Resenha: Campa – “Architecture of Decay” (2026)

“Architecture of Decay” é a mais nova joia encontrada pelos arqueólogos e escavadores do Mundo Metal. O dono dessa bela obra é o Campa, banda alemã de Thrash Metal que pratica uma sonoridade que remete aos bons tempos do subgênero. Não é o tipo de banda engessada, que apenas faz um arroz com feijão tradicional e sem se arriscar tanto. Trata-se de um conglomerado entusiasta do passado, mas com o pensamento para a frente. Ou seja, é um exército musical com conceito de misturar ótimas receitas e promover tudo ao seu modo, sem fixar o seu nome como sombra de tudo o que já foi feito.

Esse tipo de Thrash Metal, que varia mas não se enfeita a ponto de sair do lugar, é o tipo de som que o ouvinte irá gostar, se apreciar várias surpresas dentro de uma mesma obra. Ao analisar as músicas, fica perceptível a ideia dos representantes de Berlim em construir uma sonoridade livre e com identidade própria, mas sempre mantendo a espinha dorsal calcada nos anos 80.

Pense no que Angelus Apatrida, Havok, Warbringer, Suicidal Angels e tantas outras bandas da nova safra do Thrash têm buscado e feito. São grupos com tonalidades específicas e que honram o manto do estilo arruaceiro e devastador de paredes e vidraças. Como é um disco que não mede esforços para mostrar a que veio, iremos direto ao ponto. Então, aperte os cintos e vamos nessa!

Campa – grata surpresa germânica com armamento tradicional e moderno

Creio que a palavra moderno possa assustar a quem lê, porém isso não fica preso somente ao som. Porém, não há como não citar algo que pertence aos tempos atuais. Falo da questão da produção, do modo de composição, além também do modo como estão inseridas as músicas. O disco conversa com o passado e com o presente de forma igual, sem que haja qualquer desvio de caráter sonoro. É Thrash Metal para quem gosta de Thrash Metal, simples assim. Você poderá achar o disco bom, ótimo ou até maravilhoso. No entanto, jamais poderá dizer que esse trabalho foi mal feito.

Para acabar com qualquer dúvida, a faixa de abertura chamada “I See Red” te faz enxergar realmente tudo em vermelho diante do ódio musical proposto pelo Campa. As primeiras notas já dizem isso e você percebe o belo rangido das guitarras permeando o baixo denso e eficaz. O som vai tomando forma até que a cavalaria ataca através das alavancas no momento certo.

O timbre dos vocais se mostra bastante satisfatório, enquanto o ritmo sofre mudanças bruscas e especiais de andamento. Podemos notar uma junção de Kreator e Exodus, com dedilhados que lembram o Megadeth. Esse balanço que a sonoridade causa é bem a cara do Dave Mustaine. Contudo, o som não para e mais surpresas acontecem, com riffs bem inseridos durante os solos precisos. E diante de toda essa engenharia inteligente, temos uma bateria bastante técnica, com pedais que fazem o prédio trepidar, além das variações em questão de velocidade e peso.

Divulgação / Campa

Técnica paranoica

“Paranoid Episode” chega para igualar o estrago feito por sua antecessora. Nesse caso, ela trata de impor pedais contínuos com contratempos providenciais e viradas categoricamente insanas. O desfiladeiro sonoro acontece após o tradicional riff de chamado para a valsa. Nesse momento, o episódio se torna tão paranoico que você só pensa em continuar na dança.

Há um intervalo na parte central da música, mas não aquela parada em que a música simplesmente fica em silêncio. Essa parada é o momento em que entra o vocal mais falado enquanto a bateria acompanha com velocidade moderada. Dessa forma, abre caminho para várias partes de solos muito bem encaixados na trama. Entretanto, a música ainda consegue se transformar e apresentar mais camadas e mais solos, fazendo do final uma sequência bastante veloz e bem colocada.

Polarização egoísta

Ao ouvir “Egomania” pela primeira vez, eu disse exatamente isso:

“Nossa! ‘Egomania’ é Slayer do ‘South of Heaven’ total, com uma pitada providencial de Kreator e vocal com uma colher de chá de James “contra showmício” Hetfield. Essa frase deverá constar na resenha.”

