Resenha: After Evolution – “War of the Worlds” (2022)

Esta indicação é gótica e também sinfônica: falemos de After Evolution e o álbum “War Of The Worlds” (2022).

É comum, de certa forma, imaginar que uma banda de Symphonic Metal apresente um som mais leve ou contido em relação aos dedilhados, solos e passagens com pedais duplos. Porém, quando há a junção com o Gothic Metal, adiciona-se uma obscuridade vampírica natural. Assim, tornando a sonoridade mais encorpada e presente.

Decerto, a linhagem sinfônica comporta caminhos mais densos e tempestuosos. Esta mistura de subgêneros é a receita ideal para levar o som a um patamar mais grave, atacando os alto-falantes com perspicácia. Além do próprio desejo em fazer um barulho no mínimo decente.

After Evolution / Bandcamp

Engrenagens do pergaminho sonoro do After Evolution

Esse ataque poderoso é oriundo da gloriosa República Tcheca, lugar em que o Metal merece ser mais e melhor reconhecido devido aos grandes talentos que descobrimos dia após dia vindos de lá.

Direto da região de Zlín, a banda de Symphonic/Gothic Metal, After Evolution, surgiu em 2013 e teve o seu debut lançado em 2016, nomeado “Threnodies”. Demorou seis anos, mas no dia 17 de junho a espera terminou com o lançamento de “War of the Worlds” via WormHoleDeath.

Contando com as guitarras pesadas de Michal Matzner, os vocais esplendorosos da magnífica Nikolette Olšáková, o pulsante e preciso baixo de Adam Bittó, além do kit potente, versátil e vibrante de Vítězslav Janás, a banda aposta na força de seu som e capacidade de manter o equilíbrio entre os subgêneros citados. Além de encantar com sua voz, Nikolette também assina as partes de teclado e piano.

Após toda a ficha técnica e roupagem sonora colocada à frente, certamente fica a sensação de que algo inédito e super valoroso está prestes a ser revelado, não é mesmo?

Ademais, o que resta saber é se de fato conseguimos encontrar uma pepita de ouro em meio à toda escuridão contida em mundo que privilegia a música pífia e obsoleta ao invés de abrigar bons valores. Portanto, vamos juntos encarar mais este teorema em forma de canções.

Os grandes pulsares de brilho exponencial

O disco explora uma grande guerra ancestral, que se desdobra em um conflito físico, repleto de magia, mistérios e um clima que passeia diante de várias camadas. Essa dungeon também recebe os reflexos de uma jornada de escuridão e sofrimento, culminando então, em esperança e vitória.

Riffs e melodias que ardem em batalha

O clamor das batalhas é inflamado pelas guitarras de Michal Matzner, grande entusiasta dos subgêneros destacados. O músico não relaxa e não se acomoda em uma fórmula já gasta e, mesmo sem jamais querer reinventar a roda, a torna muito mais atrativa com palhetadas precisas, riffs de ataque nos momentos propícios, e melodias igualmente certeiras.

Próximo ao final de “War of the Worlds”, temos riffs pesados, que se destacam por serem diferentes e bastante contundentes em relação ao andamento de “Dark Side”. Por ser uma música mais contida em questão de movimentação, a mesma oferece espaço para que Michal utilize sua sabedoria para encaixar acordes cheios em aliança com a condução precisa do baixo e o alicerce providencial da bateria. Nesse som, as quebras e mudanças rítmicas de bateria são colocadas de forma inteligente e moderada, sem se tornar o grande centro das atenções da faixa. Os solos são tocados nota por nota, dando ênfase às melodias lamuriantes, porém esperançosas, enquanto a vocalista desempenha papel fundamental para a trama.

“Você conhece o outro lado disso?
Parte de um livro, parte do destino…
Não consigo escapar deste sonho de loucura;
Preciso de alívio para esta dor!”

Densidade compensada e nivelada

Adam Bittó acrescenta peso e equilíbrio tão importantes quanto chegar ao trabalho na hora certa. Suas linhas de baixo são pontuais, sendo discretas nos trechos em que outros instrumentos devem prevalecer e mais abrangentes quando o ritmo oferece espaço e também pede mais densidade sonora.

Diferentemente de muitos discos de Metal sinfônico, o seu contrabaixo não coexiste como um ser vegetativo. Muito pelo contrário, pois este exige mais empenho do baixista. Contudo, não oferece nenhum tipo de exagero ou slaps colocados de forma proposital e sem sentido. Afinal, aqui o assunto é sério. Seus momentos mais brilhantes permeiam faixas como “The Path”.

