Resenha: Forget Everything — “Disgrace in My Fate” (2026)

Nos últimos anos, falar sobre bandas do Metal nacional tem se tornado uma experiência cada vez mais agradável. E isso tem muito a ver com as possibilidades que a tecnologia oferece atualmente. Se voltarmos aos anos 1980 e 1990, perceberemos que muitas bandas brasileiras enfrentavam enormes dificuldades para gravar seus trabalhos. Não faltavam bons músicos, mas faltavam recursos, equipamentos e condições adequadas de produção.
Imaginem o que algumas daquelas bandas poderiam ter produzido se tivessem à disposição a tecnologia que temos hoje! Felizmente, essa realidade mudou. O resultado é uma quantidade cada vez maior de bandas brasileiras apresentando trabalhos de excelente qualidade.
É nesse cenário que encontramos a Forget Everything, um trio de Thrash Metal de Piracicaba, no interior de São Paulo. A banda é formada por Murilo Ramos, na guitarra e nos vocais; Mateus Lopes, no baixo e nos backing vocals; e João Lima, na bateria.
Depois de lançar singles em 2024 e o EP Intrusive Thoughts, em 2025, o grupo apresentou, em 30 de setembro de 2026, seu primeiro álbum completo: Disgrace in My Fate. Produzido e mixado por Gabriel do Vale, o disco apresenta nove composições em apenas 26 minutos e 29 segundos. Essa duração já revela uma das principais características da Forget Everything: músicas diretas, objetivas e sem enrolação.
O Thrash Metal da Forget Everything
Antes de falar das músicas, precisamos situar a sonoridade da banda. A Forget Everything faz Thrash Metal, mas suas principais referências não parecem estar nos nomes mais populares do gênero, como Metallica, Megadeth, Slayer ou Testament.
O que encontramos aqui é uma sonoridade muito mais próxima do underground dos anos 1980, especialmente de bandas como Nuclear Assault, além de referências ao Sepultura da fase Max Cavalera, Toxic Holocaust e Municipal Waste.
Mas não estamos falando de uma banda que simplesmente tenta reproduzir o passado. A Forget Everything apresenta uma sonoridade atual, construída sobre influências clássicas, com muita agressividade, velocidade e uma boa dose de irreverência.
A própria capa do álbum já chama a atenção, apresentando três figuras de aparência curiosa, quase animalesca, em um cenário que lembra um deserto. É uma imagem que combina com a personalidade do grupo, que mistura agressividade musical, humor, ironia e provocações.
Faixa a faixa: riffs agressivos e vocais rasgados
O álbum começa com “Suffering in Silence”, uma introdução instrumental de apenas 1 minuto e 48 segundos. Logo de início, o que chama a atenção é a sonoridade das guitarras. Particularmente, a primeira banda que me veio à memória foi o Nuclear Assault. Os riffs apresentam aquela agressividade característica do Thrash Metal underground oitentista, mas com uma produção contemporânea.
Na sequência, temos “Calling Peace”, com 2 minutos e 36 segundos, que mantém a intensidade instrumental e apresenta um dos grandes destaques da Forget Everything: os vocais de Murilo Ramos. Murilo possui uma voz suja, agressiva e rasgada, mas perfeitamente compreensível. E isso funciona muito bem dentro da proposta musical da banda.
Já em “Rip”, encontramos uma característica interessante: a capacidade de combinar riffs cadenciados com muita velocidade. Quando Murilo entra cantando, a agressividade aumenta ainda mais, enquanto os momentos instrumentais demonstram a qualidade do trio.
A quarta faixa, “Excess of Serotonin”, é a mais longa do álbum, com 3 minutos e 58 segundos. Mesmo sendo a composição mais extensa, mantém a objetividade das anteriores, alternando cadência, velocidade e os excelentes vocais de Murilo Ramos.
Mas é na quinta música, “Void Painted Green”, que encontramos uma mudança interessante. Eu diria que essa composição funciona quase como uma balada dentro dos padrões da Forget Everything. Não uma balada tradicional, evidentemente, mas uma música menos agressiva, mais cadenciada, que oferece ao ouvinte um momento de descanso. É curioso que isso aconteça exatamente na metade do álbum, inclusive depois de quatro músicas e antes das quatro últimas.
A qualidade instrumental e o grande momento do álbum
Chegando a “Surfing While They Walk”, temos outra composição instrumental, com apenas 2 minutos e 20 segundos. Aqui, fica evidente a qualidade dos três músicos. A execução instrumental é tão boa que inegavelmente não sentimos falta dos vocais. A música se sustenta perfeitamente, sem se tornar repetitiva ou cansativa.
Então, chegamos à sétima composição, “Disgrace in My Fate”, a faixa-título e, na minha opinião, o grande momento do álbum.
Depois de uma música instrumental, Murilo Ramos retorna cantando desde o início, com uma interpretação extremamente agressiva, preenchendo muito bem os espaços da composição. E é aqui que aparece também a irreverência da banda.
Em determinado momento, Murilo canta “disgrace in my fate”, seguido de “why don’t you go”, até chegar à expressão em português: “tomar no seu cu!” É uma provocação divertida, que revela a personalidade do grupo. Imaginem um estrangeiro escutando essa música e tentando compreender aquela expressão!
Musicalmente, considero essa a melhor composição do trabalho, reunindo a agressividade instrumental, a qualidade dos vocais e a identidade da banda.
O álbum caminha, então, para seu encerramento com “The Price” e termina com “TDAH”, uma composição de Thrash Metal veloz e agressivo, com os vocais de Murilo mantendo a intensidade até o último momento.
Considerações finais
Disgrace in My Fate é um excelente primeiro álbum completo, que demonstra a qualidade instrumental, a personalidade e a maturidade musical da Forget Everything.
Com uma produção muito bem realizada, o trio apresenta um Thrash Metal agressivo, direto e sem excessos, que não deixa nada a desejar em relação a muitos dos bons lançamentos internacionais do gênero.
São nove composições em pouco mais de 26 minutos, que passam rapidamente e deixam aquela vontade de voltar à primeira música e escutar tudo novamente.
A Forget Everything demonstra potencial para conquistar espaço também fora do Brasil, mostrando que nosso Metal nacional continua revelando bandas de excelente qualidade.
É um Thrash Metal que respeita o passado, mas não vive preso a ele. Se você gosta de Nuclear Assault, Municipal Waste e Toxic Holocaust, vale muito a pena conhecer Disgrace in My Fate.
Integrantes
- Mateus Lopes — baixo
- João Lima — bateria
- Murilo Ramos — vocais e guitarra
Faixas
- Suffering in Silence
- Calling Peace
- Rip
- Excess of Serotonin
- Void Painted Green
- Surfing While They Walk
- Disgrace in My Fate
- The Price
- TDAH