Resenha: Corvo – “Pátria Abandonada” (2026)

Diretamente de Parnaíba, no Piauí, o Corvo retorna quatro anos após o lançamento de seu disco de estreia — “Calamidade” (2022) — para expor, mais uma vez, as mazelas de um país que, ano após ano, insiste em não resolver os principais problemas de sua população. “Pátria Abandonada” é um verdadeiro tapa na cara, tanto no aspecto lírico quanto no musical. Trata-se de um álbum que entretém com riffs marcantes, agressividade e, sobretudo, peso, mas que também convida o ouvinte à reflexão sobre questões urgentes que assolam o Brasil.

As gravações ocorreram no Estúdio Perfil, com mixagem e masterização muito competentes de Martin Pent. Em comparação ao trabalho anterior, “Pátria Abandonada” apresenta uma evolução evidente nesse aspecto, revelando uma banda mais madura, assim como disposta a explorar novos limites, sem abrir mão de sua identidade. A arte de capa, novamente assinada pela Inkcreations, mostra-se ainda mais acertada desta vez.

Photo: @pedroo_sousaa_

Peso e identidade sonora

Logo nos primeiros momentos, a parede sonora avassaladora do Corvo impressiona — especialmente ao considerarmos que se trata de um trio. João Carvalho, responsável pelos vocais e pelo baixo, demonstra ótima dicção e entrega uma interpretação intensa, transmitindo com precisão o sentimento de revolta presente nas composições. O guitarrista Romeu Alencar aposta em riffs simples, porém extremamente eficazes; quando parte para os solos, evita excessos técnicos desnecessários, priorizando construções melódicas bem elaboradas, nota a nota. Já Fábio Nasc se destaca como um baterista sólido, tecnicamente consistente e peça fundamental para que o grupo soe como uma verdadeira força da natureza.

Lançado em 7 de fevereiro, “Pátria Abandonada” apresenta sete faixas distribuídas em pouco mais de 33 minutos. Esse formato mais enxuto, adotado por diversas bandas atualmente, funciona muito bem aqui. O resultado é um álbum direto e sem excessos, que certamente agradará aos fãs de Thrash Metal e Groove Metal, levando muitos a apertarem o botão de “repeat” ao final da audição.

“Ouro Negro” abre o disco de forma impactante e traz um dos refrões mais marcantes do trabalho — impossível não acompanhar os versos: “Garimpar o ouro negro / Barganhar vidas alheias”. A faixa aborda a grave situação dos povos indígenas Yanomami, uma das maiores populações indígenas da América do Sul, que vivem na região de fronteira entre Brasil e Venezuela. Com uma população estimada entre 30 e 40 mil pessoas, enfrentam uma crise humanitária severa, agravada pelo garimpo ilegal.

“A terra-mãe pagando o preço
Vendo seus filhos sumir
Vendo a ganância agir
Exploradas pra destruir”

Photo: @pedroo_sousaa_

Crítica social e memória histórica

Na sequência, “Salário Mísero” mantém o peso e aprofunda a crítica social ao retratar a precariedade enfrentada pelo trabalhador brasileiro. Em vez de dignificar, o trabalho, muitas vezes próximo à exploração, deixa marcas profundas. A música se desenvolve a partir de um riff direto, incorpora trechos de telejornais e alterna entre momentos cadenciados e explosões de velocidade. Destacam-se versos como: “Vida de burguês / sonho inalcançável / a mão de obra é indispensável / sem tempo pra se distrair / tragando formas de se destruir”.

Em “Tortura”, Corvo revisita a história de Maria Amélia de Almeida Teles, conhecida como Amelinha. Jornalista, escritora e ativista dos direitos humanos, ela se tornou um símbolo de luta contra a ditadura militar brasileira. Em 1972, Amelinha, seu companheiro César Teles e outros militantes foram presos pela Operação Bandeirante (OBAN), sendo submetidos a torturas sob o comando do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. A faixa é visceral e apresenta um refrão marcante, de fácil assimilação.

Tragédias que ecoam

Na sequência, 2 músicas abordam tragédias recentes e profundamente marcantes. “Rio de Rejeitos” trata do rompimento das barragens em Mariana (2015) e Brumadinho (2019), ambas envolvendo a mineradora Vale (em MG). Já “Santa Maria” relembra o incêndio na boate Kiss, ocorrido em 2013, no Rio Grande do Sul.

Musicalmente, “Rio de Rejeitos” se destaca pela objetividade, trazendo um excelente solo de Romeu Alencar e mais um refrão memorável. “Santa Maria”, por sua vez, é um dos pontos altos do álbum, com andamento cadenciado e atmosfera densa. As linhas de bateria de Fábio Nasc se sobressaem, enquanto a interpretação de João Carvalho denuncia a morosidade e a impunidade do sistema judiciário brasileiro.

“A tirania de toga
E a impunidade que assola
O tempo parece parar
Memórias insistem em ficar
Crianças deitadas às margens
Teatro de leis e covardes
Erros somados aos corpos
Falhas que saltam aos olhos”

Photo: @allessandramota

Na reta final, “Mirabaió” surge com intensidade máxima, combinando variações vocais, riffs marcantes e uma temática inegavelmente incômoda. A faixa denuncia a exploração sexual infantil, um problema que exige visibilidade e enfrentamento:

“E aos que traficam inocência
E aos que compram atrocidades
Marcados pela eternidade
Vagam com fardo na consciência”

O encerramento fica por conta de “Inferno Azul”, um Thrash Metal cortante que retrata o acidente com o Césio-137, ocorrido em Goiânia, em 1987 — considerado o maior desastre radioativo fora de instalações nucleares. Classificado como nível 5 pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o caso ainda gera consequências graves: embora o número oficial de mortes seja de cerca de 60, associações de vítimas apontam que mais de 1.600 pessoas sofrem com doenças relacionadas à radiação.

Mais do que um simples álbum de Thrash Metal/Groove Metal, “Pátria Abandonada” se consolida como um manifesto cru e honesto sobre um país que continua acumulando tragédias e negligência. As composições seguem uma proposta direta, sem recorrer a modismos desnecessários, assim como apresentam estruturas criativas que mantêm o interesse do início ao fim.

Fãs de bandas como Exhorder, Lamb of God, Pantera, Claustrofobia, Sepultura (fase “Chaos A.D.”), Oitão e Eminence encontrarão em “Pátria Abandonada” uma audição indispensável.

Nota: 9

Integrantes

  • Fábio Nasc (bateria)
  • João Carvalho (vocal e baixo)
  • Romeu Alencar (guitarra)

Faixas

  1. Ouro Negro
  2. Salário Mísero
  3. Tortura
  4. Rio de Rejeitos
  5. Santa Maria
  6. Mirabaió
  7. Inferno Azul
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
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