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Resenha: Arcana Elysium – “Corpus Callosum” (2021)

Por vezes, nos deparamos com artigos e dizeres que constatam a falta de bandas no cenário nacional e que isso justifica a ausência do Metal brasileiro nas frentes de comunicação local. Porém, muitos esquecem que o Metal nunca esteve diante dos grandes veículos de informação como fator primordial, mas apenas como uma mera novidade passageira que servia de “tapa-buraco” para encher linguiça das programações destes mesmos meios informativos. Porém, mais uma vez, essa nunca foi a ideia da mensagem passada por essa gloriosa vertente, pois sempre sofria e continuará sofrendo mutações ao tentar migrar para este “mundo”. Quem não olha o assunto de perto acha mesmo que a história está no fim e não medirão esforços ao dizer que o Rock e o Metal estão fadados ao esquecimento. Agora quem costuma estar antenado às principais notícias do certame nacional e global sabe muito bem que a boa música vive um de seus grandes momentos, mesmo em tempos que os eventos estejam interditados. A boa notícia é que aos poucos as coisas estão se ajeitando, e mesmo com os pesares e atrasos deste país de oitavo mundo (sim, oitavo por que fui bonzinho até) tudo tende a se normalizar diante do que já vimos de perto. Sejamos otimistas para não cairmos em devaneios e frustrações que só impedirão a nossa vontade de viver.

Aos acompanhantes do Rock e do Metal, trago mais uma grata notícia, meus nobres compatriotas. Meus conterrâneos do Arcana Elysium estão com seu álbum de estreia intitulado “Corpus Callosum”, lançado de forma independente no dia 21 de maio, e que traz em seu leque sonoro mais uma página em favor do que conhecemos como Symphonic Metal, que é um dos subgêneros que vem constantemente recuperando a sua notoriedade e sendo aprovado e aplaudido por diversos críticos e redatores graças aos ótimos lançamentos surgidos nos últimos anos. Só neste ano tivemos a presença dos medalhões Epica, Therion e Sirenia, e ano passado, o Nightwish entregou mais um trabalho com a ex-After Forever, Floor Jansen. Certamente a disputa para 2021 ficou bem acirrada com as bandas citadas e seus respectivos lançamentos, mas o Arcana Elysium não deseja apenas figurar como revelação do campeonato. Esta deseja buscar a artilharia também. Será que consegue? Veremos a seguir.

   

Ainda sobre alguns dados da banda e sobre seu debut “Corpus Callosum”, ela é oriunda de Petrópolis, Rio de Janeiro, apresentou ao público seu primeiro single em 2019, nomeado “Hunting In The Shadows”, na qual passaria a fazer parte do repertório de seu primeiro disco. Igor Valle (baixo e vocal gutural), Alex Diniz (bateria), Bruno Riz (guitarra), Claudio Justen (teclado) e Patricia Scagliusi (vocal) compõem o arsenal de músicos do Arcana Elysium. Eu até pensei em abreviar para “AE”, mas poderiam confundir com Arch Enemy, que usam essa sigla em alguns momentos. O álbum é composto por 10 canções, sendo que a abertura é instrumental, e o trabalho completo tem a duração de quase 47 minutos. O lance é acompanhar e ver se realmente essa banda petropolitana é capaz dessa enobrecida façanha.

