Resenha: Αχέροντας (Acherontas) – “Malocchio ​-​ The Seven Tongues of Δαημων (Daemon)” (2022)

Os gregos do Αχέροντας (Acherontas) lançaram em 2022 mais um trabalho repleto de camadas. Portanto, cá estamos para decifrar esse papiro.

Hellas, ou para nós ocidentais, Grécia… Terra de tantas batalhas, conquistas e reviravoltas históricas… Lugar de figuras emblemáticas das quais influenciaram o mundo inteiro… Conhecimento, filosofia, mitologia, matemática, estudo sobre o universo… Jogos olímpicos!

Entre tantas outras coisas envolvendo diversas áreas, a Grécia possui ligação. Quanto ao Heavy Metal, o país alvianil possui muita história para contar… E quem nos traz novos relatos sobre o subgênero mais sombrio e macabro é o batalhão a serviço do Black Metal. Seu nome? Αχέροντας. Dessa forma, traduzindo para o ocidente: Acherontas!

Αχέροντας (Acherontas)/Divulgação

Αχέροντας (Acherontas) – as chamas negras helênicas

O Acherontas é oriundo de Athenas, Ática. Iniciou as atividades em 2001 e seguiu até 2021 com a nomenclatura ocidental. A partir de então, a banda aderiu o seu idioma natal ao se auto proclamar como Αχέροντας. Contudo, trata-se do mesmo nome, conforme podemos observar.

Logo em seu primeiro ano de existência, os combatentes helênicos lançaram seu debut intitulado “Tat Tvam Asi (Universal Omniscience)”. Em 2025, foi lançado o álbum “Νekyia – The Necromantic Patterns”, décimo trabalho de estúdio da banda. No entanto, o disco a ser destrinchado é o penúltimo (até então) e aquele a qual possui características bem específicas.

“Malocchio ​-​ The Seven Tongues of Δαημων” foi lançado no dia 14 de março de 2022 via Zazen Sounds. O álbum apresenta um total de 7 faixas. Além disso, o material contém a agressividade e a tensão do Metal extremo grego.

Indo de encontro às entidades

Como um feroz, impiedoso, nefasto e dedicado exército do Metal Negro, as canções homenageiam grandes figuras mitológicas, as quais assombram as mentes mais vãs de todo o território terráqueo. Destacadas algumas características, o álbum foi mixado, masterizado e teve a sua engenharia feita por George Emmanuel.

Agora, fique a postos, pois veremos tais nomenclaturas assim que as trombetas oriundas do submundo darem o devido sinal de “sangue à forra”.

O eterno filho da luz

A abertura do novo papiro carbonizado pelo poder ancestral traz ao palco da música malevolente o eterno filho da luz, que sofreu a mais famosa punição divina. Batizada de “Lucifer – Breath of Fire”, a faixa inicia o primeiro capítulo da obra de forma amedrontadora, impulsionada por uma fala contundente e intimidadora.

Sobesseprisma, o vulcão submerso entra em erupção e jorra lavas de palhetadas quase ininterruptas, até que o som muda de direção rumo a uma sonoridade mais carregada e lamuriante. As melodias emulam pingos de vela derretida tocando a pele. Subsequentemente, o ritmo mais incisivo vem à tona e provoca rachaduras imensas nas estruturas cranianas ao lidar com tamanha frequência sonora.

Surge, em tal conjuntura, um modelo próximo ao do Mayhem atual, que alterna o cântico em púlpito com as alamedas mais extremas do Black Metal tradicional. Não satisfeita com o resultado, a banda entrega uma nova encomenda de melodias gélidas em meio às bases infernais. Próximo ao minuto final, uma bateria rápida, porém singela, soma-se aos desencantos de melodias com solos angustiantes e torturantes, evocando as linhas que a banda 1349 explora com maestria.

O ser dominante dos mares

Eis que, dos mares raivosos com ondas triunfantes, surge “Leviathan – The Fervent Scales in Reverence”.

A segunda faixa inicia os trabalhos de modo incendiário, enquanto a pancadaria dos bumbos duplos e os blast beats incessantes provocam e elevam chamas até os primeiros versos. Paralelamente, riffs fatiados e medidos de forma intrínseca abrem espaço para que a bateria complemente a estrutura com maestria. Nesse instante, a música arremessa o ouvinte em um túnel repleto de vozes aprisionadas, preparando-o para digerir os riffs elásticos e quase imparáveis que conduzem ao fim de tudo.

