Resenha: Down — “Over The Under” (2007)

Já se vão quase vinte anos desde que o Down, o supergrupo (ou superprojeto?) lançou “Down III: Over The Under” (2007), então, por que escrever sobre ele agora?

Bom, na época eu não resenhei o disco e agora ele chega ao Brasil com um preço bem mais acessível, remasterizado e ainda com o atrativo de uma faixa bônus, até então só disponível nas versões europeia e japonesa. Mas tem algo aqui superior a tudo isso: seu som.

Se o primeiro disco “NOLA” (de N.O. New Orleans com L.A. Louisiana, 1995) era uma joia Sabbathica (perdoem a figura de linguagem), o segundo, “Down II: A Bustle In Your Hedgerow” (2002), talvez tenha demorado demais para ser feito ou não era aquela a época certa de ser lançado, daí minha impressão de que ele acabou soando meio perdido, mesmo que um bom disco. Já “Down III: Over The Under” (2007) colocava o Down de novo nos trilhos e nos lembrava o grupo de respeito que é.

Só que, até chegar a esse ótimo resultado, foi preciso passar por um verdadeiro purgatório em um curto período: começando pela lenta e dolorosa superação da dependência química pesada e das dores crônicas na coluna depois de anos do Phil Anselmo; depois, a morte trágica de Dimebag Darrell em pleno palco, em dezembro 2004, e ainda ter que sobreviver a furiosa Katrina, o furacão que varreu em agosto de 2005 a cidade de New Orleans, local que a banda adotou como sua base.

O exorcismo

A melhor resposta que o Down poderia dar a tudo isso foi de exorcizarem juntos todo esse período trágico em forma de uma música intensa, pesada e, certamente, com letras abertas, quase sempre relacionadas a vida pessoal de Anselmo.

“Down III: Over The Under” (2007) tem um pé no primeiro disco (o que por si só já é uma ótima referência), mas também se envereda muito bem por outros estilos, como no blues dos infernos de “Never Try” e na psicodelia de “Nothing In Return (Walk Away)”, magistral faixa embalada pelo teclado atmosférico do amigo de longa data do grupo, “Big” Ross Karpelman. O southern/stoner/sludge denso do grupo surge matador logo na abertura “Three Suns And One Star”; nos relatos da dura luta de Anselmo contra seus ex-vícios em “N.O.D.” e “Pillamyd”; nos relatos causados pelo pandemônio do Katrina em “On March The Saints” e “Beneath The Tides” e na lamuriosa “Mourn”, sobre o isolamento forçado que, mais uma vez ele, Anselmo, teve que viver na época do funeral já ex-parceiro de banda, Darrel.

Quase 20 anos depois de lançado, “Down III: Over The Under” (2007) ainda soa vigoroso graças as ótimas performances de todos, mas muito em especial aos vocais diversos de Anselmo, alternando momentos de força e emoção e da dupla Keenan e do rifferman Windstein, do muitas vezes subestimado Crowbar.

O relançamento, remasterizado por Eric Koondel (Soilwork, Malevolent Creation) chega ao Brasil numa versão bem-acabada, incluindo encarte gordo com todas as letras (menos da faixa bônus), através da parceria da Shinigami Records com a Nuclear Blast Records.

Ao dar o play, lembre-se: não quebre o juramento…toque no volume máximo!

Nota: 9

Integrantes:

  • Philip H. Anselmo (vocal e guitarra)
  • Pepper Keenan (guitarra)
  • Kirk Windstein (guitarra)
  • Jimmy Bower (bateria)
  • Rex Brown (baixo)
  • “Big” Ross Karpelman (teclado — convidado)

Faixas:

  • 01 Three Suns And One Star
  • 02 The Path
  • 03 N.O.D.
  • 04 I Scream
  • 05 On March The Saints
  • 06 Never Try
  • 07 Mourn
  • 08 Beneath The Tides
  • 09 His Majesty The Desert         
  • 10 Pillamyd
  • 11 In The Thrall Of It All
  • 12 Nothing In Return (Walk Away)
  • 13 Invest In Fear (bonus track)
Mineiro, ouvinte de todas as vertentes do rock - do blues ao grindcore. Valoriza mais a honestidade e entrega em cima do palco do que a técnica. Guarda os flyers dos shows que vai como se fossem relíquias. Autor dos livros "Distorções do Submundo: Dissecando álbuns matadores do underground brasileiro" vol. 1 (2024) e vol. 2 (2025), lançados pela Editora Denfire.
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