Resenha: Eluveitie – “Ànv” (2025)

Após seis anos de silêncio em estúdio, o Eluveitie ressurge com “Ànv”, seu nono álbum, lançado em abril de 2025 pela Nuclear Blast Records e distribuído no Brasil pela Shinigami Records. O disco marca o início de uma nova fase criativa, resultado de um processo de gestação que se estendeu de 2022 a 2024 — período em que a banda suíça lançou singles isolados como “Aidus” e “Exile Of The Gods”, explorando caminhos sonoros distintos enquanto reconfigurava sua formação.
A saída das instrumentistas Annie Riediger e Nicole Ansperger, seguida da entrada da multi-instrumentista Lea-Sophie Fischer, impôs à banda uma inevitável reorganização estética. A sonoridade de “Ànv” reflete esse movimento: ainda fiel ao DNA celta e à fusão com o Death melódico de Gotemburgo, mas agora com uma abordagem mais direta, moderna e, em certos momentos, menos orgânica. O virtuosismo dos arranjos folclóricos dá lugar a texturas mais sintéticas e controladas, privilegiando peso, clareza e precisão rítmica. É um Eluveitie que preserva sua identidade, mas a submete a uma nova lógica de produção contemporânea. Se a mudança resultou em um acerto, vai muito da opinião do fã.
A coesão entre o Metal e o Folk, que em álbuns como “Slania” (2008) e “Origins” (2014) se apresentava como um entrelaçamento natural, aqui assume um caráter mais calculado. Os instrumentos tradicionais — gaitas, whistles, mandolas e o próprio hurdy-gurdy — ocupam posições mais complementares que protagonistas. Isso se deve basicamente à opção de Glanzmann por consolidar uma base rítmica mais técnica e moderna, sustentada pela bateria impecavelmente articulada de Alain Ackermann e pelo baixo de Kay Brem, quase sempre pouco evidente, mas essencial para a densidade do som.
Menos Folk, mas ainda bom
Do ponto de vista técnico, “Ànv” é uma obra de refinamento. A produção é cristalina, com ótima mixagem, mas que fere os puristas da era analógica — um aceno às tendências do Metal moderno. O resultado, embora impressionante em termos de execução, por vezes sacrifica a rusticidade e a espontaneidade que sempre distinguiram o Eluveitie das demais bandas do gênero. Ainda assim, faixas como “Premonition” e “Taranoías” resgatam a força melódica e o equilíbrio entre agressividade e lirismo que tornaram a banda referência no Folk Metal europeu.
O álbum também revela um amadurecimento na interação vocal entre Chrigel Glanzmann e Fabienne Erni. A combinação das vozes — uma áspera e ancestral, outra etérea e de registro quase teatral — permanece o eixo emocional da obra. Erni, em especial, se sobressai e ganha protagonismo em composições mais acessíveis e melódicas, consolidando-se como uma das vozes femininas mais expressivas do Metal contemporâneo.
Entretanto, “Ànv” não é isento de problemas. A redução do protagonismo dos instrumentos folclóricos e a inclinação para estruturas previsíveis, com refrões extensos e pontes instrumentais previsíveis, tornam parte do repertório excessivamente polido. Há momentos em que o Eluveitie soa mais como uma banda de Metal melódico com elementos celtas do que o inverso. A releitura elétrica de “Epona”, incluída como bônus, exemplifica bem isso: poderosa, mas destituída do encanto acústico original.
Ainda assim, o disco funciona como um ponto de inflexão necessário. Ele não apenas encerra um ciclo de transição, mas também define o terreno sobre o qual o grupo pode reconstruir sua linguagem nos próximos anos. “Ànv” é o registro de uma banda que, após duas décadas de reinvenções, busca o equilíbrio entre tradição e modernidade. Nem sempre com perfeição, mas com autenticidade e visão.
Veredito:
“Ànv” é um trabalho sólido, tecnicamente impecável e emocionalmente contido. Se não alcança a inventividade de “Helvetios” ou o magnetismo de “Everything Remains (As It Never Was)”, ao menos reafirma a longevidade criativa de um grupo que segue buscando novos significados para a ancestralidade celta dentro do Metal moderno — um gesto de coragem em tempos de fórmulas seguras.
Integrantes:
- Chrigel Glanzmann (vocais principais, violão, mandolim, gaita irlandesa, bodhrán, flautas, harpa)
- Fabienne Erni (vocais principais, mandola, harpa celta)
- Rafael Salzmann (guitarra solo)
- Jonas Wolf (guitarra base)
- Lea-Sophie Fischer (violino, vielle à roue -hurdy-gurdy)
- Matteo Sisti (gaitas de fole, flautas, violão, mandolim, bodhrán)
- Kay Brem (baixo)
- Alain Ackermann (bateria e percussão)
Faixas:
- 01 Emerge
- 02 Taranoías
- 03 The Prodigal Ones
- 04 Ànv
- 05 Premonition
- 06 Awen
- 07 Anamcara
- 08 The Harvest
- 09 Memories Of Innocence
- 10 All Is One
- 11 Aeon Of The Crescent Moon
- 12 The Prophecy
Bônus (edição deluxe):
- 13 Aidus
- 14 Exile Of The Gods
- 15 Epona (Metal Version)