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Resenha: Belphegor – “The Devils” (2022)

Grande expoente de Österreich (Áustria para os tupiniquins), o Belphegor segue carregando a bandeira do Metal extremo, sendo um dos grandes pilares do estilo. Por falar em estilo, a banda sempre navegou pelas águas vermelho-sangue do Death Metal, turvas e gélidas do Black Metal, tendendo um pouco mais para os laços com o Metal da morte, principalmente em seus últimos trabalhos. Em “The Devils”, novo disco lançado em 29 de julho via Nuclear Blast, os gárgulas austríacos buscaram elementos no mais profundo breu para enriquecer sua música com mais camadas de Black Metal. Tais camadas tornaram a sonoridade da banda cada vez mais robusta e coesa dentro de sua proposta, isso incluindo a aura Blackened Death, que costuma aparecer em diversos momentos quanto aos trabalhos da banda. Para o dono do nanquim virtual que vos digita o principal álbum do Belphegor vem a ser o magnífico “Lucifer Incestus” (2002), porém é notória a sequência de grandes álbuns lançados por eles desde então. E o sucessor do ótimo “Totenritual” (2017) está aí para mostrar a que veio. Portanto, resta saber se o bom nível da orquestra austríaca do submundo segue afiada conforme manda sua tradição. A nova roda negra prestes a girar neste momento, foi mixada e masterizada no Fascination Street Studios em Örebro, Suécia. O produtor sueco Jens Bogren (Kreator, Dimmu Borgir, At The Gates) é quem assina além da produção do disco, a mixagem e a masterização. Já o trabalho de arte ficou por conta de Seth Siro Anton. As participações especiais ficam por conta de Christos Antoniou, nas orquestrações de “Creatures Of Fire” e “Damnation – Höllensturz”. Fany Melfi é a dona dos cânticos femininos nestas mesmas faixas citadas. Sandie “The Lilith” Gjørtz, vocalista do Defacing God, participa da intro de “Totentanz – Dance Macabre”, enquanto Johanna Sadonis (Lucifer) introduz as partes faladas de  “Glorifizierung Des Teufels”.

Agora sim, está dada a largada deste novo artefato sonoro do Belphegor!

   

“Aurum de Arabia…”

Reprodução/Facebook/Belphegor

A súplica inicial realizada na catedral no ostracismo ao radiante Sol, é simplesmente aquela que carrega o honroso fardo de nomear o disco: “The Devils”. Esta por sua vez, coloca à mesa aquela breve receita da incorporação do demônio, em que este toma posse de seu hospedeiro, para que logo em seguida possa entrar a trilha sonora. O rito em forma de música explora os dutos sanguíneos do Death Metal, utilizando-se de notas agudas, bases extremamente pesadas de guitarra contornadas por um baixo ensurdecedor e linhas de bateria que expõem toda a conduta em prol dos pedais duplos. Por breves momentos pode ser percebido algo de HateBehemothIncantation e Brujeria. A cadência exala um odor maior voltado para a banda mexicana, enquanto as variações rítmicas alternam entre as outras exemplificadas. Aqui o termo Metal da morte foi revigorado com sucesso, somado ao solo que eleva a profundidade desta construção musical, exercido pelo também vocalista Helmuth, que também vocifera como um destemido demônio.

“Eu revelo seu mal – e maldade / Eu te faço tremer / Estou armado – em temor / Eu represento a supremacia / O diabo! – o conselho do livro satânico e dos ditos maléficos é para deixar de lado seu representantes clericais, pois estes já caíram diante do despertar de todo o mal. Saúda Satã… Der Teufel!

Nela temos dois versos interessantes em alemão: 

“Ich bin das Feuer Ich brenne nicht!” “Gepfählt durch die Zunge des Teufels!”

“…thus et Myrrham.”

