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Resenha: Enforcer – “Nostalgia” (2023)

Nuclear Blast Records

   

Parece mentira, mas o Enforcer, uma das grandes representantes da tal nova geração do Heavy Metal tradicional, irá completar duas décadas de existência em 2024. Formada em 2004, talvez esteja na hora de pararmos de trata-los como uma “revelação” ou banda em início de carreira, já passaram desta fase há algum tempo e precisamos entender exatamente em que ponto do percurso estão Olof Wikstrand e seus comparsas. Eu diria que estão naquele momento da trajetória em que passam por uma encruzilhada criativa e não se tem muita certeza de qual caminho seguir.

ENFORCER / Divulgação / Facebook

Como um grande entusiasta da NWOTHM (New Wave Of Traditional Heavy Metal), acompanho os suecos praticamente desde o lançamento de seu primeiro registro de estúdio, o ótimo “Into The Night”, lançado em 2008. De lá para cá, é preciso lembrar que o Enforcer nos presenteou com mais alguns álbuns realmente ótimos, não existe outra definição para os avassaladores “Diamonds” (2010), “Death By Fire” (2013) e “From Beyond” (2015). Só que agora, dentro de um selo grande (Nuclear Blast Records desde “Death By Fire”), possuem uma responsabilidade a mais e, talvez, ser um grande porta voz nostalgico da boa e velha escola do Metal não seja algo tão lucrativo para a gravadora. Talvez, após os lançamentos de dois petardos insanos com o puro creme do Heavy/Speed Metal, Olof tenha recebido algum tipo de pressão (e espero que não seja este o caso). Talvez o experimentalismo que vimos em “Zenith”, disco de 2019, seja apenas a necessidade artística do músico tentando desafiar seus limites. Não sabemos ao certo, são perguntas por enquanto sem resposta, mas o que podemos constatar é que a sonoridade da banda mudou. E mudou muito.

Quando o sexto full lenght, “Nostalgia”, foi anunciado, parecia que tudo voltaria ao normal. O título soava como um claro recado aos fãs e as entrevistas de Olof davam a entender que o quarteto visitaria o passado sem qualquer pudor. O melhor de tudo isso foi ouvir os singles que estavam sendo disponibilizados desde meados de 2022. “Kiss Of Death”, “At The End Of The Rainbow” e “Coming Alive” eram todas composições que realmente nos faziam mergulhar no passado da própria banda. Nem mesmo a balada “Nostalgia” me fez duvidar que o novo trabalho se desviaria dessa proposta de resgate. Talvez este tenha sido meu erro com relação ao disco, nunca devemos esperar demais ou elevar demais as expectativas. Bem, como tudo parecia favorável para que o Enforcer retomasse de onde parou em “From Beyond”, confesso que o resultado final apresentado em “Nostalgia” me soou um pouco amargo e abaixo do esperado. De forma alguma podemos dizer que trata-se de um registro ruim, mas não é nem de longe uma volta 100% às raízes.

Na época do lançamento do single “Coming Alive”, o discurso de Olof foi o seguinte:

“Estamos muito felizes em anunciar nossa primeira música realmente nova em quatro anos! O Heavy Metal volta com ‘Coming Alive’. Depois do experimental ‘Zenith’, nos sentimos seguros de voltar às nossas raízes com outro álbum de Heavy Metal intransigente para as massas. ‘Nostalgia’ é uma viagem Heavy Metal contendo 13 hinos agressivos do gênero.”