A tensão assertiva das notas

Essa canção possui uma trama com mais densidade e groove, mas vira a chave no momento certo e oferece ao baixo de Adam mais protagonismo para conduzir a faixa, garantindo sua sustentação. Riffs de guitarra se alinham ao Gothic Rock, além do próprio Gothic Metal, promovendo uma junção forte e contribuindo para o avanço das cordas mais grossas. Os solos são distribuídos nota por nota, mas o baixo está cobrindo todos os espaços com grande habilidade e versatilidade, exigidas pela música.

“Afaste-se dessas
Ilusões e fantasmas
Estou perdido
Ao fim do caminho, não há nada a almejar
Nem graça
Através das areias do tempo
Veio a profecia
Sobre a libertação
Mas o medo se apoderou
De nossas mentes e
Aprisionou o povo”

Uma locomotiva repleta de artimanha

Vítězslav Janás possui um nome bem mais raro que o meu pelas bandas de cá. Portanto, sei que apelidos acabam sendo bastante cabíveis e eu poderia chamá-lo de Vitor. Mas, como estou apenas disseminando meu nanquim virtual, é mais fácil colocar o seu nome original em primeiro plano mesmo. Pois bem, o baterista tcheco é um músico incansável, empolgado, empenhado e habilidoso com seu respectivo instrumento. Sendo bastante técnico e criativo, sem soar afobado ou exagerado, ele empreende e executa suas ideias com muita precisão. Ou seja, Vítězslav tira o Symphonic/Gothic da zona de conforto e confronta as duas unidades, com o intuito de conquistar resultados favoráveis às músicas de “War of the Worlds”.

Suas linhas percussivas atravessam campos simplórios, quando preciso, ampliam o peso e o andamento mais incisivo, quando exigido. Também distribui blast beats nos momentos-chave, tornando a surpresa agradabilíssima. Essa dinâmica resulta em um baterista que não se cansa de gastar os pedais duplos, somado ao trabalho da guitarra, do baixo e também dos teclados.

Linhas de bateria preponderantes

“Liber Fortitudinis / The Book of Destiny” traz os mistérios de um destino que é colocado à prova. Os tambores intempestivos tornam o ambiente mais perigoso como um pântano amaldiçoado. Em seguida, o som ganha corpo e o baterista Vítězslav mostra do que é capaz, impondo uma surra formidável ao seu kit. O tilintar gélido e cristalino do piano de Nikolette oferece a dualidade ideal para uma composição que busca, ao mesmo tempo, soar épico, denso, veloz e técnico. Sua voz ajuda a dar o devido destaque para as linhas de bateria, já que seus vocais límpidos contrapõem a agressividade do setor percussivo.

Diria que este é um dos grandes momentos da obra, pois a guitarra e o baixo também se empenham ao máximo para engrandecê-la. Ao terminar de ouvir este som, digo que o bom destino está assegurado, somado ao ótimo e intenso refrão, além dos blast beats distribuídos com contundência ao término deste capítulo.

“Correndo entre os espinhos da escuridão
No abraço da loucura
Na floresta de segredos infinitos
No silêncio mais profundo
A meio caminho do nada e
a meio caminho da perdição
Encontrando a libertação perdida
Ao lado do mal”

Atmosfera obscurecedora e cintilante

A voz de Nikolette Olšáková pode encontrar outras linhas próximas, de acordo com cada ouvinte. Isso é totalmente normal, mas você observará que a vocalista canta com naturalidade e sem querer se parecer com ninguém. Não que sua voz seja completamente diferente de tudo que já se ouviu, pois passa longe disso. No entanto, essa naturalidade ajuda a encontrar identidade própria.

Sua voz é doce e voltada ao lado sinfônico, devido aos seus tons suaves. Recebe, por sua vez, ótimas camadas de melancolia e solidão – isso traz uma atmosfera mais obscura, misteriosa e impactante, mesmo que siga com tons leves como uma cortina de seda em contato com o vento noturno. Além disso, Nikolette também desempenha papel fundamental ao tocar teclado e piano. Suas linhas de teclado trazem o frescor de uma viagem em meio a essa guerra ancestral, porém sem prender os pés nas raízes das árvores dos piores clichês do estilo. Ao mesmo tempo, suas ideias adentram os vales sombrios da escuridão junto ao tilintar do seu piano.

O brilhantismo de Olšáková

Eis a difícil tarefa de destacar uma única música na sua voz, pois ela se destaca em todas as faixas. Mesmo assim, tenho sim um som em específico no qual Nikolette se sai ainda mais habilidosa do que em outros momentos do disco. Ao menos durante essa jornada por escrito, diria que “Nothing Left but Pain” é o som certo para você ser apunhalado pelos vocais da cantora, tecladista e pianista tcheca.