Em segundo plano temos o pergaminho sonoro erguido e extravasado a plenos pulmões, após a súplica da bruxa interpretada pela competentíssima Sandie “The Lilith” Gjørtz (Defacing God). Seu batismo resulta em “Totentanz – Dance Macabre”, primeiro single lançado pelo destemido Belphegor e que contém um tema completamente atual, na qual ainda vivenciamos de fato. E é com uma rasgada e esganiçado bramido que o segundo cortejo começa a sua jornada pelos campos auditivos desta vasta e imunda terra. Sendo mais intensa e veloz que sua antecessora, torna o contraste amplamente positivo. As junções de estilos completam e deixam o enredo mais rico e mais macabro. Guitarras como serras negras, baixo como martelos de guerra e bateria que simula a cavalaria infernal ditam o ritmo da trama, que por sua vez, tenta acordar o adormecido mundo com suas pancadas sonoras para contar-lhe fatos presentes. As pausas e o retorno a todo vapor se assemelham ao Marduk em seus melhores momentos, enquanto a possível inspiração frente ao Dark Funeral ganha força nos momentos mais agudos e com a bateria ríspida e constante. O solo de guitarra é breve, porém preenche muito bem a lacuna reservada para tal.

“Nova doutrina do rebanho condicionado
Culto covid feito pelo homem, decadência purulenta
Pecado mortal da ganância, governantes devassos corrompidos
De dentro das chamas prega seu engano fatal
Ajoelhe-se diante da nova praga
Curve-se à coroa exaltada de sars
Não há esperança para o homem
Toda a vida humana deve morrer”

“Totentanz – Dance Macabre” (lyric video)

“Tulit in ecclesia…”

Essa é a verdadeira dança da morte com o deus da praga junto a estrofes que passeiam pelo inglês e pelo alemão. Notas livres e misteriosas ditam o ritmo aos primeiros segundos de “Glorifizierung Des Teufels”, inaugurando o fechamento da primeira tríade do álbum. Dedilhados vagarosos acendem as bases para que estas contemplem a passagem de vozes entre rezas e vocais rasgados. O duo entrega seu petardo vocálico junto ao encordoamento preciso. Alicerce mantido em equilíbrio com a posse de David Diepold. Solos de guitarra que enfeitam, explanam e encantam o ambiente hostil, tornando-o mais voluptuoso e denso. O fim é agraciado por uma dama da floresta pantanosa, simplesmente a sensacional vocalista da banda Lucifer, Johanna Sadonis. “Caindo e choramingando de prazer / O enxofre excita a mulher / Um infame beijo – Beije as nádegas da cabra” – enquanto a lua cheia brilha tão fria, santificada é a sua carne. É o ato de glorificação do diabo… A glorificação do bode. A tentação pela carne e por todo modo mundano de pecar invade suas entranhas e o faz ser um de “nós”. A glorificação ao ser tenebroso é mais do que certa, então não espere sofrer com a falsa luz… Envolto em chamas mágicas… Demônios estão pairando sobre nós… Damnation – Höllensturz” expõe os arquétipos qualitativos da horda europeia. Possuindo uma ligação com a faixa de abertura, esta carrega todo o ódio profano que uma faixa de Death Metal pode ter. Inspirações? Pode incluir as que já foram colocadas e outras do mesmo porte. Aqui estão talvez os melhores solos do disco, além dos harmônicos, que são figuras constantes em materiais voltados para o som extremo. Em determinado momento, a faixa ganha um tom árabe em alusão ao que está por vir. “I conjure thee – Zerstörer / Oh, Creature of fire – Abschwörer / I conjure thee – Verwüster / Oh, Creature of fire – Besessener” – só para sentir mais de perto a junção de tais dialetos que representam o apocalíptico inimigo renascido no fogo. Em meio a isso, temos nas orquestrações a assinatura de Christos Antoniou, que cria um ar mais cinematográfico, que é característico na sonoridade do Dimmu Borgir, por exemplo. Caberia fácil no ótimo álbum, “Death Cult Armageddon” (2003). Os cânticos desérticos femininos são executados com maestria pela musicista Fany Melfi.

Belphegor/Direitos Reservados

“…Virtus Asinaria.”

Eis que chega a vez de um do melhores hinos não apenas do Metal do submundo como também de todos os principais subgêneros em se tratando do ano vigente. Podemos dizer que, para a alegria do plano inferior habemus “Virtus Asinaria – Prayer”, segundo single lançado pela banda e que coloca a bússola sombria em terrenos completamente sem luz. Como uma reza em procissão direcionada ao passado doentio da corrupta humanidade, a marcha sonora acontece de forma cadenciada e lamuriante, na qual os tremolos da guitarra do também vocalista Helmuth, se destacam em meio aos golpes vagarosos de contrabaixo exercidos por Serpenth e acompanhados pelo caminhar constante da bateria do convidado David Diepold. A letra em latim é esta que permeia e contorna toda esta epístola, e terminará a escrita de forma proposital. É curta, porém se coloca à frente das demais pelo conjunto da obra, embora “Totentanz – Dance Macabre” traga um tema até mais importante, impactante e melhor detalhado. A lembrança traz à mente o maravilhoso EP dos polacos do Besatt“Impia Symphonia” (2015).