Após um trovão, um tilintar de teclado que emula notas agudas e gélidas de um piano apresenta o clima carregado que o álbum provavelmente estenderá até o seu final, e inicia esse misterioso percurso de forma breve sendo a faixa-título “Corpus Callosum”, que abre alas para este som instrumental, servindo como um rito de passagem para “Hunting In The Shadows”, single da banda que já fora comentado anteriormente e que possui uma abertura intimidadora, mostrando o poderio do que está por vir. Todos os instrumentos apostos e aí que começa a nossa nova aventura apoiados pelos guturais do também baixista Igor Valle. A faixa possui alguns diferenciais que alternam entre o Symphonic em maior escala, o Power e o Death Metal, como coadjuvantes. Destaque para a voz de Patricia Scagliusi, que mesmo apoiada por vocais dobrados, nota-se uma breve semelhança com a cantora do Evanescence, Amy Lee. Riffs distorcidos e muito bem executados por Bruno Riz jogam o nível da canção para muito alto, enquanto o baterista Alex Diniz se mostra bastante versátil e habilidoso ao explorar o seu kit. Os solos de guitarra também são muito bem distribuídos e encaixados na música. “Coloque suas tripas em risco e prove seu valor / Este é o único caminho / Para mostrar como tudo é possível” – coragem e perseverança para enfrentar os diversos desafios que a vida que possui e você é o dono do seu caminho, a menos que desista de tudo e espere para alguém o guiar. O que torna a jornada ainda mais complicada e repleta de variantes não muito boas. Você pode encontrar alguém em uma luta árdua nas sombras e essa batalha interna não cessará até que o caminho receba a luz que é necessária para que se trafegue por ele e, assim, dias melhores poderão vir.

“Hunting In The Shadows” official videoclipe

Na sequência temos “Cold Road”, faixa que acompanha a tendência inserida por sua antecessora e que de cara abre mais espaço para a Patrícia oferecer a sua voz ao ouvinte. Sua abertura remete a temas mais voltados ao Power Metal, que é a maior influência do Symphonic em uma análise geral. Os riffs cavalgados se fazem presentes e todos os enfeites proporcionados pelo tecladista Claudio Justen nos transporta para o ambiente de batalha e intrigas pessoais. Pode ser comparada de leve com “Bless The Child” dos finlandeses do Nightwish. As linhas de baixo de Igor Valle estão bem distribuídas, enquanto a sua voz, apesar de figurar em menor escala, se faz presente de maneira bastante qualificada, pelo menos na primeira parte da música, que da metade pro fim, toma a dianteira, acelerando seus compassos de forma exorbitante e muito bem trabalhada. “Não deixe a luz da vitória cegá-lo / Veja a dor e a tristeza na sua frente / A guerra trouxe esta realidade para você / Mas a realidade é ainda mais do que isso” – levantando a sua espada estará prestes a conjurar os deuses que irão te guiar com o seu poder para que assuma o controle do seu corpo e alma, assim te oferecendo a devida vitória. Para sobreviver terá de fazer isso por que a vida é uma estrada fria e você deve enfrentar seus próprios medos para que ao se sobressair possa se tornar muito mais poderoso e dono do seu próprio destino. “Beyond These Tears” é a quarta esmeralda do caos do disco e logo em seus primeiros segundos já apresenta um arranjo de violão que abre as portas do casarão, no qual estão os outros instrumentos para uma reunião em forma de balada. Os vocais mais doces de Patrícia tomam outra sintonia, sendo ainda mais própria. Chocalhos, percussão e piano de bar. Esse é o clima desta canção que preenche o já rico som dos cidadãos de Petrópolis. Mas, não pense que a música fica apenas nisso, pois seu refrão é forte e tende a figurar nas listas de audições de quem aprecia o estilo como um todo. “Eu alimentei toda minha vida / Com todos os tipos de mentiras / Eu estava totalmente amarrado / Pela minha própria existência” – regado a solos de guitarra de qualidade ímpar, os versos proferidos por Patrícia se estendem pelas dúvidas criadas quanto às atitudes da pessoa ao se questionar pelos seus próprios atos, entendendo que estava preso o tempo todo por conta de suas falsas convicções. Ficar chorando o tempo todo não adianta e apenas ampliar a dor e o sofrimento perante a toda essa situação, mas ainda há solução, pois a vida não pode ser limitada para uma simples realidade vazia.

