“Quem só ouve coisas antigas é preguiçoso pra caramba”, diz Iggor Cavalera

reprodução/youtube

Recentemente, em julho, o ex-baterista do Sepultura, Iggor Cavalera tocou como apoio no show dos pioneiros do Death Metal de Botsuana, Overthrust, na primeira passagem dos africanos por Londres, no Reino Unido.

Iggor Cavalera conversou com a Metal Hammer e falou sobre como conheceu a banda Overthrust, além é claro de refletir sobre o metal global, seu papel na hostória do metal e sobre as novas bandas que estão surgindo.

Questionado se sente uma conexão inerente com bandas bandas do sul global, ele comentou:

“Crescendo em um lugar como o Brasil — e eu ficaria surpreso se não fosse a mesma coisa em Botsuana —, culturalmente sempre houve uma sensação de: ‘Ah, eles fazem melhor’. Mas nós sempre pensávamos: ‘Foda-se. Vamos fazer isso com a mesma força de qualquer banda dos EUA, Reino Unido ou qualquer outro lugar’.

Para mim, esse foi um dos principais motivadores. É uma das coisas de que mais me orgulho agora na minha herança: poder ver bandas do mundo todo fazendo músicas incríveis.”

Iggor contou como conheceu a Overthrust:

“Eu pesquiso bastante e o Bandcamp é uma das minhas ferramentas favoritas. Muitos projetos e bandas que não têm uma gravadora ainda colocam suas músicas lá, e é diferente do Spotify ou algo assim. Alguns amigos muito bons me mandam coisas, e um deles me mandou o Overthrust dizendo: ‘Você precisa conferir isso’. Foi muito legal ver.”

Ele também falou sobre o que torna a Overthrust uma banda especial:

“O Overthrust está ultrapassando os limites. No Brasil, especialmente no início dos anos 80, tudo girava em torno do samba – ninguém falava de metal. Tocar metal no Brasil naquela época era inédito.

Isso me lembra de quando o Sepultura começou. Não tínhamos formação em artes, então fazíamos sem medo. Já na Europa, quando pintavam, pensavam em toda essa herança e nas coisas associadas a ela.”

Relembrando a chegada do Metal o Brasil, Iggor foi perguntado se o Metal já apareceu nas rádios logo que chegou no país:

“Não, não era rádio. Era basicamente troca de fitas – você recebia uma fita, trocava com amigos e, por meio dela, descobria uma nova cena de bandas. Às vezes, recebíamos uma fita dublada duzentas vezes, então soava uma merda, com a qualidade cada vez pior a cada cópia, até soar mal. Às vezes, era realmente decepcionante ouvir a original! ‘Minha fita soa melhor que essa!’

Alguém dublou o EP Haunting The Chapel do Slayer para nós, e fez na velocidade errada – deveria ter sido 45 RPM, mas fizeram na velocidade normal. Então, soou tão lento que por meses achamos que o Slayer tinha enlouquecido ou algo assim!”

Perguntado sobre como se sente sabendo que o Sepultura é creditado por ser um dos reponsáveis por dar origem ao metal global, ele comentou:

“É isso que me orgulha: que bandas consigam seguir o que fizemos. Não apenas musicalmente, mas também em atitude. Esse é o futuro da música. Quem só ouve coisas antigas é preguiçoso pra caramba.

A primeira vez que saímos do Brasil, as pessoas ficavam tipo: ‘Que diabos é isso?’. Estávamos expandindo os limites da música. E eu ainda estou. As pessoas me conhecem pelo metal, mas isso é uma coisa de noise experimental. É tudo uma questão de conexão. Estávamos conectando o Brasil ao Japão, a todos os lugares. Quero manter minhas antenas abertas para coisas novas.”

Questionado se tem algum sentimento de estranheza que o Sepultura tenha se tornado os padrões do metal global, ele respondeu:

“Não é estranho, mas é muito gratificante. Acho que as bandas divulgam a música da mesma forma que nós fizemos – imagino alguém dizendo: ‘Olha essa banda, eles se chamam Sepultura e são do Brasil’. Você diria: ‘O quê? Não tem metal no Brasil!’. Isso nos diferenciava de uma forma estranha, mas eu gosto disso.

Se encontro algo um pouco fora do comum, costumo prestar um pouco mais de atenção. Não ouço algo só porque é de algum lugar especial, mas entendo a dificuldade de não ter bons estúdios, casas de shows ou qualquer outra coisa.”

Ele concluiu dizendo:

“O metal tem uma linguagem própria. Quando tocávamos no Brasil no início dos anos 80, era exatamente assim que queríamos nos comunicar: pegando a distorção e as batidas de um Sabbath ou Motorhead e encontrando nossa própria maneira de expressá-las.”

Deixe seu comentário
Sair da versão mobile