Grande produtor expõe amadorismo na cena brasileira e exploração do legado de Andre Matos

Grande produtor expõe amadorismo na cena brasileira e exploração do legado de André Matos
reprodução / O Globo

O co-produtor do ProgPower USA, Milton Mendonça, participou de uma nova entrevista com o canal IbagensCast. Nela, ele falou entre outros assuntos, sobre management de bandas brasileiras e internacionais, o mercado do heavy metal e, é claro, sobre a despedida do fundador do ProgPower USA, Glenn Harveston que deixará o comando do maior festival de Prog Metal do mundo na próxima edição. Perguntado se ele está preparado para esse momento e sobre sua expectativa para o festival em 2026 (saiba mais aqui), Milton declarou:

“Ah, o que eu posso falar sobre 26? Dois dos quatro dias esgotaram em quatro minutos. O que mais eu posso falar sobre o sucesso de um evento? Mais uma vez, não é porque eu trabalho, e porque eu sou um dos donos do festival que eu estou falando isso, mas é um fato. Atualmente nós estamos começando o processo de visto para as bandas. Eu já falei inúmeras vezes que visto para as bandas aqui para os Estados Unidos é extremamente problemático, extremamente complicado, extremamente caro, extremamente tudo… Eu acho que a palavra para se obter visto, e é uma palavra que vem à tona hoje, é instabilidade. É o que eu usaria para descrever isso.

O Glenn [Harveston] vai se aposentar em 2026, ele foi a pessoa que fundou o festival e eu estou herdando a dor de cabeça. À partir de 2026, eu sigo com o festival sozinho. Muita gente me pergunta o que você me perguntou agora: se eu estou pronto e como é que eu estou me sentindo com isso? Eu estou extremamente empolgado e extremamente apavorado ao mesmo tempo. Essa é a verdade. Mas, o ponto é o seguinte: eu acho que é exatamente essa mistura de sensações que me faz dizer, ‘Acho que eu estou fazendo a coisa certa. Acho que foi a decisão certa.’ Porque se eu estivesse só com medo ou só empolgado, sem medo nenhum, teria alguma coisa de errado aí. É igual aquela coisa que algumas bandas falam que o dia que você não sentir um pouquinho de nervosismo antes de entrar no palco, é o dia que você deve reconsiderar a sua carreira.

Então eu acho que tem um pouco disso. E, se estou pronto? Acho que sim. Vai ser perfeito? Provavelmente não. Sempre tem uns obstáculos a serem ultrapassados, mas o show não pode parar, né? E eu acho que o Prog Power é um festival especial demais para deixá-lo se extinguir. É isso. Vai ser legal. O cast é foda. Modéstia à parte.”

Milton também revelou que já está trabalhando para a edição de 2027:

“Se eu dissesse que eu já não tenho quatro ou cinco bandas fechadas para 2027, eu estaria mentindo.”

Perguntado se, agora que ele é um dos donos do festival, e a caminho de se tornar de fato o dono, se isso facilitaria ou dificultaria a criação de uma versão do ProgPower USA no Brasil, Milton respondeu:

“Nem um, nem outro, na verdade. Eu acho que o que vai dificultar isso e eu já falei sobre isso, é uma coisa que eu gostaria de fazer, é um plano que eu tenho, se vai se realizar ou não eu já não sei. O mercado brasileiro é muito volátil, né? Então, é uma coisa que eu sei que o mesmo formato do nosso aqui não funcionaria. Tem que ser uma coisa um pouquinho diferente. Eh, não sei, não tenho muito o que dizer. Já houveram discussões, já houveram conversas, já tenho o meu parceiro para fazer isso aí. Isso já está determinado. Mas planos mesmo, é… é uma ideia, já começamos a trabalhar no âmbito — como é que eu posso dizer — jurídico, legal da coisa, e por enquanto é só uma ideia concreta. Se for acontecer, talvez leve alguns anos ainda, uns dois ou três anos, talvez. Seria legal tentar. É que, infelizmente o Brasil não tem lá uma reputação muito boa para festivais, né? O festival aparece, dura alguns anos e desaparece. E não é culpa dos festivais, né? É culpa do mercado, eu diria. Conjunto da obra. Então, eu não quero ser mais uma parte dessa estatística. Então, talvez por isso eu ainda não entrei realmente de cabeça na ideia, ou nos planos, né? A ideia já existe, mas gostaria de fazer acontecer. Acho que seria legal.”

Sobre a cena heavy metal no Brasil, ele compartilhou a sua visão sobre o assunto:

“Então como é que você analisa a cena do heavy metal brasileiro hoje? Você quer o corte, né?”, brincou Milton.

Manu respondeu com humor:

“A gente tá aqui por isso, ô Milton. Uma hora e meia — indicação de banda de Power, fogo de palha… Essas coisas que ninguém se importa. Já paguei meu pedágio, então agora vai. Me dá o meu corte.” [Risos]

Milton continuou:

“Ah, como é que eu vejo a cena metal no Brasil em geral? A indústria metal no Brasil? É da mesma maneira que eu via e que eu vejo ela quando nós tivemos aquela live que foi controversa, né? Há um ano atrás, talvez, aquela que o Fábio participou. Começamos eu, você, o Fábio e o Anderson. A famosa live… Eu escuto dessa live até hoje.”

Manu acrescentou:

“É, essa deu repercussão. Eu recebi uns zaps depois dessa live. Eu escuto dessa live até hoje.”

