Resenha: Diatribes – “Degenerate” (2026)

É raro, mas existem algumas poucas bandas que, mesmo ao ouvirmos seu disco de estreia, nos causam aquela estranha sensação de familiaridade. É como se fossem velhos amigos, conhecidos de longa data. Assim, já na primeira audição completa de “Degenerate”, fiquei com a impressão de estar ouvindo o novo álbum de uma banda que acompanho há muito tempo. Talvez a explicação para esse fenômeno esteja na sonoridade voltada ao Thrash Metal e ao Death Metal, dois subgêneros que o Mundo Metal acompanha de perto. E sabemos que não basta apenas mesclar os estilos; é necessário fazer isso de forma orgânica, com competência, criatividade e talento. E, inegavelmente, tudo isso aparece de sobra no debut da banda paulistana Diatribes.

Se eu tivesse que definir o álbum em uma única palavra, certamente seria: inquietação. O disco orbita os universos do Thrash e do Death, mas não da maneira à qual estamos acostumados. Cada uma das composições apresenta transições rápidas e, em muitos momentos, várias delas acontecem dentro de uma mesma música. Para o amigo leitor entender melhor, é como se tivéssemos Slayer e Possessed, ou Exodus e Master, dentro de uma única faixa.

Essa inquietude passa pelo trabalho e pela mente do líder e guitarrista Gladyson Rivero, que, em determinadas faixas, apresenta uma coleção de riffs que fariam inveja aos grandes riffmakers do metal. Um exemplo disso está em “Three Down”, nas palavras do próprio Gladyson, “a faixa mais difícil de ser executada no tracklist”. Surpreendentemente, é possível contar ao menos dez riffs diferentes nessa música e, mesmo com toda essa complexidade, o álbum não soa progressivo nem autoindulgente. Tudo flui de maneira natural, e o ouvinte menos atento sequer perceberá o quão desafiadoras são essas execuções.

Photo: Jean Carlos Santiago (@insanefreakdrum)

Direcionamento sonoro e identidade

“Degenerate” foi lançado no último dia 20 de março e possui 13 faixas distribuídas em pouco mais de 42 minutos. Todas as músicas têm duração curta — entre 2 e 4 minutos —, com exceção de “Last Enemy”, a única que chega à casa dos 5 minutos. Segundo Gladyson, isso é 100% intencional e, na visão do guitarrista, “nesse estilo musical, se você não conseguir passar seu recado nesse curto espaço de tempo, dificilmente irá conseguir com uma minutagem mais alta”. Apesar de ser o líder e compositor de todas as músicas do álbum, o músico abre espaço para que os outros integrantes também tragam suas visões artísticas, principalmente no campo lírico. O guitarrista Marcelo Souza, o vocalista Danilo Luna e o ex-vocalista Martin Fabichak são alguns dos que contribuíram com letras e temas presentes no registro.

A audição de “Degenerate”, apesar das 13 faixas, é bastante fluida, e inclusive cada uma das composições apresenta vida própria. Não há espaço para concessões, tampouco para invencionices ou modernismos desconexos. A Diatribes possui um direcionamento específico e, apesar da criatividade abundante, o grupo respeita seu próprio DNA e não se aventura por terrenos inóspitos.

O álbum inicia de maneira climática e misteriosa com a intro “Death’s Echoes Chants”, mas explode em fúria com a excelente “The Witch”. Inicialmente, temos um Thrash Metal viril, que finalmente começa a apresentar elementos de Death Metal, como blast beats e riffs bastante característicos. A passagem mais cadenciada no meio da música traz um brilho sombrio que combina perfeitamente com a letra, que explora bruxaria e feitiçaria. É impossível não gritar junto os versos: “Reach us/ Bleed yourself/ Reach us”.

Photo: Jean Carlos Santiago (@insanefreakdrum)

Conflito interno e agressividade lírica

“Hostility Within”, o primeiro single, chega na sequência com ritmo intenso e uma letra que fala sobre enfrentar os próprios demônios. Muitas vezes, a hostilidade que mostramos ao mundo vem de conflitos internos gerados por fatores externos. Assim, a mente humana lida com temas como violência, abusos físicos e psicológicos, corrupção da sociedade e dificuldades cotidianas das mais diversas maneiras. “Hostility Within” é um retrato cru e fidedigno dessa guerra interior, mas apresenta uma mensagem positiva ao final, quando uma força de vontade arrebatadora nos conduz a caminhos de retidão e resolução.

“Não é fácil
Estou preso no domínio da minha mente
Entendo que essa escapada vive dentro de mim
Agora você percebe que essa violência
É apenas a forma como eu vejo

A sociedade
Essa miséria
Me desafiando

Eu sei que não posso ser ingrato
Pela sorte que tenho

Estou tentando fazer parte disso
Esconder o abismo”

O riff inicial de “My Own Hell” remete a “Eye Of The Beholder”, do Metallica, mas se apresenta com mais pujança e força. Obviamente, a faixa não envereda pelo mesmo formato dos norte-americanos e logo pisa no acelerador, despejando sobre nossas cabeças mais uma quantidade generosa de ótimos riffs, linhas e variações melódicas. Já “Masquerade”, um dos destaques da audição, inicia ao melhor estilo Slayer e, novamente, transmuta-se em um Thrash altamente vigoroso e cheio de energia.

