Resenha: Anthrax — “Cursum Perficio” (2026)

Antes de qualquer comentário ou análise, é necessário mencionar que o Anthrax jamais foi uma banda exemplar de Thrash Metal. E o amigo leitor pode — e deve — questionar essa afirmação. Afinal, o que diabos isso quer dizer? É simples: o Thrash Metal representa apenas um dos muitos direcionamentos absorvidos ao longo dos mais de 45 anos de história do quinteto. Vale lembrar que, mesmo no período mais ligado ao gênero, ainda no início da carreira, o grupo de Nova York apostava em vocais muito mais melodiosos do que praticamente qualquer outra banda da cena. Conforme avançava, continuava arriscando e expandindo seus horizontes.
O Anthrax nunca ligou para tendências, tampouco se preocupou em seguir padrões. Estamos falando de uma época em que praticamente todas as bandas queriam parecer malvadas e perigosas. Foi justamente nesse contexto que os integrantes do Anthrax institucionalizaram as bermudas coloridas e tiveram coragem suficiente para não se levar a sério a ponto de gravar uma sátira em ritmo de Rap: a famigerada “I’m The Man”. Quando chegaram ao auge de sua ascensão midiática, repetiram a dose e produziram outro Rap, “Bring The Noise”, desta vez em parceria com o Public Enemy.
Nos anos 1990, já com John Bush nos vocais, o Anthrax experimentou o Groove Metal, mergulhou de cabeça em diferentes sonoridades e criou diversas músicas que um ouvinte purista classificaria, no mínimo, como esquisitas. E todas essas considerações iniciais servem justamente para explicar meu espanto ao ver fãs realmente surpresos com algumas das “doideiras” — no melhor sentido possível — presentes em “Cursum Perficio”. Se você é um jovem padawan e esse universo ainda lhe parece desconhecido, acostume-se. Agora, no caso da galera mais velha que ainda está estranhando, aconselho ir chupar um parafuso até virar prego.
1. A inspiração visual
Charlie Benante tinha na cabeça uma estética semelhante aos antigos cartazes de ilusionismo de Harry Houdini e à arte promocional associada a Coney Island. Enquanto assistia a uma série documental de David Blaine, percebeu que cada episódio terminava com uma ilustração que condensava visualmente o que havia acontecido. Benante gostou tanto daquele estilo que foi aos créditos para descobrir quem era o responsável: Mark Stutzman. Entrou em contato com ele e os dois desenvolveram juntos o conceito da capa.
O próprio Benante descreveu o resultado como algo meio Salvador Dalí, e isso faz bastante sentido olhando para a composição surrealista, os personagens impossíveis, os elementos relacionados ao tempo, assim como os pequenos detalhes espalhados pela pintura. Há também “easter eggs” ligados à história do Anthrax, deliberadamente colocados para que os fãs tentem identificá-los.
Existe ainda uma segunda inspiração importante, mas não propriamente estética. Benante lembrou da campanha de lançamento de The Nightmare Before Christmas, de Tim Burton, na qual o público era apresentado individualmente a personagens como Jack e Sally. A ideia o levou a pensar: por que os personagens da capa de Cursum Perficio deveriam ser apenas figuras sem passado? Foi daí que nasceu Meet The Characters.
1.2 Os personagens da capa
A capa de “Cursum Perficio” apresenta uma pequena galeria de personagens com histórias próprias, todas concebidas a partir do universo criado em torno do álbum. No centro está Professor Rowan Fenn, um estudioso do século XVIII que mergulha em conhecimentos proibidos e acaba assassinado durante um ritual. A morte, porém, não encerra sua trajetória: Fenn retorna como uma espécie de místico morto-vivo, capaz de realizar curas, lançar maldições e criar ilusões perturbadoras. Na concepção inicial de Charlie Benante, o personagem chegou a ser imaginado como uma possível versão jovem de The Preacher, figura clássica associada à capa de “Among The Living”.
Ao lado dele surge Miss Clara Thorne, jovem de uma rica família da Boston colonial que estava prestes a se casar com um homem muito mais velho. Durante a cerimônia, porém, a chegada de Rowan transforma tudo. Fascinada pelos fenômenos sobrenaturais provocados pelo mágico, Clara abandona o casamento, rompe com a família e passa a acompanhá-lo.