“Game Charger” official lyric video


Para quem acompanha canais sobre o espaço sideral, deverá se sentir em casa ao ouvir os primeiros segundos de “Game Changer” por conter uma introdução bem voltada para este tema, que logo se transforma em uma canção de linhas sonoras mais calmas, mas que eleva o seu nível a partir dos versos que se estendem até que as duas vozes se encontram e fazem uma espécie de polos positivo e negativo. Mais uma canção de muito bom gosto que serve para mostrar toda a competência da banda como um todo. Trechos de vocalização mais retilínea e limpa jogam mais tempero na canção e na receita do álbum. Bateria e teclado muito bem alinhados e mantendo o espaço para que guitarra e baixo não se percam em nenhum momento. A canção mostra que não ficar se culpando e comemorar pelo dom da vida é a melhor de todas as saídas, ainda quando se sabe que a partir deste momento tudo será diferente e que os olhos antes opacos agora contemplam a luz, junto brilho que refletiu das lágrimas que se antes eram de dor, hoje poderão ser somente de alegria refletida no brilho verdadeiro da própria alma. “Minha vontade de viver é um instinto natural / Entrelaçado com meu inconsciente / Nós pensamos, temos o controle enquanto estamos / Dominado pelo desconhecido.” “The Only One” segue os mesmos padrões da quinta faixa, porém, de forma mais direta e mostrando todo o clima envolvente da mesma para com quem a acompanha. Com harmônicos e riffs mais Heavy, toda a orquestração é colocada em primeiro plano para que os vocais de Patrícia ecoem de maneira limpa e soberba nos seus alto-falantes sem deixar qualquer questionamento duvidoso. Sua forma de cantar soa normal, como se fosse algo completamente simples para a mesma. Aqui a “brincadeira” com várias camadas de vozes é colocada em prática, até que nos deparamos com mais um belo solo de guitarra e toda a estrutura sonora evidenciada da melhor forma. Soa-me um pouco melhor que sua parenta anterior por conta das variações e nível de peso e empolgação constantes. “Eu não acredito mais que sou apenas este corpo / Eu sinto que sou muito mais do que apenas isso / Somos grandes seres, vivendo neste lugar / Do contrário, qual seria o significado de tudo isso?” – o que sempre é perguntado, ou seja, o sentido da vida que se torna cada vez mais duvidoso e incerto para muitos, e para outros a certeza chega através dos bons ventos que transmitem as boas energias necessárias para uma jornada frutífera e repleta de grandes vitórias diante dos mais variados desafios.

Também sob uma cortina de fumaça misteriosa, “Taste Hell To Deserve Heaven” aparece sutilmente e te faz respirar lentamente para não fazer muito barulho até que se percebe as primeiras notas de baixo, e de guitarra… Agora a cobra vai fumar! ‘Metalzão’ de qualidade rolando nesse trecho da obra. Notas que vem e vão com suas escalas subindo e descendo até que entram os vocais de Patrícia, dessa vez mais concentrados, porém mantendo a mesma leveza característica, que se revezam entre as notas médias e mais agudas. Destaque para todo o trabalho dos músicos, cada qual em seu instrumento, de modo que fazem funcionar tudo em alto nível. A sequência produzida pelo baterista Alex Diniz é de fazer o ouvinte deixar a canção em modo ‘repeat’ na hora, isso sem contar os solos absurdos de ótimos proferidos por Bruno Riz. “Venha e experimente o inferno, para merecer o paraíso / Vá e experimente o inferno, para merecer o paraíso / Eu vou provar para você, é agora ou nunca / Você está pronto para enfrentar a eternidade?” – acreditando no que lhe é dito você pode encontrar os extremos sem precisar de provação, afinal, é o certo a se fazer e você precisará juntar forças com quem te avisa sobre tais desafios destacados pelo “eu” contido na canção. Vá e experimente o inferno, para merecer o paraíso, sendo agora ou nunca, pois você estará livre, agora e para todo o sempre. Com os teclados afiados de Claudio Justen, “Insane Creation” dá as caras de forma potente, principalmente ao apresentar o restante do time ao próximo cenário. Quase numa vibe voltada ao Melodic Death Metal, a canção apresenta riffs mais insanos e vocais de Igor Valle ainda mais agressivos. Quem contrapõe com toda a calmaria egípcia é a estonteante Patrícia que mantém o navio no prumo através de sua técnica vocal. Guitarra e baixo bem pesados oferecem uma boa dose de gordura musical para a banda, o que a torna ainda mais envolvente e respeitosa. E isso só vem a somar para a repaginada que o estilo vem sofrendo, e com toda certeza, para melhor. Ainda sobra espaço para experimentações que estendem o tapete vermelho para mais uma sequência de solos magistrais de Bruno Riz. “História cheia de desgraças / Nosso orgulho foi feito de dor / A nação roubou do nativo / Por uma religião de um homem sem rosto” – desde o começo a humanidade fez coisas absurdas, sendo tão destruidora a ponto de esmagar tudo com os próprios punhos. Em nome de reis e deuses, milhões de vidas foram tiradas, e em toda a história sempre usamos o nome de outros seres para justificar nosso próprio poder.

