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Resenha: Abbath – “Dread Reaver” (2022)

Desde que saiu do gigante Immortal, Olve Eikemo, mais conhecido como Abbath, seguiu seu caminho e se mostrou mais livre para compor o que realmente desejava. Essa é a sensação quando temos alguém que saiu de uma banda e resolveu montar outra, incluindo o seu codinome como parte principal, ou seja, tornando-o também nome do projeto. E um projeto que acaba de chegar ao seu terceiro disco de inéditas não pode ser chamado assim. É a nova banda do “Abbacathinho da massa” (leia com som de “T”) e ponto final. Exclamação!

   

Seus discos anteriores, “Abbath” (2016) e “Outstrider” (2019) surpreenderam muitos adeptos, enquanto alguns mentecáptos torceram o nariz e as pregas para tais trabalhos, muito por conta do humor do músico e também por considerarem de valor apenas os álbuns gravados com o Immortal. Abbath parece não se importar muito com isso e segue tão empenhado que acabou de fechar seu primeiro tridente de artefatos circulares do submundo.

Francisco Munoz

Para um dos guardiões mais conhecidos e destemidos do Metal negro era necessário o fechamento das três pontas de seu tridente musical. Logo, o norueguês não poupou esforços e, mesmo com o mundo em completo caos e paralisia por conta da pandemia, seguiu em frente. Agora, cá estamos diante de seu mais recente trabalho a ponto de iniciarmos mais uma jornada em busca de conhecimento para saber esta nova ponta de lâmina circular está bastante afiada ou se pode ser comparável a uma faca enganosa vendida numa feira. Via Season Of Mist, “Dread Reaver” foi lançado no dia 25 de março. Produzido por Endre Kirkesola, Abbath e Dag Erik Nygaard no Dub Studio em Kristiansand, e no Bergen Lydstudio em Bergen. A arte da capa assinada por Bjørn Stian Bjoarvik, e as fotos tiradas por Francisco Munoz. A mixagem ficou por conta da dupla Abbath e Kirkesola, e Maor Appelbaum (Faith No More, Halford) fez a masterização do disco na Maor Appelbaum Mastering, Los Angeles.

Ao iniciar a jornada pelo universo sem luz e repleto de almas torturadas por toda a eternidade, entraremos em um formato diferente ao retratar logo de cara os principais pontos desta nova obra antidivina de Abbath e seus gárgulas do submundo. Um deles é o fato de que os singles lançados possuem muita força dentro do álbum, ofuscando ao menos o início do disco. O outro fato destacável é que a parte final do álbum ganha sobrevida e torna o passeio bastante agradável para o cavaleiro galopar pelos pântanos sombrios sem medo de ouvir algo ruim. Não existem músicas ruins em “Dread Reaver”, apenas a sensação citada, apesar disso ser bastante normal ao analisar um trabalho por completo. Existem fórmulas usadas a exaustão em determinados momentos e em outros a criatividade toma conta do certame. E antes de abrir o leque, vale ressaltar que “Dream Cull” poderia muito bem abrir o tracklist. A seguir saberemos o motivo disso.