Outro personagem é Grim, o estranho cão verde. Antes de assumir sua aparência sobrenatural, ele era apenas um animal abandonado e maltratado nas ruas de Boston. Já próximo da morte, foi encontrado por Clara, que utilizou seus conhecimentos arcanos para salvá-lo. A magia funcionou e a partir daí, Grim passa a atuar como guardião de Rowan e Clara.
Já Chron é a criatura esquelética alada ligada ao relógio presente na composição. Sua própria aparência reforça um dos conceitos centrais de “Cursum Perficio”: a passagem do tempo. Inegavelmente, o personagem também parece dialogar com a iconografia de “Persistence Of Time”.
Por fim, surge Father Andrzej Kowalczyk, padre de uma aldeia polonesa fictícia durante a Primeira Guerra Mundial. Em 1915, sua igreja é atingida durante um ataque e ele morre segurando firmemente um rosário. A história se conecta às misteriosas mãos que aparecem na arte e acrescenta outra camada de morte, espiritualidade e continuidade a obra.
1.3 A terceira camada: o próprio título
Cursum Perficio é uma expressão latina que pode ser entendida como “minha jornada chegou ao fim”, “minha jornada terminou” ou “eu completo minha jornada”. Charlie Benante encontrou a expressão assistindo a um documentário sobre Marilyn Monroe: ela aparecia em uma placa na casa da atriz em Los Angeles. Assim, o baterista contou que a frase imediatamente lhe pareceu adequada ao momento da carreira do Anthrax.
O curioso é que capa, título e personagens acabam conversando. Dessa forma, você tem Rowan, um homem que deveria estar morto mas continua caminhando; Clara, que abandona uma vida predeterminada; Grim, salvo quando sua jornada parecia terminar; Chron, literalmente relacionado ao tempo; e o padre Kowalczyk, cuja morte cria outro elemento sobrenatural da narrativa. Tudo orbita vida, morte, passagem do tempo e continuidade.
2. Destrinchando Cursum Perficio
Dez anos depois de “For All Kings”, “Cursum Perficio” chegou às lojas e plataformas de streaming no último dia 18 de setembro, através da parceria com a Nuclear Blast Records. O disco apresenta 11 faixas, sendo uma delas uma breve introdução. Ao longo do repertório, o Anthrax revisita diversos momentos da própria discografia, mas também encontra espaço para ousar e explorar novos horizontes.
A intro “Persistence Of Memory” cumpre bem o papel de ambientar o ouvinte, mas o álbum começa de verdade com “The Long Goodbye”. Embora não seja uma típica faixa explosiva de abertura, consegue cativar pela construção melódica e pelo refrão de fácil assimilação. O ritmo mais cadenciado remete a momentos encontrados em “Persistence Of Time”, originalmente lançado em 1990.
Na sequência, o single “It’s For The Kids” apresenta uma veia Thrash Metal pulsante e provavelmente deverá ganhar bastante destaque nos shows desta turnê. Um videoclipe foi disponibilizado no dia 15 de maio, e a homenagem ao hino “Madhouse” é evidente.
2.2 Entre melodias, peso e novas possibilidades
“Everybody’s Got A Plan” é outra faixa que ganhou videoclipe, mas, musicalmente, aposta em uma construção bem mais simples. O destaque fica por conta da energia contagiante e das linhas vocais de Joey Belladonna. Depois de poucas audições, é quase inevitável cantar junto os versos: “Everybody’s got a plan / That’s until they get punched in the face / In the face”.
Já “The Edge Of Perfection” segue pelo caminho oposto e aparece como a faixa mais longa e diferente do tracklist. Com quase sete minutos de duração, o Anthrax abre a música com um extenso trecho instrumental, incluindo blast beats de Charlie Benante em meio a coros de “ô-ô-ô”. Muitos fãs não entenderam a proposta de imediato, mas a composição logo mostra a que veio, graças às belas linhas vocais e a um solo impecável de Jonathan Donais.
