resenha: Ghost – “Skeletá” (2025)

O Ghost confirmou sua forte identidade ao longo da última década e se tornou uma das bandas mais originais e teatrais do Rock atual. Liderado pelo multifacetado Tobias Forge, que renova sua persona a cada álbum sob o título de um Papa diferente, o grupo transita com naturalidade entre o Hard Rock, o Occult Rock, o AOR e leves flertes com o Metal.

É bom que se diga: a proposta do Ghost sempre esteve além dos limites sonoros do Metal tradicional. Trata-se de um projeto altamente autoral, sustentado por um universo estético próprio, narrativas teatrais e um senso de composição que une irreverência, crítica social e melodias impecáveis. Com Skeletá, o Ghost aprofunda a direção artística já explorada no bem-sucedido Impera, mas agora mergulha ainda mais fundo na sonoridade oitentista que permeia o Hard Rock e o AOR clássico.

A influência de nomes como Blue Öyster Cult e Alice Cooper continua evidente, especialmente na forma como o álbum equilibra o uso de guitarras, sintetizadores e refrãos grandiosos. Mesmo diante das críticas de parte do público Metal — que insiste em cobrar um peso que nunca fez parte essencial da proposta da banda —, o Ghost segue ascendendo ao mainstream. É assustador o acúmulo de números expressivos nas plataformas de streaming e arrastando multidões em turnês globais.

A produção de Skeletá e sua estética musical

Tecnicamente, Skeletá apresenta produção mais limpa e “glamourizada” do que seus antecessores, como se Tobias refletisse a evolução de sua nova encarnação, o Papa V Perpetua. As guitarras soam menos pesadas, porém mais elegantes, e os arranjos adotam um brilho quase cinematográfico que reforça os elementos dramáticos do álbum. Essa escolha combina com a proposta conceitual da obra, que se beneficia de camadas instrumentais bem definidas. Além disso, a mixagem privilegia vocais, teclados e texturas melódicas.

Entre as faixas que mais se destacam, “Lachryma” surge como uma das melhores composições do álbum, apostando em guitarras rasgadas e teclados sombrios. O desempenho vocal de Tobias é recheado de nuances teatrais e a letra transforma a dor de um coração partido em metáfora vampírica. Uma combinação perspicaz de humor negro e melancolia, inclusive, feita com muita habilidade. Já “Centograph” abraça de vez o espírito oitentista, trazendo baterias marcantes e sintetizadores expansivos. Isto cria um ambiente vibrante e irresistivelmente pop — algo que o Ghost domina como poucas bandas.

Outro ponto alto do álbum é “Missilia Amori”, possivelmente o momento mais divertido e descaradamente irreverente de Skeletá. Com vocais cheios de malícia e guitarras mais robustas, a faixa revisita o espírito provocador das bandas Hard dos anos 80. Em contraste, “Umbra” aposta em um clima ritualístico, com batidas que se movem pelo estéreo, com um órgão elétrico pulsante e um senso de espetáculo. É claro que estas são características que remetem diretamente às influências de Blue Öyster Cult. Já “Exclesis” oferece o lado mais emotivo do álbum, funcionando certamente como a balada mais introspectiva e revelando um Tobias mais vulnerável.

Faixas em Destaque e Construção Musical

Do ponto de vista da construção musical, o álbum se beneficia de uma sequência de singles fortes — “Peacefield”, “Lachryma” e “Satanized” — que reforçam a proposta acessível e grandiosa do Ghost. Ainda assim, o disco guarda seus momentos de velocidade e agressividade controlada, como acontece em “De Profundis Borealis”. Trata-se de um equilíbrio que reforça o DNA da banda: intensidade emocional e teatralidade acima do peso propriamente dito.

Ao fim, Skeletá representa mais uma evolução natural dentro da discografia do Ghost. Embora mantenha o DNA inconfundível do grupo, o álbum evita repetições e oferece uma nova combinação de elementos, expandindo o universo criativo de Tobias Forge. O Ghost continua ousando dentro de seus próprios limites, reinventando-se a cada ciclo, bem como preservando sua identidade visual e musical. Acima de tudo, consegue entregar obras frescas mesmo quando se apoia em estéticas retrô.

É justamente essa capacidade de explorar novos caminhos sem perder seus objetivos centrais que mantém o Ghost relevante. E isso também faz de Skeletá mais um capítulo envolvente e marcante na trajetória de uma das bandas mais intrigantes da atualidade. Amando ou odiando, é impossível ignorá-los.

Nota: 8,5

Integrantes:

  • Tobias Forge (vocal, letras, conceitos e vários instrumentos)
  • Nameless Ghouls (guitarras, baixo, bateria, teclados e backing vocals)

Faixas:

  • 01 Peacefield
  • 02 Lachryma
  • 03 Satanized
  • 04 Guiding Lights
  • 05 De Profundis Borealis
  • 06 Cenotaph
  • 07 Messilia Amori
  • 08 Mark of the Evil One
  • 09 Umbra
  • 10 Excelsis
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
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