Esta canção atinge o âmago da mais pútrida alma, esfacelando-a até o último resquício de vida da carcaça imunda que a cobre… Sim… O ser humano… Que de humano não possui nada… Muito menos a glória de ter nascido…

“Orientis partibus…”

Depois da inglória vem o deleite constante com a próxima tramoia ocasionada pelos combatentes de Salzburg. E nada como citar um reino após uma viagem pelo território árabe e suas riquezas, em meio ao sangue jorrado frente à corrida do ouro. Com vocês, “Kingdom Of Cold Flesh”. O princípio deste capítulo coloca à prova os recursos agudos e graves através dos dedilhados coordenados e executados com precisão. A canção pede por mais combustível para que continue sua aceleração constante. Uma espécie de combo entre Dark FuneralVarathron, Necrophobic e Asesino se estendem pelos céus cor-de-nada, ocasionando uma verdadeira batalha campal entre mundos. “Juntos para sempre / Unidos em pecado eterno” – unidos pela irmandade do mundo inferior em alemão. “Pecar novamente da morte para a ressurreição / Nós nos tornamos um!” – o primeiro verso é em latim para reforçar a palavra da salvação, e em seguida utilizando o tradicional inglês para exaltar a exclamação do reino da carne pútrida, fria e nefasta.

Após a ascensão do ser supremo e antidivino diante dos olhos de quem habita este plano, temos os três últimos pontos cardeais da rosa-dos-ventos do sul do céu. A primeira destas atende por “Ritus Incendium Diabolus”, seguida por “Creature Of Fire”, e por último, a faixa bônus “Blackest Sabbath 1997”, que vem a ser um single lançado* em separado no dia 9 de dezembro de 2021, mas que foi acoplado ao novo trabalho. Também possui videoclipe.

Promocional/Divulgação

“…adventavit asinus.”

Falemos primeiramente da sétima canção do disco. O império esmagador da carcaça sem alma apresenta em seu arsenal algo bem marcante: as marretadas no kit e o baixo mais pulsante que o coração mais agitado. Guitarras que passeiam por acordes mais leves e riffs mais carregados, seja nos trechos mais insanos, seja nas partes mais vagarosas. Há espaço para o rasgado, o gutural e o vocal grave ao recitar uma prece. Solos chegam para enervar o caminho e servem de ponte para as mudanças breves seguintes, até que estas emendem ao refrão poderoso. “Dimensões – da – energia mais pura / Encantamento da maior força / Canalizando a escuridão – eu revelo sua glória / Olhos vermelhos brilhantes – eu sinto você demônio!” – o último verso é em alemão no original e ajuda a revelar nesse ritual que “ele” é tudo o que existe, é tudo o que sempre foi. “Incrível – insanidade – prazer na brutalidade / Minha vontade – pode – dobrar a realidade / Renascido – em meu próprio reino livre / Destrói seu poder – eu espio seu demônio!” – As criaturas do fogo emergem das profundezas do inferno e incendeiam as almas condenadas por serem incapazes de servirem a qualquer propósito para qualquer deus que você tenha em mente.

O oitavo capítulo coloca em evidência os tambores de proclamação à guerra. Está na hora da marcha para a luta final, junto aos arranjos orquestrais emitidos novamente pelo hábil Christos Antoniou. O clima desértico toma conta do cenário em meio à voz doce e melancólica de Fany Melfi que guia o ouvinte para a outra dimensão sem que esta possa recuar de sua decisão. “Ritualis incendium – Ritualis diabolus / Oh, creature of fire…” – sendo a faixa mais curta do álbum com seus quase 3 minutos de duração, esta também possui a menor letra do disco. Sim, são estes dois versos apenas, mas possui toda uma climatização necessária, excelente e condizente com o tema proposto. Nascido do fogo, eis a criatura que buscará vingança neste maldito plano astral.

