Resenha: Dødsfall – “Själssluk” (2026)

O músico Ishtar lidera e coordena as ideias do Dødsfall, banda norueguesa oriunda de Bergen, Vestland. Logo depois, a banda passou a residir entre Oslo / Gotemburgo, Västra Götaland, Suécia. Surgiu em 2009 e acaba de lançar o seu sétimo álbum de estúdio. Essa é mais uma one-man-band de Black Metal, mas que possui músicos de apoio em determinadas áreas.
Só para ilustrar o certame, Ishtar realiza três funções: vocal, guitarra e baixo. A bateria é gravada por um músico convidado. Para o lançamento do novo trabalho, foi chamado o baterista Felix Wahlund, tido pelo pseudônimo Fáunas (Eternal Evil, Nazghor, Northborn, Riket, ex-Beyond Chaos, ex-Hyperion). No entanto, Ishtar também toca bateria, inclusive realizando esta tarefa em seu álbum anterior, “När mörkret är på väg” (2022). Eu conheci a banda através do disco antecessor a este, o excelente “Døden skal ikke vente”, de 2019. Esse disco contou com a presença do baterista Telal. Assim, confirmando a forma de trabalho do multi-instrumentista mexicano.
Ishtar começou a tocar Black Metal profissionalmente em 1997. Ele reside em um subúrbio nos arredores de Gotemburgo, Suécia, desde 2013. Atualmente, possui dupla cidadania.
O novo disco intitulado “Själssluk”, foi lançado no dia 13 de março via Drakkar Productions. O álbum apresenta dez faixas, sendo todas elas cantadas em sueco. Is foi o responsável pela engenharia de som, gravação e masterização, enquanto Gragoth assina a ótima capa. Vale destacar que, assim que vi a capa de “Själssluk”, logo lembrei da capa de um dos discos do Suffocation, “Blood Oath” (2010). Agora, vamos aos principais destaques do True Black Metal do Dødsfall.
A abertura dos Portões de Svartalvheim
Logo na abertura do disco, após a breve intro “Svartalvheims portar”, temos um grande destaque chamado “Blodmåne” – música que atende aos mais tradicionais do estilo. A faixa apresenta em seu modelo principal toda a receita tradicional e contida nos anos 90. Riffs cortantes, constantes e bastante diretos permeiam a música. Entretanto, as mudanças de andamento se tornam presentes em pouco tempo, mostrando que não é algo simplório e vulgar.
O atrativo maior vem junto com o andamento de bateria mais cadenciado, fortalecendo a abertura da masmorra sonora para trazer linhas mais velozes, ríspidas e densas, padrões do subgênero. Em meio a isso, temos uma aproximação ao que chamam de Raw Black Metal, mas a sua forma habitual é simplesmente Black Metal. Os solos condizem com o momento em que são inseridos e os dedilhados afiados, idem.
A passagem da morte e o legado da alma negra
“Dödsfallets bortgång” também entra na lista de principais brilhos negros do disco, com sua imponência e seu charme bastante agressivo, além de trechos que flertam com o Death Metal, embora toda a sua estrutura e desenvoltura sejam em favor do Metal nefasto e coberto por trevas.
A intro da música começa solta e depois recebe a junção da parte instrumental, se tornando ainda mais maligna e intensa. Os pedais duplos contínuos contornam todo o lado sombrio da faixa. Os riffs, por sua vez, apresentam momentos de puro headbanging e uma agressividade ímpar. Sua cadência é precisa e bastante eficaz, abrindo caminho para momentos de ótimas variações sonoras. Palhetadas que trazem ritmos excelentes para a trama, além dos tradicionais tremolos e blast beats para intensificar ainda mais o cenário extremo. Verdadeiramente, é um dos grandes pontos do novo trabalho do Dødsfall. Os solos gélidos ampliam a frieza e a tensão da jornada.
