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Resenha: Epica – “Omega” (2021)

Gravadora: Nuclear Blast Records

Quando comecei a simpatizar com o chamado Symphonic Metal, eu nem sequer sabia sobre a existência deste termo e não sabia muito como funcionava essa vertente. Claro que no início não se sabe de quase nada ou simplesmente nada, mas o que aconteceu com o simplório narrador desta epístola é que poucas bandas do primeiro escalão fizeram parte de sua lista de audições. Bandas como Nightwish e Tristania (embora a banda da maravilhosa Vibeke Stene não fizesse parte desse tipo de sonoridade) encabeçaram a lista, enquanto outras bandas, tão famosas quanto, acabaram não entrando nesse mapa musical de minha persona. Seu guia, nobre e caríssimo leitor, ele começou a ouvir bandas menos conhecidas como Darkwell e Silentium, entre outras. Parecia-me que as bandas que não atingiam uma fama maior conseguiam utilizar melhor as linhas de guitarra sem fazer com que os teclados e as orquestrações cobrissem os riffs, coisa que não suporto em som algum. Se não tiver guitarra, já começa errado a meu ver. E o Epica, que à época não era tão conhecido, poderia entrar na lista. Porém, acabou ficando de fora por determinados motivos. Hoje, percebo uma evolução sonora que flerta bastante com consagrado Power Metal (sei que o apelidado “Sympho” é parente do Power, mas o alicerce sonoro nem sempre era ou é voltado a isso), e mesmo que não houvesse esse flerte ainda sim estaria em franca evolução. Não somente a estrutura sonora em si como a voz da brilhante Simone Simons. Visto todo esse pequeno relato, vamos ao conteúdo de fato.

   

O ano de 2021 chegou e no dia 21 de fevereiro, Epica lançou “Omega”, seu décimo álbum de estúdio via Nuclear Blast Records. Com quatro videoclipes apresentados, os holandeses não vieram para brincadeira. O novo disco foi produzido em Sandlane Recording Facilities em Rijen, Holanda. A produção ficou a cargo de Joost van den Broek e a arte de capa foi criada pelo meu chará com “F” Stefan Heilemann. Já no dia 26 do mesmo mês, os holandeses lançaram o EP “Omegacoustic”, contendo quatro faixas. Para quem é adepto da banda sabe que seu arsenal é repleto de climatizações, harmonias e orquestrações que preenchem os espaços programados pelos instrumentos de corda e percussão. As vozes sobrepostas se encontram e se intercalam em diversos momentos das canções, e temos aquele lado explorado de “A Bela E A Fera”, com vocais masculinos mais raivosos indo de encontro ao gutural, fazendo um contraponto aos vocais adocicados de Simone. Conforme a banda foi soltando e disponibilizando os videoclipes, a sonoridade geral foi tomando corpo e já podia pensar em como seria o álbum. Não que isso seja ruim, pois a banda mesmo queria e quer que todos ouçam e vejam seus vídeos até o lançamento do full length. Agora com tudo em ordem, resta programarmos nossa análise para… Já!

Reuver é uma vila que fica na província holandesa de Limburgo e está localizada no município de Beesel, a cerca de 10 km ao sul da cidade de Venlo. E de Reuver é que surgiu o Epica em meados de 2003, sendo que a banda de fato surgiu em 2002 quando se chamava Sahara Dust e residia em Rotterdam, cidade portuária na província neerlandesa da Holanda do Sul. Nem parece que a banda já possui certa idade, mas conforme já foi dito, “Omega” é o décimo álbum da banda e que acaba de ser ligado para juntos analisarmos “frame a frame”. A jornada espectral começa como boa parte dos álbuns do estilo, com toda aquela pompa envolvendo os caminhos da floresta que são guiados pelas primeiras notas de piano, até que surge toda a orquestração e abre o cenário como em um filme. A breve introdução “Alpha – Anteludium” abre caminho para “Abyss Of Time – Countdown To Singularity” que inicia a todo vapor, aproveitando o jogo de vozes entre Simone e Mark com seus grunhidos, conforme o mesmo cita em sua ficha técnica. “Preencha o vazio em mim / Veja a vida além do véu / Substitua todos os pensamentos do abismo / Com energia cósmica / Acenda a chama em ti / Preencha a árvore da sua vida / Estamos profundamente enraizados na escuridão / E continue crescendo em direção à luz” – uma bela amostra do que se diz para fazer a vida valer à pena, sempre colocando conteúdo em sua jornada com a clara intenção de incentivar e inspirar a viver. A luz e a escuridão aparecem de forma precisa no videoclipe feito para essa faixa. A canção ainda conta com partes faladas e descamba para uma sonoridade mais pesada, a qual combina muito bem com os vocais raivosos de Mark. Embora este início não apresente algo realmente novo, não é por isso que vou rebaixar o disco. Mantendo a tradição com boas intenções, o alicerce se mantém firme. E a escolha para a inauguração do certame com essa canção foi bastante assertiva. “The Skeleton Key” reforça a ideia das nuances entre o mais harmônico e o mais denso, trazendo solos que carregam o ouvinte até esse vasto mundo repleto de luz e escuridão que nada mais do que a nossa mente lutando todos os dias em busca de sobrevivência e paz. “Podemos encontrar o raio que brilha dentro de nossa mente? / Podemos lutar contra o lado negro, que todos temos tentado esconder? / As muitas noites sem dormir, o pânico que volta / Esperando pelo nascer do sol quando o paraíso chega.” Qualquer semelhança com o Nightwish em algumas passagens é mera coincidência. Lembrando que esta é outra faixa que recebeu um videoclipe.