Belphegor/The Devils/Divulgação

“Pulcher et fortissimus…”

   

A bonificação encerra os trabalhos de “The Devils”. Quanto ao som, esta abre a caixa de ferramentas de tortura com um acorde isolado, servindo de introdução para algo mais voltado para os primeiros anos da banda, sendo na primeira parte Black Metal, e na segunda parte Death Metal. Após ambos os momentos tudo se repete até a música ganha diferenciais somente com o baixo de Serpenth. A mesma possui trechos mórbidos que se encaixam muito bem ao que é proposto. A horda trafega pelos dois mundos de forma única com direito ao chamado Blackened Death Metal em seu cardápio sonoro. Os solos gélidos e riffs aniquiladores de ouvidos frágeis se assemelham ao Immortal, ao Carcass, e ao Immolation. Em meio à tortura, luxúria, carnificina e rituais satânicos, a canção não mede esforços para jogar às claras com todos. Enquanto as aberrações invadem os caminhos de fuga, a legião das trevas renasce e é liberta por toda a eternidade!

*Sobre a faixa bônus, esta representa a composição e gravação do álbum “Blutsabbath”, lançado entre os anos de 1996 e 1997. A canção foi regravada, mixada e masterizada em 2021. A bateria original da época foi tocada por: Florian Klein, também conhecido como “Torturer”. “Blackest Sabbath 1997” é um medley de duas faixas. São elas: “Blutsabbath” e “Blackest Ecstasy”, ambas do álbum mencionado.

“…Virtus Asinaria.”

Curiosidades e considerações finais:

A primeira a ser notada facilmente é que os caras seguem com o gosto peculiar em misturar letras em alemão e inglês, com altas doses em latim.

Seguindo a sessão curiosa, todos os singles ganharam videoclipes (um deles sendo um lyric video) para melhor serem representados e divulgados. Ambos foram cuidadosamente bem feitos, mostrando que uma banda de Metal extremo pode muito bem realizar grandes trabalhos nesse aspecto, fortalecendo e ampliando o seu alcance, além de elevar as qualidades e o alicerce da mesma. Junto a isso temos em Helmuth e Serpenth uma dupla cada vez mais entrosada e sabedora do que se propõe a construir. O Death ligado ao Black Metal não é algo simples de se colocar à tona e “The Devils” demonstra um amplo cenário repleto de grandes louvores musicais, isso sem contar as variações de subgênero que acontecem de forma natural, conforme as faixas são tocadas seguidamente. E Diepold, mesmo não sendo colocado como membro oficial da banda, a trata com total devoção, podendo taxar a mesma como um verdadeiro e legítimo power trio. Resta ao leitor tirar suas conclusões e ouvir esse disco o quanto puder. Afinal, sua alma já está despedaçada mesmo… E quanto mais ouvir “The Devils”, maior será a chance de restaurá-la.

Asinaria: trata-se de uma peça de Plauto (Titus Maccius Plautus), um dos mais antigos e tradicionais textos extraídos do latim, datada em 194 a.C. Conhecida pela tradução aproximada, “A Comédia dos Burros”, é lá que se localiza uma das citações que se eternizaram com o passar das Eras: “Homo homini lupus” (o homem é lobo do homem). Asinaria também está associada ao portão de entrada da cidade para os romanos orientais. Foi através deste portão que as tropas romanas orientais do general Belisário entraram na cidade em 536, tomando-a novamente para o Império Bizantino do Reino Ostrogótico, o que faz lembrar de uma banda belga icônica dos anos 80, o sagrado Ostrogoth.

Photo by Artur Tarczewski, 14th August – UK – Derbyshire, Bloodstock Festival

“Aurum de Arabia, thus et Myrrham
Tulit in ecclesia, Virtus Asinaria
Orientis partibus, adventavit asinus
Pulcher et fortissimus, Virtus Asinaria”

Nota: 9,5

Integrantes:

  • Helmuth (guitarra, vocal)
  • Serpenth (baixo, vocal de apoio)

Músicos de Estúdio:

  • David Diepold (bateria)

Faixas:

1. The Devils
2. Totentanz – Dance Macabre
3. Glorifizierung Des Teufels
4. Damnation – Höllensturz
5. Virtus Asinaria – Prayer
6. Kingdom Of Cold Flesh
7. Ritus Incendium Diabolus
8. Creature Of Fire
9. Blackest Sabbath 1997 (bonus track)

Redigido por Stephan Giuliano

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