De fato, ela está aqui para justificar a grandeza dessa música. Vale mencionar que ninguém aqui está querendo reinventar a roda, muito menos inserir misturas que não são comuns. São apenas jovens fazendo música boa e somente isso é o que importa. A música segue um fluxo, combinando forças com a sua temática voltada para os dias atuais. Uma sociedade dividida e que apenas olha para sua própria bolha ao buscar “verdades” sobre esse mundo injusto e caótico. Contudo, não se dão conta de que estão ajudando a provocar todo esse tumulto. A mentira vale mais que a verdade e as palavras valem mais do que as ações. Não existe um meio termo e muito menos algo diferente que vá contra os dois polos.

A revolta encarnada em música

Após a primeira trinca de ases, temos “Fueled by Hate” e seu andamento bastante áspero e explosivo. Quando todos executam participação fundamental em uma intro muito bem trabalhada, ocorre o impacto imediato após o riff de chamado para o ataque. O avanço trepidante arranca os tacos do chão da sala e quebra os vidros de todas as janelas, mediante o balanço da área percussiva. Os vocais ásperos se espalham por cada cômodo, causando rachaduras nas paredes, culminando em uma estrutura sem reboco.

Dedilhados incessantes aliam as tensões e abrem caminho para solos vertiginosos e extremamente técnicos. As bases ajudam essa estrutura se sobressair, enquanto o ímpeto da cavalaria avança até encontrar uma saída através de blast beats intensos – a soma das estruturas resulta em um esplendor sonoro. A faixa em questão é verdadeiramente impulsionada pelo ódio, fazendo jus à sua nomenclatura.

Elementos cruciais que definem o caminho das composições

A dominação auditiva se mantém por meio de “U8 Life”. Dedilhados fervilhantes trazem um arrasto bruto e denso, que se aliam às passagens de tons da bateria. A próxima curva mostra uma banda agressiva e longe do linear. O refrão possui uma camada especial e diferenciada, dando ênfase a si mesmo e, consequentemente, aos ritmos sequenciais. No entanto, o seu impacto não tem o mesmo resultado destrutivo ao comparar com as músicas anteriores. Partes faladas em meio à melodias que remetem ao Metallica, além dos próprios solos, soam como uma espécie de respiro. O entendimento disso parte do ponto seguinte, com riffs mais afiados e a adição de mais solos, dessa vez sem as partes tão vagarosas.

“Architecture of Decay” chega para representar o título do álbum e tornar a arquitetura da queda um verdadeiro estudo de caso positivo, por assim dizer. Melodias de tensões médias são postas à mesa para que a junção do projeto esteja totalmente alinhada. A faixa-título instrumental serve como um interlúdio entre o que já ouvimos para os próximos e derradeiros capítulos.

“Hell” possui um nome simples e direto, além do seu próprio direcionamento. Já abastecida pela faixa instrumental anterior, esta música chega com o apetite de um rinoceronte desgarrado. Podemos dizer que o espírito do Destruction dos anos 2000 tenha entrado em evidência, mas com a cara do Campa. A estrutura rompe barreiras e o inferno sonoro ganha em densidade. Vocais limpos, dando a ideia de um Mille Petrozza em seus momentos vocais sem drive, ditam o ritmo a favor dos solos hipnóticos. Considero, portanto, os melhores solos do disco – a música não é a melhor, mas está entre os grandes momentos da obra. Diante disso, ainda temos tempo para novos solos — dessa vez ainda mais agitados — e riffs cortantes e destemidos.

Trinca final personalizada

“Apocalypse” não encerra o disco, mas provoca uma preparação interessante para o desfecho final. Conforme os primeiros versos mencionam, o apocalipse sonoro começa agora. Riffs se desencadeiam como erupção de lava, onde a trepidação e o rastro constante das palhetadas revigorantes acompanham o andamento de forma bastante alinhada. A estrutura firme oferece mudanças de direção dentro de uma mesma ideia, incluindo um pano de fundo sombrio e misterioso. Esse contorno é importante, pois oferece uma inserção maior de ódio entre os fraseados de guitarra e baixo. A bateria promove uma avalanche sonora diante de uma locomotiva ativa e repleta de toras de madeira para queimar. Os solos provocam rachaduras nos céus, enquanto ouvimos o impacto das bolas de fogo ao chocar contra o solo. Seu fim é marcado pela viagem constante da locomotiva apocalíptica.

Sobre a faixa “Destruction of a Person”, meu querido irmão de boa “múzga” e de copo, Giovanne Vaz, fez o seguinte comentário:

“Eu achei esse som uma mistura de ‘Postmortem’ (Slayer – ‘Reign in Blood’, de 1986) com ‘Holier Than Thou’ (Metallica – ‘Metallica’, de 1991), junto com o Destruction pós-2000 – viagem da porra.”

