Quando um ícone flerta com o futuro: Pete Townshend (The Who) pretende ousar e criar músicas com IA

O lendário guitarrista Pete Townshend, cofundador do The Who, reacendeu um debate essencial ao revelar, em recente entrevista, que considera usar inteligência artificial para dar vida a ideias musicais nunca finalizadas. Durante sua participação no programa The Late Show With Stephen Colbert, questionado se é verdade que ele tem “músicas inéditas guardadas, prontas para serem lançadas”, Pete respondeu:
“Sim, eu tenho cerca de trezentas e cinquenta, quatrocentas e cinquenta peças musicais. Agora, muita coisa provavelmente é terrível. Consegui vasculhar cerca de metade disso.”
Quanto à possibilidade de os fãs eventualmente ouvirem esse material, Pete disse:
“Eu não sei o que fazer com isso. Também estou bastante interessado em IA. Tenho muito interesse em pegar algumas das minhas músicas antigas que não funcionaram muito bem porque eu não acertei da primeira vez e colocá-las no Suno [uma plataforma de IA generativa que cria músicas a partir de comandos de texto enviados pelo usuário] ou algo assim, alguma máquina de música com IA, e ver o que ela pode fazer com isso. Pode ser que saia algum hit.”
Assim, Townshend expõe sua inquietação criativa e abre caminho para uma discussão relevante: até que ponto a tecnologia pode complementar — ou transformar — a expressão artística.
Quando a tecnologia se encontra com a inquietude criativa
Ao longo dos anos, o músico já havia antecipado essa curiosidade. Em 2025, afirmou ao The Times que, se pedisse a uma IA para escrever canções ao estilo que compunha nos anos 1970, muitos fãs ficariam satisfeitos. Esse interesse não se limita a mero experimento técnico; ele nasce de um artista que, embora reconheça a tradição que construiu, continua disposto a revisitar o passado de forma inventiva. Além disso, Townshend já admitiu em outras ocasiões enxergar a IA como ferramenta promissora. Ele admite que mesmo cercada de alertas sobre o risco de se tornar o “motor da máquina”, ainda assim deve ser considerada.
Essas reflexões ganham ainda mais força quando lembramos que o guitarrista sempre se destacou pelo olhar visionário. Autor de centenas de músicas para o The Who e para sua carreira solo, ele nunca se limitou ao convencional. Por isso, a ideia de revisitar arquivos musicais acumulados ao longo das décadas — cerca de 400 peças inacabadas — torna-se não apenas compreensível, mas também intrigante.
Afinal, a IA pode oferecer uma nova perspectiva sobre esses rascunhos, revelando melodias e estruturas que talvez tenham escapado ao compositor durante sua primeira abordagem?
Sim, a inteligência artificial pode, sem dúvida, oferecer uma nova perspectiva a esses rascunhos. Ela pode reorganizar ideias, sugerindo caminhos harmônicos e até resgatando nuances que Pete Townshend talvez não tivesse percebido em suas primeiras tentativas. Contudo, mesmo reconhecendo esse potencial, é preciso lembrar que parcela significativa da comunidade do metal rejeita tal prática. Sendo assim, tal rejeição é veementemente exposta para qualquer mecanismo tecnológico que pareça substituir o processo humano de composição.
Vale a pena, neste estágio da carreira?
Para muitos fãs, a criação musical deve nascer exclusivamente da sensibilidade, da experiência e até das imperfeições do artista. Por isso, qualquer intervenção de IA tende a ser vista por mentes mais conservadoras como uma ameaça à autenticidade.
Nesse cenário, é quase inevitável que Pete enfrentasse críticas — e até certo grau de demonização — caso decidisse explorar essa possibilidade de forma mais explícita. Ele é um ícone cuja obra moldou gerações, e muitos fãs costumam esperar que artistas desse calibre permaneçam fiéis aos métodos tradicionais. Afinal de contas, foram estes os métodos que ajudaram a construir sua identidade musical, não é mesmo?
Consequentemente, a fala de Pete Townshend não simplesmente alimenta especulações sobre possíveis “novos hits”; ela impulsiona uma discussão mais ampla sobre o papel da tecnologia na arte. Em vez de adotar uma postura saudosista, o músico prefere encarar a IA como uma ferramenta criativa, desde que empregada com consciência. Seu posicionamento, vindo de um dos nomes mais influentes da história do rock, funciona como convite para refletirmos sobre os caminhos que a música pode trilhar.