Dread Reaver/Divulgação

“Acid Haze” é o nome da escolhida de Abbath para iniciar a jornada sonora… Sabe quando você está escutando algo e ao mesmo tempo tem a sensação de que esse algo já se passa a algum tempo? Uma breve introdução que simula a abertura de um vórtice, entrega a este plano a banda “in action”, já tocando a pleno vapor. Com o comboio em andamento, a sonoridade cresce até ficar diante de seus ouvidos em seu formato original e com direito a breves solos de guitarra. Em determinado momento da faixa, acontece um líder recitar versos em voz grave, deixando sua guitarra base em silêncio por este período, e retornando ao seu posto logo em seguida, ao mesmo tempo em que dedilhados cadenciados e graves enfeitam a plumagem sonora, até que o modo tradicional linear toma a canção de encontro novamente. “Na ‘ruína lítica de Hattusa / Nos túmulos abaixo de Lagash / Nas entranhas dos zigurates afundados / Mundos perdidos me esculpem como um chicote” – um paliativo para entrar no universo de Abbath e entender um pouco sobre o que recitado pelo assecla da desolação. Após esse momento temos o ímpeto sonoro invadindo o cenário e despejando a névoa ácida com mais força. A fórmula se repete “Scarred Core”, mas dessa vez não temos o crescente volume da música, e sim a mesma indo direto ao ponto sem nenhum tipo de introdução ou diferencial em seu início. Em determinado momento, as guitarras silenciam e abrem espaço para a bateria entrar em primeiro plano. Ambos os formatos seguem os moldes mais retilíneos, embora a segunda possua um solo bastante técnico e que passa o clima gélido dos alpes. Abbath utiliza a técnica de vocal conhecida como canto gutural mongol e se sai bem, dando um toque de novidade ao som em formato mais linear e acobertado pelo baixo potente de Mia Wallace, apesar dos solos de guitarra, que tanto na primeira quanto nesta faixa, demonstram boa qualidade. Só não se sobressaem tanto devido ao formato sem muitas viradas de bateria, que por sua vez, permanece com suas marteladas contínuas, mostrando que o vigor de Ukri Suvilehto está em alta. Os versos contam sobre algo/alguém/criatura de outro plano se sobressair perante todas as circunstância e a melhor parte disso é quando é dito que…

“Too rock ‘n’ roll to die”

Eis que aquela que poderia estar como faixa de abertura do disco chega para tomar o local de assalto. “Dream Cull” é um dos singles lançados pelo Abbath e que merece devido destaque. A novidade acontece logo em seu princípio com violões tempestuosos ditando o ritmo ao abrir as cortinas para o caos sonoro. Por esse começo ela ganha cara de faixa de abertura, conforme fora mencionado. Provavelmente se você ouvir novamente essa faixa, esquecerá das duas anteriores facilmente. A criatividade a serviço do mal se alojou nesta canção, livrando-a do formato reto e simplório, e oferecendo uma gama de ritmos dentro da trama e coniventes com o Black Metal gélido e afiado como estalactite. Sendo assim, é na véspera de inverno onde tempestades incessantes invadirão as paredes rangentes por conta de fendas causadas pela ventania dos riffs e solos de guitarra. As correntes que ancoram os oprimidos se apertam durante a passagem do contrabaixo por toda a canção, destacando os salões monolíticos.

“Myrmidon” chega com um breve ímpeto Hard, mas que descamba para o seu tradicional Black Metal sujo, maquiavélico, porém com o mesmo modelo de som das suas primeiras canções. Você percebe as duas guitarras se encontrando através das bases e dos diferenciais oferecidos por uma delas, ou seja, a guitarra solo de Ole André Farstad. “Leve-me em cima do meu escudo / Em solo manchado de vermelho de sangue coagulado / Caia em nossas espadas antes de nos rendermos / Enterre meu cadáver no campo de batalha – a honra não pode ser derrotada. Jamais. “The Deep Unbound” utiliza e abusa dos moldes já gastos no álbum e mesmo com lances até diferentes das demais, não consegue sair do plano utilizado em canções já citadas. O mar envolto está repleto de marinheiros açoitados durante a batalha naval, e que resultou em velas sendo feitas com pele de corsários, bastardos encalhados e naufragados, cadáveres enforcados com suas próprias entranhas. O caos das guitarras reina nas sombras mudando com as marés do contrabaixo, entre a sucção e a onda, rochas irregulares estão acenando aos atos percussivos da bateria, enquanto na crista do mergulho das ondas, as ondas sonoras forçarão um acerto de contas. “Septentrion” possui uma pequena intro e logo mergulha no lado extremo da coisa, mas com breves variações que acabam por elevar a canção a patamares mais amplos, porém sem tanta ênfase ao citar sobre os ventos do norte, enquanto o oceano impiedoso levanta para se vingar de toda a infestação mundana.

Aqui está a tríade mais poderosa do álbum!