Com um clima de final da obra, a canção ganha terreno logo a partir dos seus primeiros segundos. É composta por tilintares finos em meio a um baixo robusto e guitarras que funcionam como um rangido de uma máquina em movimento. Além disso, o arrasto da carroceria percussiva garante o resultado nos primeiros metros percorridos. Não se trata de uma faixa veloz, tampouco super técnica. Ela é bastante eficaz e seu direcionamento é poderosamente compacto e necessário para a aproximação do término da jornada.

Seu refrão acena bem forte para os céus escurecidos e encontra no brilho das estrelas a verdadeira razão para existir dentro da obra. Contudo, faltou um solo no final para se tornar uma música fantástica. Mas ainda assim é um som e tanto.

“Não desista, rompa com toda a dor
uma alma ardente, ardendo aqui dentro
Ninguém vai me ferir, eu quero voar
Leve-me, leve-me para o céu
Erga-me das cinzas e dos sonhos despedaçados
Guie-me para onde devo estar
A luz do dia e a noite mais pura
juntas, formam essa visão perfeita”

Outros destaques em conjunto

A faixa-título e principal single do disco, “War of the Worlds”, traz um forte apelo à junção do sinfônico e do gótico. A música soa como o nascer do sol em meio a um aviso de que o dia será árduo, tamanha a batalha que está por vir. Seus primeiros segundos apresentam uma abertura em sinfonia, abrindo o caminho para a carruagem soturna tomar o espaço para si. Michal utiliza palhetadas em velocidade moderada para destacar o arranque sonoro e o importante apoio de seus parceiros de batalha. Embora Nikolette convença logo de cara que possui uma voz seminal para tal, o brilho que conquista o ouvinte é oriundo das linhas precisas de guitarra.

Entre destaques e surpresas após algumas dúvidas importantes

Confesso que o piano de “Cursed” me trouxe questões importantes quanto à sequência da jornada. No entanto, Nikolette e seus cavaleiros do anoitecer me disseram em verso e música para que eu não me assustasse e visse que tudo está encaixado nos devidos lugares. Ou seja, sem aquela perda de tempo que muitos discos de Metal sinfônico carregam, como se fosse obrigatório enfiar uma balada sem sal e sem açúcar no meio do álbum.

Entretanto, aqui o som funciona de um jeito muito bom sem que fique com aquele gosto de comida mal feita e ainda temos um solo com gravata borboleta preta muito elegante.

“Infinity Flames” cumprimenta a faixa de abertura e apresenta fórmula semelhante, mas com outros detalhes tão surpreendentes quanto. A música traz em primeiro plano a voz de Nikolette, que sabe lidar com nuances mais velozes e momentos mais contidos, além das tensões exercidas ao redor da obra. Vocais guturais ampliam essa tensão importante para o som, enquanto o arquétipo sinfônico ao fundo oferece camadas de fantasia e junção entre céu e inferno.

Ainda sobre as linhas vocais guturais, temos uma semelhança muito boa com os vocais de Felix Stass do Crematory. Ou seja, isso torna o som ainda mais tempestuoso e ótimo de se apreciar.

“War of the Worlds”: disco conciso e sem muita extravagância

Conforme visto nos parágrafos anteriores, “War of the Worlds” apresenta um formato tranquilo de ser conferido, absorvido e analisado, sem que fique qualquer rastro de dúvida sobre a sua colocação. O segundo álbum dos tchecos oferece o melhor dos dois mundos, embora tenha maior ênfase na parte sinfônica da coisa. Desse modo, podemos apreciar o que realmente esse subgênero pode oferecer. Entendo que, para ter uma melhor noção sobre determinada ramificação do Metal, é preciso que bandas lancem discos fora do expoente mais comercial e enlatado. Sob essa perspectiva, pode-se observar com mais clareza o que o estilo tem realmente a oferecer.

Não digo que esse álbum seja um farol para angariar novos e vários ouvintes, até mesmo pelo pouco alcance que o After Evolution possui no momento. Todavia, de fato, é um trabalho com importante preponderância para quem deseja conhecer trabalhos que vão além de um compacto sinfônico, sem peso e sem alma, do qual vemos muito por aí.

Portanto, você poderá apreciar a guerra ancestral ao som do After Evolution.

“Now I will change all shards and sorrow to the ashe
Light hope on sky follow your heart and change your mind
Touch to your soul promise me you wont let it go
THE VICTORY”

Nota: 9,0

Integrantes:

  • Michal Matzner (guitarra, baixo)
  • Nikolette Olšáková (vocal, teclado, piano)
  • Adam Bittó (baixo)
  • Vítězslav Janás (bateria)

Faixas:

  1. War Of The Worlds
  2. The Path
  3. Cursed
  4. Liber Fortitudinis / The Book Of Destiny
  5. Once Upon A Time
  6. The Final Hope
  7. In The Chains
  8. Dark Side
  9. Infinity Flames
  10. Nothing Left But Pain
  11. The Victory
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