Após a primeira trinca contando com a introdução, “Seal Of Solomon” aparece na posição de número quatro e traz consigo um clima mais árabe a princípio. Com uma levada um pouco diferenciada, a canção se eleva nos refrãos em coro. As características apresentadas colocam um pouco mais de tempero nessa sinfonia para que não fique com aquele mesmo gosto de sempre. Destaque para o baterista Ariën, que conduz seu exército de músicos com maestria em busca do equilíbrio real. “Criação de equilíbrio na vida / Alinhe todos os seus chakras / Convergir para regeneração.” Agora estamos diante da deusa da terra “Gaia”. E o que esperar disso? Mais uma continuidade do processo inicial? Sim, mas sempre optando por doses de peso e melodia sem que as orquestrações desliguem as guitarras. Isso é realmente muito bom! Não é a melhor “múzga” do álbum, mas não faz o trabalho decair. Diante de nossa grande alteração, todos nós estamos perdidos em um labirinto de poder com nossas mentes, contemplando a salvação e a mutação da vida. Assim é “Code Of Life”, que possui trechos em árabe condizentes com o que está sendo dito na canção, inicia com uma trilha local envolta de mistérios e vozes características destes povos. A contemplação e o caminho da vida são guiados por este início, que logo dá a mão aos instrumentos convencionais e se coloca em posição de ataque. Através dos acordes pesados, nós chegamos à conclusão de que somos as vítimas do nosso destino e que a movimentação interna é uma corrida sem fim. Nenhuma cura para o progresso, nossas vidas serão perdidas na danação.

“Freedom – The Wolves Within” inicia brevemente em coro e logo apresenta suas armas afiadas. O baixo de Rob van der Loo conduz a carruagem da melhor forma, se superando a ponto de ser apontada como a melhor faixa de “Omega”. “Escolha dar aquele salto crucial de fé / Abandone o medo e alivie toda a sua dor (Nossa fixação) / Enfrente seu caos, alimente o inimigo / Um apetite pela sua harmonia (nossa vibração)” – as escolhas a serem feitas não importando o que aconteça. São escolhas e alguém terá de desabar meio a todo o peso colocado nos momentos mais tensos da canção com muito sentimento e técnica envolvidos que também recebeu seu próprio videoclipe. “Kingdom Of Heaven Part 3 – The Antediluvian Universe” surge com algumas etapas dentro de seus versos. São eles: [I. Ātman] com citações em latim sobre o sopro da alma; [II. Sri Yantra] que trata da exaltação ao brilho e à alegria da vida junto a este símbolo que representa um instrumento de apoio para contemplação, concentração e meditação; [III. Salões de Amenti] assim como é descrito no livro egípcio Capítulos De Sair À Luz, muitas vezes chamado de Livro dos Mortos, o ka (corpo “duplo” ou astral) de uma pessoa morta sai da câmara funerária e vaga na escuridão através de túneis e passagens sobre a Terra. Por fim, ele entra em Amenti, a enorme “Sala de Julgamentos dos Mortos”; [IV. Dualidade] representa a divisão entre espaço-tempo; [V. O Chikhai Bardo – Navegando pelos Reinos Após a Vida] este é o livro tibetano dos mortos, que aborda o estado de existência intermediária entre a morte e o renascimento de acordo com o budismo local; [VI. A Flor da Vida – A Espiral Cósmica] a espiral que mostra as mudanças de estado da vida e o desabrochar da vida, contemplando a sabedoria dentro de si. Uma letra, exotericamente, envolvente com uma abordagem sonora que remete à linha do tempo com reinos surgindo e desabando, para que novas tribos proliferem e assim possam dar seguimento à espiral da vida enfeitada pelos constantes pedais duplos de bateria. Peso e leveza condizentes com cada mudança da essência do viver e prosperar. Aos pouco mais de nove minutos da canção, temos uma parte mais fantasmagórica que te leva a bordo desses mundos repletos de fantasia e realidade ocultas e misturadas. No total a faixa mais longa do álbum possui 13min24seg, segundo apontam os registros.

