Resenha: Boys From Heaven — “The Wanderer” (2026)

Se você viveu intensamente os anos oitenta, então, assim como eu, deve ser um daqueles saudosistas de plantão que, apesar de viver e curtir as décadas seguintes, ainda olha para trás com certa vontade de estar lá. Às vezes, mesmo sem querer, fazemos as temidas comparações, e elas aparecem nos livros, filmes e, evidentemente, na música.
Mas, afinal, o que isso tem a ver com esta resenha? Ok, vamos explicar.
Posso dizer, sem medo de errar, que tem muito a ver. Afinal de contas, a Dinamarca nos apresenta o Boys From Heaven, grupo cuja sonoridade e melodias nos teletransportam exatamente para esse passado não tão distante.
Apesar de suas raízes fincadas no Hard Rock, o grupo faz parte daquela lista de irrotuláveis. Afinal de contas, não é todo dia que ouvimos uma banda cujas referências e influências nos levam ao encontro de nomes como Toto, Starship, The Cars, Glenn Frey, Quarterflash, REO Speedwagon, Kenny Loggins, Hall & Oates, INXS, Fleetwood Mac, Journey, Glass Tiger, Survivor, entre outros.
Conhecendo a banda
Novo na cena, o grupo foi formado em 2017, em Copenhague, Dinamarca, e atualmente conta com Mads Schaumann (guitarras), Jonas Klintström Larsen (saxofone), Mads Noyé (teclados), Lucas Szczyrbak (baixo), Søren Viig Mathiesen (bateria), além do excelente Chris Catton nos vocais.
Recentemente, em maio deste ano, lançaram “The Wanderer”, terceiro disco de inéditas, através da gravadora Frontiers Records.
Contendo dez faixas divididas em 42 minutos de duração, o disco segue exatamente a mesma fórmula de seus antecessores, mostrando uma banda que mergulha de cabeça em estilos como Pop, Rock, Soft Rock, Hard Rock, AOR, Westcoast Rock, R&B, Soul Music, entre outros.
O início
Os primeiros passos aconteceram em outubro de 2020, quando “The Great Discovery”, excelente álbum de estreia, chegou às lojas. Três anos depois, foi a vez de “The Descedant”, segundo registro de inéditas, editado em junho de 2023.
Foram discos bem recebidos, mostrando que o Boys From Heaven é aquela banda diferenciada, nostálgica, com sonoridade ultra agradável, músicos alinhados com seus instrumentos e, claro, um vocalista que faz a diferença.
Chris Catton é excepcional! O cara tem um domínio incrível da voz, que lhe permite passear por várias vertentes e gêneros musicais, lembrando grandes vozes da música mundial. Entre alguns exemplos estão Stevie Wonder, Terence Trent D’Arby, Roland Gift (Fine Young Cannibals), Lionel Richie, Michael McDonald, entre outros.
Para entender melhor seus vocais, ouça “Convictions” e “Old Days”, faixas presentes no álbum de estreia dos caras.
O disco
Produzido por Chris Catton, com mixagem e masterização de Erik Mårtensson (Eclipse, W.E.T.), o disco mantém a fórmula e a essência dos trabalhos anteriores, destacando, além das canções bem elaboradas, passagens de Jazz, Funk e Soul. Tudo isso graças ao trabalho magnífico do saxofonista Jonas Klintström Larsen, que coloca definitivamente a cereja em cima do bolo.
Musicalmente, “The Wanderer” é aquele trabalho repleto de características que cairiam perfeitamente naqueles filmes de aventura exibidos na Sessão da Tarde, em comédias românticas ou naqueles romances água com açúcar estrelados por Julia Roberts e Sandra Bullock.
Em algumas críticas, foi dito que sua música se encaixaria perfeitamente em séries como Miami Vice — e eu concordo.
Letras
As letras abordam temas que vão de amor e saudade a promessas, superação e outros sentimentos, levando o ouvinte a uma atmosfera pessoal e reflexiva. Tudo isso com muito bom gosto e melodias que agradam de imediato.
Arte da capa
Mais uma vez, a banda contou com a competência brilhante de Mario López, artista guatemalteco que também ilustrou os trabalhos anteriores.
Aqui, ele dá continuidade à temática Sci-Fi retrofuturista adotada pela banda, e suas capas nos remetem a Rodney Matthews, conhecido por estampar discos dos ingleses do Magnum.
Mergulhando nas melodias de “The Wanderer”
O álbum abre com “I’ll Wait”, com suas linhas excepcionais de teclados voltadas ao AOR, ótima melodia e, claro, aquele refrão feito para cantar junto.
Trazendo consigo aquela pompa de super-hit, “Hotline” é uma daquelas canções que despertam interesse não apenas por conter uma melodia grudenta e vocais excepcionais, mas principalmente por extrair do saxofone de Jonas Klintström melodias que nos remetem a temas como “Your Latest Trick” (Dire Straits), “Love Theme” (Vangelis), “Harden My Heart” (Quarterflash), “Paradise Is Here” (Tina Turner), “Waiting for a Star to Fall” (Boy Meets Girl) e “Too Late Marlene” (Duran Duran), além de trilhas sonoras como “The Heat Is On” (Glenn Frey), presente no longa Um Tira da Pesada, e “Love Theme”, tema do clássico Blade Runner.
Aliás, Jonas e seu saxofone são peças fundamentais dentro da banda, desempenhando um papel muito importante e diferenciado quando comparados ao que encontramos nos grupos atuais.
Vale lembrar que “I’ll Wait” e “Hotline” se tornaram singles e ganharam seus respectivos videoclipes.