“The Light That Hurts” demo cut video

Cheia de marra, é a vez de “The Lights That Hurts”, que impõe atenção a quem ouve desde as suas primeiras notas. As ideias contidas inicialmente são semelhantes à proposta do disco em que pudemos conferir até o presente instante. Outra faixa qualificada e que possui elementos do Epica e Within Temptation em seus grandes momentos, só para tomar como parâmetro. A canção acaba tomando uma forma mais aventurada, como se a Disney tivesse comprado os direitos da banda, mas que logo retoma a dianteira, através de seus refrãos poderosos. Aumente o som, pois vale à pena apreciar o trabalho desta grata novidade do ano vigente. “A dualidade / Do universo / Há um equilíbrio / Vá e encontre!” – a linha entre a dor e o prazer é bastante fina e você pode se enganar a todo instante. A luz que emana da vida pode causar a dor do sacrifício, da provação, da ascensão, da salvação, o que vem a ser a reencarnação. É tudo uma questão de percepção por não existir uma maneira simples para descrever tal condição. “Farewell Sacrament” é a canção de despedida do novo e primeiro trabalho completo realizado pelos fluminenses e trazem consigo um som de piano acompanhado por Patrícia até que… Batidas sequenciais na caixa, e todo o clima de tensão paira no ar para que seja aberto o espaço necessário para as cordas entrarem em ação uma última vez neste full length e façam o devido show acontecer e terminar de maneira exemplar. Pode não ser a melhor canção do álbum, mas finaliza o processo de maneira tranquila e joga ao vento a sensação e desejo de um próximo álbum para logo adiante. Porém, se engana que a canção se prende somente na leveza e calmaria. O lado mais extremo retorna e os pedais duplos de Alex Diniz fazem o último percurso. A mesma retorna ao ponto inicial com Patrícia acompanhando a trajetória até o seu fim. “Este será meu ato final / Como um ser desta existência / Eu experimentei todas as provações / Para aprender o caminho” – os sentidos se fecham para a abertura de um novo plano depois de tentar resistir o máximo que pudesse, por que ninguém estivera realmente preparado para as consequências que causam medo e repulsa, nos afastando de quem nós somos em essência. Agora é permitida a libertação do nosso espírito para que a luz esteja do nosso lado e possamos encontrar a verdadeira e pura vida eterna.

Antes de guardar a caneta e o papel, podemos aproveitar para dizer com a devida certeza que o Arcana Elysiun estreou muito bem e pode sim figurar entre os gigantes desta subvertente que parece ter recobrado a consciência ao lembrar que os teclados não podem se sobrepor às guitarras, afinal, se é Metal, precisa de muita guitarra, e tudo aqui se mostra bastante equilibrado dentro de um trabalho que não contém nenhum tipo de susto para quem desejar ouvir.

“This will be my game changer
Now I’ll give the cards
In this game everyone will win
Cause here there’re no losers”

Nota: 8,7

Integrantes:

  • Patricia Scagliusi (vocal)
  • Igor Valle (baixo e vocal gutural)
  • Bruno Riz (guitarra)
  • Claudio Justen (teclado)
  • Alex Diniz (bateria)

Faixas:

  • 1. Corpus Callosum
  • 2. Hunting In The Shadows
  • 3. Cold Road
  • 4. Beyond These Tears
  • 5. Game Changer
  • 6. The Only One
  • 7. Taste Hell To Deserve Heaven
  • 8. Insane Creation
  • 9. The Lights That Hurts
  • 10. Farewell Sacrament

Redigido por: Stephan Giuliano

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