Em seguida é a vez de “Rivers”, que também possui videoclipe. O libertar das correntes exige muita luta e devoção para que as almas possam erguer aos céus e manter a estrada infinita da vida em movimento. A luta é árdua, mas a vida é prazerosa demais para se deixar esvair. Assim descrevem os holandeses voadores, que mantém a bolacha em movimento circular para o ouvinte não perca nenhum detalhe de sua caixinha giratória de música. Com um toque de pureza sob o resplendor da alma, o piano soa de forma bastante suave até a entrada dos cânticos líricos de Simone. Como um rio, as águas sonoras correm sem perder o fluxo até a primeira queda d’água. Confesso que nessas canções sem guitarra, baixo e bateria, dá vontade de pular para a próxima canção. Mas, antes de eu fazer isso, os instrumentos tradicionais e necessários ressurgem e enchem os pulmões da canção para esta que se eleve e não decaia em meio a um álbum que vem quebrando várias barreiras em favor da própria banda até que seu fim se iguale ao que acontecera no início. O mundo precisa de sinergia e o Epica aproveita a chance para colocar bastante dedicação e vontade nessa próxima prosa rítmica. “Synergize – Manic Manifest” chega de peito estufado, mas logo reduz a velocidade, o que a faz ter momentos de mais agressividade que respondem ao manifesto de forma conexa. “Levante-se do fogo, tome de volta toda autoridade / Deixe de lado tudo o que o prende / Inimigos inventados aprisionam sua identidade / E logo sua alma se transforma em pedra” – o recado foi dado e a sonzeira foi executada. E se antes o Nightwish comandava, hoje é o Epica quem dá as cartas.

“Twilight Reverie – The Hypnagogic State” começa o jogo parecido com a faixa “Rivers”, mas de forma mais curta se resolve rapidamente ao colocar os riffs em pauta. Reverenciando e detalhando as etapas da vida e os devaneios da mente humana, a jornada prossegue com esse tema tão complexo e desentendido por muitas pessoas ao redor do mundo. As doutrinas servem apenas para manter as pessoas aprisionadas em seus falsos ensinamentos, que nada mais são do que prisões mentais e físicas, dentre as quais poucas conseguem se libertar. “Justifique os demônios em sua mente / Quando eles gritarão: “Sem misericórdia” / Justifique os anjos ao lado deles / No devaneio do crepúsculo” – para uma canção mais agitada com guitarras esbravejantes e perspicazes, a mensagem é passada com clareza e promove um grandioso fim para este novo álbum. Mas, espere! Ainda falta uma “múzga”! O final do álbum é declarado com a revoltada “Omega – Sovereign Of The Sun Spheres”, faixa esta que cita o corpo sonoro do absoluto: Om. Om é o som do universo que se une aos outros mantras, sendo a principal ligação da linguagem em todo o plano astral. Os solos evidenciam um Epica se arriscando em locais mais tradicionais do Metal, sem perder seu eu interior em nenhum momento. O encerramento se dá com uma bela dose de corais que contornam a voz poderosa de Simone ao mesmo tempo em que todos os integrantes fecham a obra de forma impecável.

A ideia inicial era percorrer o álbum sem citar todas as faixas, já que são muitas. Porém, achei mais viável encarar a coisa mais profundamente para melhor complementar as nuances vividas durante cada passagem do disco. “Omega” é um álbum repleto de ideias das quais formam o que conhecemos como Symphonic Metal, e o que mais impressiona nesse novo álbum são as excelentes pitadas de Death Metal sem soar forçado em nenhum momento e combinando com o clima oferecido durante cada canção. Além disso, não pode esquecer-se dos vários elementos pertencentes ao Power Metal, na qual só vieram a elevar a já crescente evolução da banda. Não que os discos anteriores não tenham o seu devido valor. Mas, “Omega” faz por merecer vários elogios devido à competência apresentada em sua construção. É notória a evolução do Epica como um todo, desde os arranjos, passando pelas orquestrações, climatizações, cenários, e voz. Se o dono da pena com nanquim virtual aprovou a obra, será que os fãs de longa data da banda também aprovaram o novo trabalho? Se não ouviu ainda, ouça e tire suas próprias conclusões. Boa viagem musical e fique atento. Afinal, Simone Simons detona!

“Ego primum semen omnis rei terrae

Ego quoque finis universi:

Alpha. Omega”

  • Nota: 9,1
  • Integrantes:
  • Simone Simons (vocal principal)
  • Mark Jansen (guitarra rítmica, vocal)
  • Coen Janssen (sintetizadores, teclado, piano de cauda)
  • Ariën van Weesenbeek (bateria)
  • Isaac Delahaye (guitarra solo, violão)
  • Rob van der Loo (baixo)
  • Faixas:
  • 1. Alpha – Anteludium
  • 2. Abyss Of Time – Countdown To Singularity
  • 3. The Skeleton Key
  • 4. Seal Of Solomon
  • 5. Gaia
  • 6. Code Of Life
  • 7. Freedom – The Wolves Within
  • 8. Kingdom Of Heaven Part 3 – The Antediluvian Universe
  • 9. Rivers
  • 10. Synergize – Manic Manifest
  • 11. Twilight Reverie – The Hypnagogic State
  • 12. Omega – Sovereign Of The Sun Spheres
  • Redigido por: Stephan Giuliano
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