Ao analisarmos o conjunto de mudanças rítmicas, o peso devastador e a velocidade frenética, é impossível não se lembrar dos holandeses do Legion Of The Damned, banda pouco comentada por aqui, mas que consegue encarnar essa mesma inquietação musical presente na complexidade evidente do trabalho dos brasileiros da Diatribes. Se pensarmos em outros nomes que poderiam servir de referência, ainda poderíamos mencionar Vader, Sadus, Demolition Hammer e, obviamente, os conterrâneos do Torture Squad, principalmente em álbuns como “Asylum Of Shadows”, “The Unholy Spell” e “Pandemonium”.

Photo: Jean Carlos Santiago (@insanefreakdrum)

Complexidade estrutural e construção musical

Mais ou menos na metade do track, “Lost Soul” aparece como uma vinheta ou, se preferir, como a calmaria que precede a tempestade. E a tempestade atende pelo nome de “Vicious Circle”, canção que, curiosamente, foi composta de uma maneira bem diferente das demais. Segundo relatos de Gladyson, ele experimentou uma nova forma de compor ao pedir ao baterista Niko Teixeira algumas linhas de bateria previamente elaboradas. A ideia foi trabalhar a música inteira a partir desses trechos rítmicos já existentes. A propósito, embora o baterista Rodrigo Biffi seja creditado no encarte, ele já não faz parte do lineup, e todas as execuções em estúdio ficaram a cargo de Niko Teixeira.

“Last Enemy” é a canção mais longa do tracklist, com cerca de 5min40seg, mas, mesmo assim, a Diatribes consegue intensificar suas principais características e nos presentear com trechos incríveis, principalmente no que diz respeito às guitarras. Na sequência, “Three Down” é aquela música que vai explodir sua mente e fazer você apertar várias vezes o botão de repeat. A quantidade de riffs, variações e mudanças rítmicas é algo assustador. Mas o mais impressionante é que a música soa matadora do início ao fim e entrega, acima de tudo, brutalidade e agressividade, aliadas a uma carga robusta de técnica e criatividade. O resultado obtido nessa faixa é incrível.

Para coroar, ainda temos uma temática assustadora. O chamado “crime do Castelinho da Rua Apa”, ocorrido em 1937, em São Paulo, envolve a misteriosa morte de uma mãe idosa e seus dois filhos dentro da própria casa, todos atingidos por tiros, em um caso nunca esclarecido. A versão oficial aponta que um dos irmãos matou a família após uma disputa por dinheiro e, em seguida, suicidou-se, mas inconsistências nas perícias — como indícios de outro atirador e diferentes calibres de bala — levantaram dúvidas e alimentaram hipóteses alternativas, incluindo a participação de uma quarta pessoa. Sem conclusão definitiva, o episódio ficou marcado como um dos crimes mais enigmáticos do país.

“Três corpos foram encontrados
Isso me parece estranho
Talvez o interesse no pote de ouro
Nesse ponto, ações irreversíveis
A ambição puxa o gatilho
E não há como voltar atrás
Três tiros foram ouvidos

Um crime sem solução
Sem solução!”

Photo: Jean Carlos Santiago (@insanefreakdrum)

Final impactante

Depois desse show à parte, a introdução “Swamp Spirits” abre a parte final do álbum, que ainda conta com três petardos do mais alto calibre: “Brutal Sarcasm”, com solos excepcionais e uma seção rítmica de fazer inveja; “Empire Of Hate”, outro grande destaque da audição, com um riff inicial matador, passagens de Death Metal que remetem a nomes como Morbid Angel e Malevolent Creation e, como não poderia deixar de ser, uma veia Thrash que surge em momentos cruciais para expor toda a ambição e ousadia do grupo; e, por fim, a canção-título “Degenerate”, uma verdadeira ode ao headbanging. Essa é a música em que você não vai conseguir manter o pescoço imóvel e, mesmo sem perceber, estará batendo cabeça.

O debut da Diatribes é daqueles discos que chegam com imposição e afirmação. É o tipo de trabalho que não pode nem deve ser ignorado, pois se trata de um disco de estreia fortíssimo e, desde já, candidato a figurar em listas de melhores do ano.

Mais uma vez, seremos repetitivos: o metal brasileiro, apesar de todas as dificuldades e problemas, passa por um momento de altíssima produtividade. Inúmeros discos têm despontado aos ouvidos mais atentos e nós, como brasileiros, precisamos apoiar e fomentar esse cenário em expansão. O Brasil tem potencial para ser um dos maiores exportadores de música pesada do mundo; só depende de nós transformar esse sonho em realidade.

Nota: 9,3

Integrantes:

  • Gladyson Rivero (guitarra)
  • Marcelo Souza (guitarra)
  • Danilo Luna (vocal)
  • Sergio Roma (baixo)
  • Rodrigo Biffi (bateria)*
  • Niko Teixeira (bateria)**

*apenas creditado
**baterista que gravou o disco

Faixas:

  • 01 Death’s Echo Chants
  • 02 The Witch
  • 03 Hostility Within
  • 04 My Own Hell
  • 05 Masquerade
  • 06 Lost Soul
  • 07 Vicious Circle
  • 08 Last Enemy
  • 09 Three Down
  • 10 Swamp Spirits
  • 11 Brutal Sarcasm
  • 12 Empire Of Hate
  • 13 Degenerate
Fabio Reis
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
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