Com efeito, a bateria retoma seu plano mais revoltado e instaura uma dualidade logo no trecho seguinte. Os vocais emulam as súplicas e críticas características de Nergal, do Behemoth. Em contrapartida, a sonoridade rompe a velocidade e impõe melodias entristecidas e envelhecidas, conferindo um toque angustiante à trama. A crítica ganha tons de sacrifício e encerra a composição.

A terceira ordem de Belial

A terceira criatura famosa e poderosa, capaz de empalar sua alma e incinerar seu livreto de orações até reduzi-lo ao pó, é simplesmente “Belial – The Enn of Beliya’al”.

Eis que a marcha fúnebre inicia sua jornada e rasteja diante de notas gotejantes, afiadas como um punhal banhado em sangue. Dessarte, o instrumental evoca um encontro de camadas proferidas por Besatt e Mystic Circle, cujo resultado estabelece um diálogo profundo e refletor de nuances que regem rumo ao subsolo espiritual.

Ademais, uma pausa estratégica abre um clarão através de um pano de fundo condizente e apocalíptico. As guitarras e o baixo inflamam chamas negras ardentes, servindo de combustível para acelerar a bateria. Por essa vertente, irrompe um momento de pura tensão e mistério: os versos quebram as vidraças da catedral e o ímpeto mais agudo despeja todo seu agouro perante os ditos puros, até que a entidade máxima finalmente se manifeste.

O exaltar da não-existência

A figura máxima do inferno encontra sua representação em “Satan – Exaltation of Unbeing”.

Dedilhados próximos ao Heavy Metal tradicional tomam a cena de assalto em favor da quarta faixa. Essa abertura contrasta fortemente com a fúria sonora executada em sequência. Sob essa ótica, a banda evoca uma espécie de Azaghal e Besatt nos trechos velozes e esmagadores, ao passo que as partes mais melodiosas alinham-se ao Dark Funeral e a outras hordas dos conglomerados mais pútridos e técnicos do Metal das trevas.

Nada obstante, a súplica e a revolta vocálica ganham terreno e reforçam melodias mais robustas e imponentes. Conquanto esse trecho me desprenda um pouco da atmosfera, ele acaba por ofuscar o brilho dos solos soturnos.

O Alinhamento das Casas da Causalidade e dos Reinos Caídos

Diante do quinto capítulo, testemunhamos os versículos de “Choronzon – Webs of Alienation”. A composição descreve a jornada espiritual de um iniciado que transcende a lógica humana, pondo à prova a resiliência entre o mundo material e a jornada cósmica para, por conseguinte, ascender ao caos primitivo. O Grande Ancião e o Abismo figuram como pontos estratégicos dessa odisseia rumo à autodeificação. Imediatamente, a sonoridade se projeta de modo vagaroso e introspectivo, assemelhando-se à contemplação do nascer do sol.

A caminhada inicia sua marcha de forma profana e contundente, qual verdadeiro prenúncio de um ritual cósmico e hermético. Nessa perspectiva, a estrutura sonora tece tranças em suas notas e destaca as melodias em moldes do costumeiro tremolo. Esta técnica tradicional confere à bateria um ímpeto maior, impulsionando-a em direção a um andamento conciso, movimentado e contínuo. Ulteriormente, uma pausa estratégica introduz a narração abismal e confere um peso avassalador ao som, agora ditado por compassos sólidos e mais espaçados, sem que as guitarras se desprendam da proposta inicial.

Frequências médio-agudas e enigmáticas ditam o tom cósmico essencial para este capítulo, migrando rumo ao cenário mais catastrófico e extrafísico que se possa conceber. Dedilhados correm soltos e, juntamente a isso, recebem a companhia de camadas mais extremas e extensas. Como resultado, o desfecho manifesta-se de forma simples e direta, moldando, pelo próprio fato, o princípio de tudo.

Deusa Hécate, a Mãe Draconiana

O penúltimo passo para o abismo recebe o batismo de sangue com “Hecate – Queen of the Crossroads”. Esta música do Acherontas funciona como um hino litúrgico e invocatório dedicado à deusa Hécate, no qual o eu-lírico busca abandonar sua natureza profana para se alinhar aos mistérios ctônicos da deusa da noite e das encruzilhadas. Sob esse manto, a sonoridade manifesta-se de maneira transcendental por meio de um plano de fundo que evoca o ar e a sensação do caos primordial.

