Resenha: Deathgeist – “Underworld” (2026)

No início dos anos 2000, quando o Thrash Metal se reergueu após um período pouco inspirador na década anterior, o Brasil teve participação fundamental nessa retomada. Entre as bandas que despontaram naquele momento de redescoberta do gênero estava o Bywar. O grupo paulistano lançou quatro ótimos discos antes de encerrar suas atividades em 2013, encerramento que, curiosamente, deu origem a três novas bandas.
Da última formação responsável pelo excelente “Abduction” (2011), o baixista Hélio Patrizzi e o baterista Enrico Ozio seguiram com o Warbound; o guitarrista Renan Roveran passou a integrar o Warshipper; enquanto o vocalista e guitarrista Adriano Perfetto recrutou o guitarrista Victor Regep (também ex-Bywar) e, ao lado do baixista Maurício Bertoni, fundou o Deathgeist. Vale destacar essa árvore genealógica, pois o fim precoce do Bywar acabou gerando nada menos do que três bandas extremamente relevantes para o cenário nacional.
Ativo desde 2017, o Deathgeist demonstra constância e, acima de tudo, consistência. Já são quatro álbuns lançados, incluindo o mais recente “Underworld”, disponibilizado de forma independente no dia 9 de janeiro. A formação atual preserva o trio fundador — Adriano, Victor e Maurício — com a adição do baterista Fernando Oster (Woslom), que ingressou na banda em 2019.

Uma proposta diferente
Musicalmente, este trabalho representa o momento mais maduro e ousado do quarteto. Se em “Deathgeist” (2017) e “666” (2019) a proposta girava em torno de um Thrash Metal direto e eficiente, foi em “Procession Of Souls” (2022) que surgiram mudanças sutis, sobretudo nas melodias de guitarra. Em “Underworld”, no entanto, a transformação se mostra bem mais evidente. Ao longo de seus 44 minutos, o álbum apresenta diversas faixas alinhadas aos cânones do Heavy Metal Tradicional, ampliando significativamente o espectro sonoro da banda.
O resultado merece elogios. Mesmo nos momentos mais agressivos, surgem riffs, linhas vocais e estruturas típicas do Heavy Metal perfeitamente integradas à identidade do grupo. A fusão soa natural, sem causar estranhamento, a ponto de não ser exagero afirmar que o Deathgeist consolidou, aqui, um DNA musical próprio.
O álbum se inicia com a faixa-título “Underworld”, a mais longa do tracklist, com pouco mais de seis minutos. A introdução traz uma marcante melodia oriental que remete ao Egito Antigo, referência que se confirma ao observarmos a letra.
A canção acompanha Osíris, senhor do submundo — frequentemente associado à vida após a morte. Trata-se de uma das principais divindades da mitologia egípcia, também conhecido como juiz dos mortos e deus do renascimento. Musicalmente, a faixa se constrói sobre uma sequência de riffs inspirados criados pela dupla Victor Regep e Adriano Perfetto, enquanto os backing vocals enriquecem ainda mais o resultado final.
Variedade musical e lírica
Em “Mind Games”, o grupo entrega uma canção essencialmente calcada no Heavy Metal, recheada de melodias cativantes, refrão pegajoso e linhas vocais bem trabalhadas. Já “Destination: Dust” introduz variação rítmica à audição e aposta em um Speed Metal veloz, energético, assim como carregado de personalidade. A temática se mostra especialmente interessante, pois permite múltiplas interpretações. Em essência, a letra aborda a finitude da vida e a dificuldade humana de encarar uma realidade inevitável.
“Olhando para a imensidão e sentindo-se único
A arrogância humana, uma loucura interior
Como um ser tão frágil se sente todo-poderoso?
Apenas um pedaço de carne, ossos e pele”
Ao longo da canção, Adriano ainda menciona a fé e as crenças religiosas que prometem paraísos eternos, recompensas, bem como uma continuidade ilusória. Somos constantemente levados a nos sentir especiais, mas o Deathgeist entrega o veredito sem rodeios: “Arrume suas malas, você está se aproximando do seu destino: pó.”
O núcleo do álbum reúne três faixas tão interessantes quanto distintas: “The Kraken’s Wrath”, “UFO Inc.” e a surpreendente “Last Memories”. A primeira figura entre as composições mais elaboradas do disco e narra a jornada de heróis que enfrentam o temível Kraken nas profundezas do oceano. Em seguida, “UFO Inc.” critica a banalização da ufologia, a manipulação da informação e, como a própria música sentencia, “a verdade se perde em um mar de hype”. Trata-se de uma das faixas mais criativas do álbum, além de destacar a precisão da cozinha formada por Maurício Bertoni (baixo) e Fernando Oster (bateria). Por sua vez, “Last Memories” surge como a calmaria antes da tempestade: uma canção contida, construída sobre belíssimos dedilhados e linhas melódicas, funcionando como transição perfeita rumo ao clímax do disco.

O melhor momento criativo da banda
“When Darkness Falls” chega rápida e visceral, abrindo com um riff avassalador. A faixa figura entre as melhores do álbum e novamente evidencia o excelente trabalho de guitarras. Liricamente, a música bebe diretamente da obra de Edgar Allan Poe, mais especificamente do conto “The Masque Of The Red Death” (A Máscara da Morte Rubra). Em seguida, “Into The Darkwood” inicia de forma cadenciada e apresenta mais um Heavy Metal de forte atmosfera oitentista, com um DNA tão sólido que aponta claramente para os próximos passos da banda.
Encerrando o álbum, “Skinwalkers” — minha faixa favorita, diga-se de passagem. Convenhamos: uma música que narra a história dos Yee Naaldlooshii — bruxos malignos da cultura Navajo, capazes de se transformar, possuir ou se disfarçar de animais segundo o folclore — dificilmente poderia ser menos do que épica. O encerramento entrega o melhor refrão do disco, além de passagens instrumentais realmente impactantes.
“Nas sombras, eles espreitam e se escondem,
Com olhos que brilham como a maré noturna.
Eles se transformam, mudam de forma e caçam suas presas,
Deixando terror por onde passam, dia após dia.”
“Underworld” surge em um momento certamente crucial para o Metal nacional, quando a cena carece de nomes capazes de atrair a atenção do público. Com a trajetória do Sepultura se aproximando do fim ainda este ano e o Angra — há algum tempo — mais morto do que vivo (ouvi um amém?), a responsabilidade recai inevitavelmente sobre o underground. A boa notícia é que 2025 foi um excelente ano em termos de lançamentos, e 2026 já chega demonstrando força.
Prestes a completar dez anos de estrada, o Deathgeist construiu uma discografia sólida, composta por quatro obras de grande valor. A banda vive seu melhor momento criativo e tudo indica que ainda nos brindará com muitos trabalhos do mesmo nível deste excelente “Underworld”.
Nota: 9
Integrantes
- Maurício Bertoni (baixo)
- Victor Regep (guitarra)
- Adriano Perfetto (guitarra e vocal)
- Fernando Oster (bateria)
Faixas
- Underworld
- Mind Games
- Destination: Dust
- The Kraken’s Wrath
- U.F.O Inc.
- Last Memories
- When Darkness Falls
- Into The Darkwood
- Skinwalkers