Mais um single! Desta vez, a escolhida foi “Hold Your Heart”, outro belo momento do disco. Mais uma vez, destaque para Jonas Klintström e seu saxofone, que aparece na música como uma das peças principais, e não apenas como mero coadjuvante.
A propósito, a ideia de incluir um instrumento não convencional em sua música foi, sem sombra de dúvidas, algo genial e sagaz.
Destaques espalhados pelo tracklist
“Street Life” é aquela canção poderosa que transita entre o Pop e o Rock, na qual os destaques estão espalhados por todos os cantos. Além dos vocais, temos backing vocals precisos, guitarras se destacando, linhas de contrabaixo excepcionais e teclados muito bem encaixados, responsáveis por aquele toque agradável e sutil que enriquece toda a estrutura musical apresentada.
Um passeio entre a Soul Music e o R&B, principalmente nos backing vocals, “Say Goodbye” é aquele momento cheio de swing e balanço. Apesar das referências destacadas, a faixa não compromete nem se perde dentro do disco. Ao contrário: é mais um momento agradável oferecido pelo grupo.
“How Long” é outro dos singles que antecederam a chegada de “The Wanderer” e mais um belo momento, com destaques para a dupla Mads Schaumann (guitarras) e Lucas Szczyrbak (baixo).
Traçando um paralelo musical, é possível encontrar, em seu início, referências a “Easy Lover”, gravada por Phil Collins e Philip Bailey.
O trabalho mais maduro da discografia
Mantendo a qualidade musical intacta, “Eileen” é a bola da vez, com vocais marcantes, nos quais Chris Catton usa e abusa de sua bela voz, emanando belos falsetes. Temos ainda backing vocals bem encaixados, além da cozinha formada por baixo e bateria, acompanhada por teclados e saxofone, que literalmente ditam as regras por aqui.
Em seu momento AOR, o disco nos oferece a excelente “I Will Never Let You Down”, uma das melhores faixas do trabalho ao lado de “Hotline”, destacando os trabalhos perfeitos de baixo e teclados. Se eu tivesse que apostar no próximo single da banda, sem dúvida nenhuma esta seria minha escolha.
Traçando mais um paralelo, temos aqui um refrão que traz, por alguns segundos, melodias parecidas com “Lift”, dos finlandeses do Poets Of The Fall.
“Time Is on Our Side” é aquele momento mais Soft Rock, destacando as guitarras que casam perfeitamente com os vocais brilhantes de Chris Catton.
O encerramento fica com “Till the Bitter End”, belíssima balada e mais uma que entra na lista das “melhores”, fechando em alto nível o trabalho mais maduro da banda e destacando, além dos vocais, as linhas de guitarras e violões elétricos muito bem executadas.
Refletindo sobre o estilo
Mantendo-se em alta, o Hard Rock mudou desde seu surgimento e estouro nos anos 80. Porém, o “novo hard” já não é mais apenas sobre caras e bocas.
O estilo amadureceu, mudou suas letras e os novos nomes que levantam sua bandeira têm mostrado que aquele radicalismo estampado principalmente nas vestimentas espalhafatosas de algumas bandas, maquiagens, cabelos de Poodles e “trejeitos” são águas passadas e já não cabem mais no momento atual.
Evidentemente, ainda há bandas que revivem essa onda, mas isso está mais para uma homenagem aos seus heróis da música do que para uma retomada daquele estilo colorido e festivo de outrora.
O mundo mudou, se transformou e, dentro dessas novas perspectivas, a música tornou-se mais séria, principalmente ao abordar temas do nosso cotidiano.
Não é mais apenas sobre carros, mulheres, estilo, sexo, drogas e Rock ’n’ Roll. É sobre perdas, dores, saudades, conquistas, corações partidos, reconciliações, assim como outros sentimentos.
Conclusão
“The Wanderer” é um álbum envolvente, cativante e cheio de boas referências musicais. Porém, ele não se encaixa diretamente nos padrões do Hard Rock convencional que conhecemos lá atrás.
Isso acontece justamente por suas melodias e harmonias, que dessa forma fazem uma conexão direta com os anos 80.
Dito isso, não espere ouvir aquele Hard Rock americano que explodiu nas programações da MTV, tampouco aquelas referências diretas a nomes da época como Mötley Crüe, Bon Jovi, Van Halen, Cinderella, Firehouse, Ratt, Danger Danger, entre outros.
Afinal de contas, estamos falando de um trabalho diversificado, cheio de referências, mas que, de forma inteligente e coerente, não finca suas raízes em um único estilo.
Numa lista de bandas atuais de Hard Rock/Melodic Hard Rock, diríamos que o Boys From Heaven estaria ao lado de nomes como Mecca, Creye, Vega, Houston, Hydra, First Light, Grand, Generation Radio, Blind Revolution, Transatlantic Radio, Streetlight, Fans Of The Dark, entre outros.
Se estivéssemos nos anos 80, é certo que eles seriam catapultados ao estrelato o mais rápido possível.
Opinião pessoal: um dos grandes lançamentos de 2026, que vale a pena ser descoberto e coloca a banda na lista de nomes relevantes do Hard Rock/AOR.
Consistente, impecável, criativo, repleto de boas lembranças e, definitivamente, um disco que merece ser descoberto.
Nota: 9,3
Integrantes:
- Mads Schaumann — guitarras
- Chris Catton — vocais
- Mads Noyé — teclados
- Søren Viig Mathiesen — bateria
- Jonas Klintström Larsen — saxofone
- Morten Bille — baixo
Convidado:
- Michael Catton — vocais de apoio
Faixas:
- I’ll Wait
- Hotline
- Hold Your Heart
- Street Life
- Say Goodbye
- How Long
- Eileen
- I Will Never Let You Down
- Time Is on Our Side
- Till The Bitter End