Resenha: Big Big Train – “Woodcut” (2026)

A Lapidação da Alma: O Triunfo Conceitual do Big Big Train em Woodcut

O Big Big Train consolidou-se, ao longo de mais de três décadas de estrada, como uma das forças mais fascinantes, resilientes e consistentes do rock progressivo moderno. Manter uma banda ativa por tanto tempo sem se render ao formato de um álbum conceitual completo é uma impressionante demonstração de autocontrole. Em 2026, com o lançamento de Woodcut, a banda britânica finalmente risca essa conquista de sua lista de desejos. O resultado não é apenas um marco cronológico, mas uma obra-prima de maturidade, equilíbrio e profunda carga emocional que eleva o grupo ao ápice de sua nova era.

O ponto de partida criativo do disco é quase cinematográfico. Durante a turnê europeia de 2023, o baixista Gregory Spawton, bem como o vocalista Alberto Bravin visitaram o Museu Munch, em Oslo. Impactados pelas xilogravuras (woodcuts) de Edvard Munch, a dupla encontrou ali a metáfora perfeita para a própria arte: o ato de escavar, ferir a matéria e remover o excesso para que a luz e a imagem nasçam da escuridão. O conceito do disco orbita ao redor da figura de “O Artista”, um entalhador de madeira cuja obsessão estética e entrega ao trabalho manual o empurram rumo a uma linha tênue entre a genialidade e a loucura. Ao criar uma obra perfeitamente realista, ele se vê sobretudo catapultado para dentro do seu próprio quadro.

Essa dualidade artística se reflete de forma tátil na experiência física do álbum. O Big Big Train abandonou as ilustrações ricas e coloridas de seus discos anteriores para abraçar uma identidade visual monocromática. Dessa forma, a arte de capa e o luxuoso encarte — uma xilogravura real, analógica e totalmente livre de intervenções de IA, assinada pelo gravador Robin Mackenzie — funcionam como um integrante extra da banda. O design em preto e branco conversa intimamente com o conceito lírico: o encarte não apenas expande a história através de notas extensas que contextualizam o enredo, mas traduz graficamente a intensidade emotiva de Munch. A riqueza do som contrasta brilhantemente com a crueza minimalista do papel e da tinta.

Uma sucessão difícil

Nesse cenário de renascimento, a figura de Alberto Bravin ergue-se como vital. Suceder o saudoso David Longdon nunca seria uma tarefa simples, e se o elogiado The Likes of Us (2024) serviu para acalmar os corações dos fãs e reestabelecer os trilhos, Woodcut é inegavelmente o salto definitivo para a estratosfera. Bravin assume as rédeas não apenas como um frontman de versatilidade vocal irretocável, mas também como o “showrunner” do projeto, assinando a produção e os arranjos principais ao lado de Spawton.

O álbum certamente celebra o desapego aos egos em prol do coletivo. O Big Big Train funciona hoje como uma engrenagem internacional perfeita (unindo músicos de seis países), onde o virtuosismo serve à história. Sendo assim, o fantástico baterista e vocalista Nick D’Virgilio brilha intensamente, atuando ativamente nas composições e dividindo as linhas de frente vocais para emprestar diferentes cores interpretativas ao enredo. A violinista Clare Lindley também ganha enorme espaço, estreando como letrista em quatro faixas, enquanto o recém-oficializado trompetista Paul Mitchell amarra os arranjos de metais de forma orgânica à tradicional sonoridade pastoral da banda.

A trajetória das 16 canções (sendo quatro delas pontes instrumentais que costuram a narrativa) flui com a elegância de um belo drink. Para ilustrar: longo, substancioso e extremamente agradável. O álbum evita a armadilha de épicos inflados de 15 minutos; em vez disso, a engenharia de som cria o que se pode chamar de uma “floresta sonora” de precisão cristalina. Cada instrumento ocupa seu nicho ecológico: as linhas pulsantes de baixo de Spawton agem como os troncos, o piano e os sintetizadores de Oskar Holldorff são os arbustos de Hammond, as cordas agem como as raízes e os sopros habitam a copa das guitarras como pássaros.

Joias do Folk Progressivo

Musicalmente, a primeira metade do disco bebe muito no folk progressivo do Jethro Tull. Após a vinheta “Inkwell Black”, a excelente “The Artist” sintetiza tudo o que se espera do melhor prog em enxutos sete minutos. A transição para a rítmica “The Lie of the Land” traz a reverência mitológica de Spawton à natureza inglesa. É como um refúgio para o caos urbano, evoluindo do piano suave até um clímax frenético.