Olof Wikstrand / Reprodução / Youtube

Veja bem, no geral, sou totalmente contra ouvir novos discos esperando uma repetição de alguma fórmula que deu certo no passado. Mas precisamos entender que no caso do Enforcer não estamos falando de algum dinossauro prometendo uma volta à musicalidade de um disco lançado há 35 anos atrás, estamos falando de uma banda que sequer completou 20 anos de existência. As comparações estão sendo feitas com um trabalho lançado em 2015. E não são comparações aleatórias, já que temos o agravante da própria banda ter prometido isso aos fãs. Se no lançamento de “Zenith”, foram totalmente assertivos ao dizer às claras que se tratava de um álbum experimental, em “Nostalgia”, erraram feio em chamá-lo de “volta às raízes”. Quando partimos para uma audição sabendo que se trata de alguma experimentação, já esperamos ouvir coisas diferentes que não se parecem com nada do que o grupo em questão fez algum dia. A análise é feita sem julgamentos ou comparações. Quando fazemos uma audição sabendo que a proposta é soar como um retorno às raízes clássicas do Heavy/Speed, invariavelmente, você vai querer ouvir toda a agressividade, velocidade e peso necessários. A própria banda se colocou em uma posição de receber críticas quando não entregou aquilo que se propôs a fazer.

Existem composições que nos remetem ao som clássico do Enforcer?

Sim, existem. Cerca de 5 canções realmente são lampejos do passado. “Coming Alive”, “Kiss Of Death”, “At The End Of The Rainbow”, “Metal Supremacia” e “When The Thunder Roar (Cross Fire)” causam boas impressões e demonstram que Olof ainda entrega Metal veloz de qualidade quando quer. A tal “Nostalgia” do título me soou mais como uma viagem da banda aos anos 80 de maneira geral do que um retorno ao seu próprio passado. O disco não abandonou de forma alguma as experimentações de “Zenith” e, em diversos momentos, causa estranhesa com ritmos “açucarados” ao extremo ou “dançantes” demais. Um exemplo claro de faixa “açucarada” está em “Heartbeats”, que remete diretamente ao Def Leppard, não o Def Leppard pulsante de “High ‘N’ Dry”, mas aquele já meio baleado de “Adrenalize”. Um exemplo de momento dançante desnecessário está em “Keep The Flame Alive”, que quando se concentra em ser Heavy Metal até soa interessante, mas quando descamba para as partes “Disco Music” e parece que de repente retiraram o Enforcer de cena e colocaram o “Bee Gees”, neste caso, me parece um tanto equivocado.

Sendo muito sincero, essa música me provocou risos de tão ridícula.

Outro ponto que precisa ser mencionado é com relação a produção. Os timbres das guitarras parecem que entraram em uma espécie de regime forçado e soam absolutamente sem peso. Estão magrinhas, quase raquíticas. Os vocais de Olof, apesar de continuarem muito bons e técnicos, soam sem punch, sem energia e, em alguns momentos, sem vontade. Traduzindo: o Enforcer ao mesmo tempo em que tenta se reconciliar com o próprio passado, parece estar ainda sob efeito dos novos horizontes trazidos por “Zenith”. É muito provável que encontrem um equilíbrio ou façam as pases com o Speed Metal raivoso de outrora, mas no atual momento, parecem uma banda perdida em busca de uma direção para seguir. É como se estivessem atirando para todos os lados e observando se alguma das balas atinge na mosca algum alvo aleatório.

A essa altura da análise, o caro amigo leitor deve estar imaginando que eu detestei o álbum, mas longe disso. “Nostalgia” tem seus méritos e consegue passar de ano mesmo com uma nota um pouco comprometida pelos deslizes já mencionados. Até o lançamento de “From Beyond”, considerava o Enforcer a melhor banda de toda a NWOTHM. A mais competente, mais criativa e mais marcante. É claro que depois de 8 anos sem conseguir emplacar um registro do mesmo nível dos concebidos até 2015, perderam este posto em meu pódio pessoal. Contudo, a anteriormente “melhor da nova geração”, mesmo quando tropeça ainda consegue manter um nível bastante aceitável. Caso “Nostalgia” tivesse sido vendido pelo que é: um álbum “meia mussarela/meia calabreza”, no sentido de ser metade “volta às raízes” e metade continuação de “Zenith”, certamente, teria sido avaliado de forma menos exigente. Mas depois de todo o discurso mencionando agressividade, furia e retorno ao passado, não dá para fechar os olhos e simplesmente ignorar esse “vai que cola” alardeado na divulgação.