O primeiro dos três mísseis do fim do mundo carnal atende por “Trapped Under Ice”. Nome família para vossa honrosa persona? Está certíssimo, pois se trata de um cover para a canção original do Metallica, faixa pertencente ao magnífico álbum “Ride The Lightning” de 1984. A versão Black Metal ao melhor estilo Abbath caiu como uma luva de couro de primeira linha tanto com relação à música escolhida como também em questão do próprio álbum. Melhor que a original ela ficou? Creio que as criaturas dos sete reinos perdidos ficaram surpresas e muito contentes com o resultado! Na sequência, apresento-lhe “The Book Of Breath”, faixa esta que após poucos segundos de mistério, entra com os oito pés no portão principal da capela da santíssima trindade, rachando as estruturas do pai, filho e espírito insano. Com disposição para construir diversas variações rítmicas, a canção se eleva ao apresentar também um pano de fundo coberto de chamas espalhadas por foles. Ao inalar o livro da respiração: “Derreta a fissura do núcleo / Na pilha de escória de ferro / O vapor cobre a forja / O rosto do demônio olha de volta / Eles ouvirão o rugido do Inferno! / No resplendor da brasa / Cauterize nossos cortes chorosos / Lave nossa sujeira com cinzas.”

Finalizando a centrífuga musical do projeto solo de Abbath que deu mais do que certo, temos o outro single que foi lançado primeiro. Trata-se de “Dread Reaver”, faixa esta que deverá e merece muito fazer parte do setlist dos shows da banda de agora em diante. O prenúncio do general do inferno após os breves estalares de percussão serve como cartão postal para mostrar o que está por vir. Já bem diferente dos modelos simples de levada agressiva, a canção aposta em variações dentro do montante extremo do som. Mais cadenciada em seus versos, destacando o baixo da competentíssima Mia Wallace, e acelerando a carroça fantasmagórica nas pontes e refrãos, o demônio se destaca ao incorporar em Abbath o ser malígno. Em uma estrada de cadáveres alinhada com andaimes improvisados, está uma esteira letal de kobolds famintos.

Uma coisa a ser dita sobre o álbum “Dread Reaver”, complementando o comentário inicial sobre o seu formato é que de fato poderia soar melhor se optassem por outra faixa de abertura. Além disso, os sons mais retos ficaram ofuscados em relação aos sonetos mais trabalhados e variados por estarem muito juntos. Não existem canções negativas e todas possuem potencial para serem tocadas ao vivo. Basta Abbath estudar uma forma bacana de introduzir seus novos sons em um setlist de show para que dê realmente certo como o dono do nanquim virtual presume. Após a saída definitiva do Immortal, sua banda do coração, Abbath seguiu sua vida e acaba de alcançar um grande êxito, ou seja, lançar a sua primeira trinca de discos com seu novo projeto que já é mais do que realidade no cenário da “múzga” extrema. Se Olve Eikemo trabalhar as sonoridades mais espessas e com mais nuances, poderemos estar diante de um futuro quarto disco com ótimas e gratas novidades. Além do mais, o pano de fundo montado através da magia das notas de órgão tocadas por Endre Kirkesola foram de grande valia para a obra como um todo. Sendo assim, vale curtir o bom e honesto “Dread Reaver”!

Glossário:

Kobolds: Um kobold é um sprite. Se espalhou por toda a Europa, ganhando várias formas, incluindo diferentes escritas como goblin e hobgoblin, na qual mais tarde acabou por se enraizar no folclore, derivando da mitologia germânica. Isso fez com que o ser mitológico pudesse sobreviver até os tempos modernos no folclore alemão.

“Icon of the ages
Make my way with will
Favored by the sages
Tempered in the furnace
Flames fanned by bellows
Of a breath infernal.
Hammer and anvil
Beat impurities from ore”

   

Nota: 8,3

Integrantes:

  • Olve “Abbath” Eikemo (vocal, guitarra, baixo)
  • Ukri Suvilehto (bateria)
  • Mia Wallace (baixo; faixas: 1,2,5 e 9)
  • Ole André Farstad (guitarra solo, violão)

Artista convidado:

  • Endre Kirkesola (órgão)

Faixas:

1. Acid Haze
2. Scarred Core
3. Dream Cull
4. Myrmidon
5. The Deep Unbound
6. Septentrion
7. Trapped Under Ice
8. The Book Of Breath
9. Dread Reaver

Redigido por Stephan Giuliano

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