O folk sombrio de “The Sharpest Blade” dá espaço para a agressividade quase metálica de “Albion Press”, uma celebração do maquinário de impressão do século XIX com riffs pesados de guitarra. Em “Arcadia”, a beleza pastoral evoca o Genesis da era Trespass, assim espalhando sutis referências melódicas que funcionarão como “Easter eggs” no final do álbum. O primeiro bloco se encerra na experimental “Warp and Weft”. Inclusive, esta é uma peça intrincada com jogos vocais de contraponto que acenam diretamente ao Gentle Giant. Isso ilustra perfeitamente a confusão mental do protagonista exilado de sua criação.

A segunda metade do álbum assume um tom mais teatral e dramático. “Chimaera” surge como o ponto médio perfeito, dessa forma trazendo um dueto vocal arrebatador entre Oskar e Bravin. O caminho ganha contornos sombrios na melancólica “Dead Point” e na densa “Light without Heat”, que explora o isolamento e o preço de se criar um mundo perfeito, porém gélido e sem calor humano. O turbilhão de desorientação mental ganha força no delírio lúcido de “Dreams in Black and White” e de maneira idêntica no virtuosismo instrumental de “Cut and Run” (com fortes acenos ao prog italiano), até que a delicadeza acústica de “Hawthorn White” abre caminho para o momento mais tocante da obra.

Final grandioso

Finalmente, “Counting Stars” é a grande joia da coroa de Woodcut. Assim como “Love Is The Light” foi o farol emocional do registro anterior, esta balada monumental ergue-se como um momento de puro arrebatamento e lágrimas nos olhos. Conduzida inicialmente pelo piano e violão, a interpretação de Alberto Bravin transborda vulnerabilidade ao narrar o Artista, exausto de sua própria obsessão, assim como à beira do colapso, encontrando paz ao olhar para o céu e resgatar uma memória de infância. O arranjo cresce de forma emocionante com a entrada dos pedais de baixo, mas a grande surpresa reside na ponte da música, cantada de forma íntima e honesta pelo próprio compositor, Gregory Spawton. Para coroar a experiência, o solo de guitarra de Rikard Sjöblom ao final parece literalmente tentar alcançar as estrelas em uma das melhores execuções do ano, em resumo, desaguando em um coro celestial de arrepiar.

O grandioso encerramento vem com “Last Stand”, uma suíte sinfônica que amarra os temas melódicos anteriores em um clímax triunfante de metais e harmonias vocais. Longe de terminar com um lamento melancólico, a conclusão é sobretudo filosófica, alegre e inspiradora. E além disso deixa uma mensagem de resiliência: a arte verdadeira perdura quando todo o resto desaparece.

Mesmo com a presença de músicas que servem mais para conduzir o enredo na segunda metade, a riqueza das composições garante que a grande maioria das faixas funcione perfeitamente de forma isolada. É um álbum que demanda uma audição completa para mergulhar em sua história, mas que também desce muito bem em audições individuais. O Big Big Train vive uma fase esplendorosa e colhendo os frutos de sua integridade artística em grandes festivais. O grupo está expandindo suas fronteiras — prova disso é o bem-vindo lançamento deste trabalho, e do anterior, no mercado brasileiro. É uma rica experiência sonora vestida em trajes de xilogravura; um disco complexo, multidimensional e, acima de tudo, profundamente humano.

Integrantes:

  • Alberto Bravin (vocal, violão, guitarra elétrica, teclados, Moog, Mellotron)
  • Nick D’Virgilio (bateria, percussão, teclados, violão de 6 e 12 cordas, backing vocals)
  • Oskar Holldorff (piano de cauda, pianos elétricos Wurlitzer e Fender Rhodes, órgão Hammond, Mellotron, sintetizadores, backing vocals)
  • Clare Lindley (violino, violão, backing vocals)
  • Paul Mitchell (trompete, piccolo trumpet, backing vocals)
  • Rikard Sjöblom (guitarras de 6 e 12 cordas, órgão Hammond, backing vocals)
  • Gregory Spawton (baixo, pedais de baixo, violão de 12 cordas, Mellotron, backing vocals)

Faixas:

  • 01 Inkwell Black
  • 02 The Artist
  • 03 The Lie of the Land
  • 04 The Sharpest Blade
  • 05 Albion Press
  • 06 Arcadia
  • 07 Second Press
  • 08 Warp and Weft
  • 09 Chimaera
  • 10 Dead Point
  • 11 Light without Heat
  • 12 Dreams in Black and White
  • 13 Cut and Run
  • 14 Hawthorn White
  • 15 Counting Stars
  • 16 Last Stand
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