Em “Infectious”, a aposta recai sobre um Heavy Metal mais simples e despojado, novamente acompanhado por outro solo inspiradíssimo. E vale abrir um parêntese aqui: este é, de longe, o melhor trabalho de guitarras de Jonathan Donais desde que entrou para a banda. Em vez de simplesmente despejar centenas de notas, o guitarrista constrói cada solo como se estivesse escrevendo um livro.
Além de técnicos, os solos são bonitos, melodiosos, fazem sentido dentro das composições e acrescentam camadas importantes às músicas. Em vários momentos, tornam-se tão relevantes quanto as próprias melodias principais, algo que valoriza ainda mais o trabalho de Donais ao longo do álbum.
2.3 O velho Anthrax ainda está lá
A próxima é “NYC 93”, e aqui encontramos aquele Thrash Metal veloz e desordeiro ao melhor estilo de “Among The Living”, incluindo os famosos “vocais de gangue”, uma das marcas registradas do Anthrax. É faixa para o fã nostálgico se esbaldar.
Na sequência surge “Cursum Perficio”, composição mais encorpada e recheada de camadas. A música acelera quando precisa, reduz o ritmo de maneira estratégica e, mais uma vez, estabelece uma ligação direta com “Persistence Of Time”. Destaque especial para o riff principal, daqueles que grudam na cabeça já nas primeiras audições.
Próximo do fim, “T.O.M.B.” — “Target On My Back” — chega para arrancar aquele sorriso de satisfação. Que música sensacional! A cozinha formada pelos exímios Frank Bello e Charlie Benante oferece um verdadeiro espetáculo, com direito a solo de baixo de Bello, assim como viradas insanas de Benante.
Scott Ian também se destaca com riffs e linhas poderosas, enquanto Jonathan Donais entrega mais um solo digno de ser colocado no panteão. Para completar, Joey Belladonna está simplesmente incrível, reforçando o ótimo momento vocal apresentado durante todo o disco.
2.4 Uma reta final à altura
As duas últimas são “Watch It Go”, uma das composições mais complexas do álbum e com direito a mais uma exibição de gala de Charlie Benante, e “My Victory”.
Esta última encerra o trabalho com uma música tipicamente Anthrax, reunindo características que acompanham a banda há décadas. É também mais uma daquelas faixas que certamente vão emocionar os fãs da velha guarda e reforçam como “Cursum Perficio” consegue olhar para o passado sem simplesmente viver dele.
3. Saldo positivo
A partir do retorno de Joey Belladonna, o Anthrax havia lançado dois álbuns muito bons e consistentes. Tanto “Worship Music” (2013) quanto “For All Kings” (2016) arriscaram um pouco menos do que o habitual para a banda. Ambos encontraram um equilíbrio entre o Thrash Metal e o Heavy Metal e, justamente por isso, alguns momentos de “Cursum Perficio” podem ter causado certo estranhamento.
Talvez o que tenha prejudicado um pouco a receptividade do novo trabalho nem seja sua qualidade musical, mas o tempo que ele levou para chegar e, obviamente, a expectativa criada durante esse intervalo. Dez anos é muita coisa. O fã que consumiu os dois discos anteriores provavelmente vive hoje um momento completamente diferente, pode ter passado por mudanças importantes no âmbito pessoal e, como a música funciona basicamente como a trilha sonora de nossas vidas, esse foi um longo período em que o Anthrax simplesmente não esteve presente com material inédito.
Musicalmente, porém, o Anthrax certamente entregou aquilo que se espera de uma banda veterana desse calibre. Todos os músicos estão em excelente forma, apresentando performances vigorosas e, tecnicamente, melhores do que nunca. O álbum é variado, equilibrado e altamente criativo. Não se repete, tampouco tenta recriar o passado de maneira forçada. A audição é imperdível e o choro é livre.
Nota: 9,2
Integrantes:
- Joey Belladonna (vocal)
- Scott Ian (guitarra)
- Jonathan Donais (guitarra)
- Frank Bello (baixo)
- Charlie Benante (bateria)
Faixas:
- 01 Persistence Of Memory
- 02 The Long Goodbye
- 03 It’s For The Kids
- 04 Everybody’s Got A Plan
- 05 The Edge Of Perfection
- 06 Infectious
- 07 NYC 93
- 08 Cursum Perficio
- 09 T.O.M.B.
- 10 Watch It Go
- 11 My Victory