Ainda sobre as canções presentes no álbum, “Unshackle Me”, mesmo sendo uma abertura que considero totalmente deslocada, consegue ser uma canção muito interessante e se sobressai, a balada “Nostalgia” apesar de fugir completamente dos padrões do Enforcer, é excepcional e, provavelmente, irá se tornar uma figurinha carimbada nos shows da banda daqui para frente. Prevejo o público cantando a letra junto com Olof e se emocionando. Algumas que considero dispensáveis e caso não estivessem no tracklist não fariam a menor falta são as comuns “Demon”, “No Tomorrow” e “White Lights In The USA”, isso sem mencionar as enfadonhas “Heartbeats” e “keep The Flame Alive”, mencionadas anteriormente.

Considero que o Enforcer tem três opções para o futuro:

  • 1) A mais provável. Manterem-se nessa temperatura morna, lançando discos que não cheguem a incomodar de forma muito acentuada os fãs mais antigos, mas que também os faça não se abster de continuar “tentando a sorte” com faixas de gosto duvidoso e que exploram esquizitices musicais que não se encaixam em nada com o som tradicional da banda.
  • 2) A segunda opção é se jogar nas experimentações e “gastar” de uma vez toda essa overdose criativa por musicalidades diferentes que parece estar fluindo nas veias de Olof. Obvio que fazendo isso irão se afastar de seus fãs mais antigos, mas não será a primeira e nem a última vez que uma banda de Heavy Metal toma uma decisão como esta.
  • 3) Por último, e esta é a escolha que mais me agrada, podem retornar de vez ao que sabem fazer de melhor. Mas para isso, precisam entender que um retorno ao Speed Metal raiz não pode ser apenas no discurso, precisa ter tesão em tocar rápido e em tocar pesado. Precisa ter a fúria necessária para que a música discurse a seu favor, coisa que não vimos nem mesmo nas faixas mais porradas contidas em “Nostalgia”.
ENFORCER / Alive / Reprodução / Facebook

É bom que fiquemos atentos aos próximos passos do Enforcer. Com este lançamento, estão caminhando em uma linha tênue e perigosa. É necessário pensar bem no que se pretende para o futuro e se não tomarem muito cuidado, podem deixar que o caldo desande de vez.

   

Gostaria de poder tecer muitos elogios e dizer que “Nostalgia” é um disco excepcional que veio para colocar a locomotiva do Enforcer novamente nos trilhos, mas não seria um relato fidedigno de tudo que observei nas muitas audições que fiz. Pode ser que em alguns anos este trabalho envelheça bem e consiga sobreviver ao teste implacável do tempo, mas hoje, representa um momento confuso onde encontramos um misto de boas idéias e outras não tão boas assim. Da próxima vez, espero que divulguem o disco explicitando o que ele realmente é. Não dá mais para engolir esses discursos ao estilo “pegadinha do Malandro”.

Como um disco de volta às raízes, recebe nota: 6,8

Integrantes:

  • Olof Wikstrand (vocal, guitarra)
  • Jonas Wikstrand (bateria, piano, teclado)
  • Jonathan Nordwall (guitarra)
  • Garth Condit (baixo)

Faixas:

  • 1.Armageddon
  • 2.Unshackle Me
  • 3.Coming Alive
  • 4.Heartbeats
  • 5.Demon
  • 6.Kiss of Death
  • 7.Nostalgia
  • 8.No Tomorrow
  • 9.At the End of the Rainbow
  • 10.Metal Supremacía
  • 11.White Lights in the USA
  • 12.Keep the Flame Alive
  • 13.When the Thunder Roars (Cross Fire)

Redigido por: Fabio Reis

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