Súbito, a música projeta o ouvinte diante de um som alarmante, repleto de energia emanada das profundezas da não-existência. A partir daí, as notas perseguem o caminho para a encruzilhada, unindo-se a estruturas congelantes que remetem a hinos e ritos antigos. A invocação da deusa ocorre por entre as notas contínuas de baixo, em parceria com guitarras que simulam uma lava borbulhante e caótica.

Nesse compasso, o ritmo reduz a intensidade e sustenta um estado de êxtase, partilhando a escalada através do abismo que divide o plano carnal do astral, o que impulsiona a evolução da natureza antiga. Em seguida, solos limpos surgem para reger e orquestrar a atmosfera, conduzidos por vocais ritualísticos que intimidam e conclamam o acontecimento transcendental.

A deificação do Dragão

O passo apoteótico é liderado por “Δρακων – Αpotheosis”.

Enfim, chega a tão aguardada hora da ascensão da grande besta, que inicia definitivamente a passagem além da mortalidade. Nesse momento, a Serpente Interior desperta no ventre de Hécate e finalmente ascende, transformando o iniciado. A música, por sua vez, exala uma atmosfera opressiva que beira o ritual sombrio e fúnebre.

Ao contemplar o movimento das cortinas musicais, vislumbramos em nossa mente o nascimento da criatura transcendental. Bateria e guitarras tremulam em favor de uma apoteose dramática e significativa para o grande início após o fim.

Por esse caminho, o sacrifício da consciência mortal abre caminho para a embriaguez imortal através de um ímpeto sonoro intimista, o qual atinge o autoconhecimento e converte o iniciado no próprio dragão. Em outros termos, o indivíduo torna-se o seu próprio deus mediante notas isoladas, densas e carregadas de lamúria, com bumbos duplos conectados ao desfecho do transcender ctônico. Por fim, blast beats brutais forçam o universo a realocar as próprias leis divinas.

Sobre um dos nomes daquela que fecha as cortinas para essa nobre peça, Δρακων (Drakon / Drácon) representa uma imensa serpente, uma criatura ctônica oriunda do subterrâneo. Sendo assim, ela é dotada de extrema sabedoria, visão aguçada e guardiã de mistérios sagrados.

Αχέροντας (Acherontas)/Divulgação

Considerações helênicas e draconianas finais

De forma emblemática, o Acherontas aposta em toda sua grandiosidade sonora, buscando unir todos os elementos aos quais desenvolveu ao longo de sua trajetória, tornando o escopo da obra algo magnífico de se explorar. O fim dos tempos é sentido desde o primeiro giro do artefato sonoro, possibilitando a imersão do ouvinte junto ao clima catastrófico e hostil, elevando ainda mais o panteão maléfico da horda helênica.

Seus atributos unidos ao próprio conteúdo história de sua pátria, oferecem um estudo bastante intrínseco em meio ao estrondo organizado e realizado por seus instrumentistas. Os últimos anos proporcionaram gratas e ricas audições voltadas para o Black Metal e quanto aos gregos, fica cada vez mais notório o espaço conquistado por amplo merecimento.

Como resultado, o Acherontas é um deste valiosos times que devem ter suas obras apreciadas sempre que possível. E, consequentemente, tu estarás inserido no formato grego de estremecer as colunas do submundo.

Nota: 9,2

“Mother and triune Goddess
Womb and eternal Priestess of the Silver Stars
Immerse my weak flesh
in the nectar of your Majesty
initiate me in the Realms of the Chthonic Mysteries

Your Revelation,
The Harvest of the ignorant Ego
The culmination of the Inner Serpent
in Eternity!”

Integrantes:

  • Hierophant (baixo)
  • Saevus H. (guitarra)
  • Indra (guitarra)
  • V. P. Sorcerer (vocal)

Faixas:

  1. Lucifer – Breath of Fire
  2. Leviathan – The Fervent Scales in Reverence
  3. Belial – The Enn of Beliya’al
  4. Satan – Exaltation of Unbeing
  5. Choronzon – Webs of Alienation
  6. Hecate – Queen of the Crossroads
  7. Δρακων – Αpotheosis
Deixe seu comentário