É bem isso mesmo, pois o Campa mescla bem o passado com coisas mais atuais dentro do estilo. Podemos observar tais nuances a partir das primeiras melodias derretidas como vela acesa. O alicerce formado por bateria e baixo soa de maneira providencial para que as guitarras inflamem e explodam em notas diferenciadas, tanto às partes melódicas, quanto ao peso e o rasgo mental causado pelas acelerações. Diante de todo esse molho, os solos surgem como a lava que foi expelida e condensa tudo em uma coisa só: Thrash Metal técnico, visceral e audacioso.

A aplicação de um final nada feliz

“Self-Inflicted” fecha a conta e passa a régua, finalizando naquele formato formidável e, por consequência, soando muito eficiente e eficaz. As vibrações tiradas do violão possuem uma tensão específica e ligada ao plano final da obra. O clima fica ainda mais evidente após os instrumentos principais darem as caras.

O ritmo avança em comunhão com a desgraça, o estrago e a devastação sonora. E se você pede por mais violência musical, o Campa entrega para você com tranquilidade e muito ódio depositado nos versos e nas emendas do som. Blast beats ajudam a tornar o vento forte em um verdadeiro furacão de emoções. Mesmo nas passagens virtuosas, a banda não alivia e parte para o ataque, despejando riffs agressivos sem pensar em dosar nada. As linhas fritadas de guitarra, por sua vez, cumprem o seu papel do mesmo modo que em outras oportunidades no disco. Na sequência, o ritmo mantém uma movimentação forte e os vocais despejam aquele tempero necessário para o fechamento do álbum.

Curiosidades, conclusões e informações adicionais

As letras compostas pelo quinteto falam sobre muitas situações em que vivemos atualmente. São avisos sobre o fim avisos sobre o fim da raça humana diante do controle exercido pelas máquinas. A metáfora dos zumbis se enquadra perfeitamente na trama real a qual estamos inseridos. Afinal, a tecnologia propõe o vício e o controle completo das massas, isso sem contar a substituição da mão de obra humana por máquinas de última geração.

Isso não quer dizer que cem por cento de tudo isso acontece. São variáveis que acabam pesando em demasia para o mesmo lado, que é o do ser humano. Dentre outros temas, temos um dos mais graves e atuais: a polarização da população. Essa é, sem sobra de dúvida, a mais intensa e crescente ameaça dos últimos anos. Contudo, ainda há chance de melhoria no que diz respeito a isso. Existe um número crescente de céticos quanto a essas escolhas forçadas em que uns obrigam os outros a optar pelo mesmo caminho, a mesma conduta irracional, o mesmo produto, enfim. Diante disso, digo a ti que o Campa realmente estreia com o pé na porta, fazendo ecoar cada música do ótimo “Architecture of Decay”.

Além de tudo que foi dito, a produção, gravação, mixagem e masterização ficaram a cargo de Tom Exa, enquanto a arte de capa foi assinada por Alvar Costache.

O Campa também lançará uma edição limitada em vinil do trabalho, com apenas 200 cópias divididas entre as versões preta e vermelha transparente.

Paralelamente, o novo panzer alemão prepara um show especial de lançamento em Berlim no dia 30 de outubro, no Badehaus, para celebrar oficialmente a chegada do seu primeiro trabalho de estúdio. Portanto, ouça sem moderação!

“Preto e branco, nunca cinza
Este mundo nunca mais será o mesmo
Novos dogmas a cada dia
Cascas moles por toda parte

Sociedade alheia, humanidade despreparada
Palavras valem mais que ações
Segregação moral

Polarização da sociedade baseada em seus pensamentos
Liberdade de expressão é coisa do passado
Você está por conta própria

Esquizofrenia global, pandemia delirante
Crucificação de pensadores livres
Caminhada da vergonha até queimar as bruxas”

Nota: 8,8

Integrantes:

  • Lukas (baixo)
  • Marian (guitarra)
  • Dome (guitarra)
  • Buddha (vocal)
  • Zaske (bateria)

Faixas:

  1. I See Red
  2. Paranoid Episode
  3. Egomania
  4. Fueled by Hate
  5. U8 Life
  6. Architecture of Decay
  7. Hell
  8. Apocalypse
  9. Destruction of a Person
  10. Self-Inflicted
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