“Svart själs arv” apresenta em sua fórmula notas de sustentação misturadas com sonoridades distorcidas e tensionadas, assim, resultando em um ritmo acelerado e com uma bateria consistente entre peso e velocidade. O Black Metal impiedoso é notado aos montes, mas também há espaço para o Black/Thrash, intensificando ainda mais o cenário. Riffs dissonantes constantes nos moldes do subgênero híbrido trazem mais força para algo já bastante catastrófico, positivamente falando. As palhetadas mudam o direcionamento e o comboio parte em direção ao esplendor profano.
Ouça a voz do mal te chamando
Um dedilhado entristecido dá inicio ao novo capítulo dentro do novo trabalho, sendo apoiado pelo pano de fundo bastante característico e voltado aos temas mais maléficos e sombrios. A junção se eleva quando os dedilhados desfilam maldade, conforme ganham terreno. Vocais mais limpos surgem como um padre controverso em uma missa negra. A parceria com vocais rasgados funciona muito bem e oferece uma liga ainda maior quando aparecem os solos de puro Metal.
A música entra em modo extremo e constante, dando liberdade para os versos serem vociferados de maneira aterrorizante. Outro ponto alto da música vem das baquetas, com o tilintar dos pratos e o andamento que remete a uma caminhada cada vez mais profunda em direção ao submundo.
“Ondskans röst” lembra em certos momentos algo de Mystic Circle, mas continua o seu percurso individual e deixa o disco ainda mais rico em se tratando de sonoridade de nível mais alto.
Após ter contato com a voz do mal, estamos diante do dia mais sombrio da história. Embora os compassos sejam voltados para o Black Metal, a forma de tocar acaba por lembrar o Torture Squad em momentos específicos. Mas, “Den mörkaste dagen” se concentra apenas no Metal negro, utilizando palhetadas rápidas e contínuas dentro das bases, tornando-as ensurdecedoras para os ortodoxos de plantão. Seu som se torna ainda mais impetuoso, conforme o seu andamento persiste e ganha mais terreno. A cadência é um ótimo recurso, quando bem utilizada, e aqui funciona de maneira condizente com o propósito. Vocal mais contido, praticamente simulando uma reza antiga, traz mais mistério à trama.
A apoteótica feira das sombras
“Skyggemesse” é a música escolhida para fechar o novo álbum e funciona muito bem nesse quesito. Entretanto, vale destacar que o seu nome me faz lembrar da famosa Jägermeister. Até o presente momento eu nunca experimentei o tal licor, mas sei de pessoas que adoram e outras que detestam, dividindo as opiniões populares sobre a bebida.
A ideia da intro maquiavélica prossegue, mas desta vez temos narração em forma de ritual sombrio. O tilintar profundo do piano forma a passagem final do disco, entre outras sonoridades baseadas nos ritos antigos. Sendo assim, posso colocar como uma pós-intro do disco.
Considerações devoradoras de almas finais
Ishtar conseguiu colocar o Dødsfall de volta ao primeiro plano dentre os grandes lançamentos do ano em específico. Ainda tenho o álbum anterior como o ápice dentre as suas obras. Porém, “Själssluk” é capaz de bater de frente com muitos lançamentos do mesmo ano e ainda por cima, tornando a discografia ainda mais coesa e poderosa.
O álbum contém várias e belas variações dentro de um mesmo estilo, tanto que foi destacado isso. E isso ocorre de forma bastante natural, sem aquelas mudanças bruscas ocorrendo meio que do “nada”, por assim dizer. Será bem bacana, se essa banda puder aparecer em algum fest por aqui ou até mesmo vindo realizar um show isolado. Poderia vir com alguma outra banda mais renomada, assim ampliando os seus laços por aqui.
Nota: 8,7
Integrantes:
- Ishtar (vocal, guitarra, baixo)
Músicos convidados:
- Fáunas (bateria)
- V-Rex (vocal – faixa 10)
Faixas:
- Svartalvheims portar
- Blodmåne
- Nattskugga
- Dödsfallets bortgång
- Mörkerfångad
- Svart själs arv
- Förbannelsen
- Ondskans röst
- Den mörkaste dagen
- Skyggemesse