Milton então falou sobre como ele vê a cena no Brasil e também criticou a exploração do legado de Andre Matos, saudoso vocalista do Angra:

“Tá, vamos lá. Como é que eu vejo a cena? Ainda menos profissional do que deveria ser, bem menos profissional do que deveria ser. Ainda vejo um problema universal que vai das bandas, que muitas delas simplesmente não entendem como entregar o produto da maneira correta. Tem o público que fica insistindo em repetição, o público brasileiro é o público mais saudosista do mundo. Já falei e repito, não acho que o Régis Tadeu tá completamente errado quando ele fala que o fã é um idiota.

Cara, tá tudo errado… às vezes eu paro, observo e falo, ‘tá tudo errado’. Gerenciamento de carreira de tanta banda, de tanto projeto, é triste, cara. Tem cada decisão tomada que eu vejo… E é triste. Então, como é que eu vejo a cena? Não sei nem o que falar, na verdade, porque pode parecer que eu seja uma pessoa amarga com a cena brasileira, não é nada disso, mas está muito abaixo de onde deveria estar de muitas maneiras, ok, nem todos, claro que há exceções, tá, mas artistas, público, produtores, managers e “managers” (entre aspas), visão, entendimento do mercado. Então, tem um pouco de tudo, né? Tem a parte cultural que a gente já falou de muito brasileiro já se achar inferior às bandas de fora, ao povo de fora. Então, cara, o que mudou na cena do Brasil no último ano comparado ao ano passado, por exemplo? É, exato, nada. Então, é mais do mesmo. Claro que existe muita gente competente, claro que existem produtores muito competentes, festivais como o Bangers, o Bangers está aí, muitos produtores fodas, ponta firme de se trabalhar, muita banda boa, muita gente criativa, muita gente que está tentando fazer o seu melhor, mas também tem muita gente que fica ali, né, olhando só o que acha que sabe e acabou. É foda, é foda… Uma pena porque tem muita gente, muito músico bom, muita gente competente aí. Uma pena, né. O saudosismo do público é uma desgraça. Essa é a verdade.”

Em seguida, Milton comentou sobre uma mensagem de um internauta que disse durante a live: “essa nova homenagem ao Andre Matos é o fim da picada. Eu não aguento mais. Deixem o universo do Angra descansar.”

“Cara, um ano e pouco atrás eu falei para todo mundo, até o Angra está tirando uma pausa do Angra. Tipo, já deu, já deu o que tinha que dar, todo mundo indo atrás de pegar uma microfatia da fatia de bolo do Angra. O que que eu acho desse novo projeto, cara? É reflexo da cena do Brasil. E é reflexo da cena como um todo, do fã que é saudosista que fica lá, ‘porra, isso vai ser muito legal’. Tenho certeza que vão ser shows legais, não tenho dúvida disso. Os produtores estão comprando esses shows, né? E são músicos extremamente competentes, capazes de criar músicas tão boas se não melhores do que o Angra já entregou, mas que continuam se apequenando. Simples assim. Não sei a história desse projeto, não sei quem tá por trás dele, quem criou, mas todo mundo — e o Shamangra fez isso também há pouco tempo, há um tempinho atrás com esse show. Fizeram o show ‘o Maestro’, né? O show no La Iglesia.

Homenagem ao Andre Matos no aniversário dele e não sei mais o quê. Homenagem e tributo. Cara, todo mundo tá fazendo isso para encher o próprio bolso. Ponto final. Ninguém está fazendo homenagem pro André, honrando a carreira do Andre. Não. Todo mundo está fazendo isso para encher o bolso. E eu vou lançar um desafio. Vocês querem fazer um tributo, uma homenagem ao Andre Matos? Façam um show, peguem a renda e doem para uma ONG. Honre o nome dele, faça um negócio legal, faça isso. Mas vocês não vão fazer isso. Ninguém vai fazer isso. Pessoal vai fazer os shows, sabe que vai gente porque o fã brasileiro é saudosista, e vão encher o próprio bolso. Simples assim. Não vai melhorar a cena, vai continuar com essa coisa de muita gente falando: ‘Ah, mas tá todo mundo cansado disso, já deu o que tinha que dar.’ É, realmente tá todo mundo cansadíssimo, já deu o que tinha que dar, mas ao mesmo tempo tá todo mundo indo nesses shows, né? E a minha opinião é realmente essa de ‘já deu o que tinha que dar’.

Eu fico me perguntando e eu poderia até perguntar para eles a opinião do pessoal do Angra sobre esses eventos. E, tipo assim, todo mundo tem o direito de ir lá tocar a música que quiser, todo mundo tem o direito de fazer cover, né? Os royalties existem para isso no fim das contas. Mas para que continuar se apequenando dessa maneira, cara? Vocês são músicos tão fodas. Eu estou pensando em como falar o que eu quero falar também… Pega o Shamangra como exemplo. O primeiro show que eles fizeram 1 ano e meio, dois anos atrás, não sei, foi na Áudio, se não me engano. Isso que era para ser só um show, né? É engraçado, sempre tem essa coisa do ‘ah vai ser só um show’. Por quê?

Porque se não for bom, se der merda, é isso, não tem problema nenhum, é só um show. Só que se é muito bom, aí dá abertura para falar: ‘Ah, mas por motivos de interesse do público…’ E é uma conversa para boi dormir.

Tá, mas vamos pegar o exemplo do Shamangra. Isso é só minha ótica também, minha opinião. E eu não estou aqui para falar mal de ninguém. Eu estou aqui para falar como eu penso. Quem se sentir ofendido que vai lavar uma louça. Não estou nem aí. E também não tenho motivo para falar mal do Shamangra, porque a Helena [Nagagata] faz parte do projeto. Tá, mas vamos lá. O primeiro show do Shamangra na áudio foi o quê? Um ano atrás ou um ano e meio atrás, talvez um pouco mais, não sei. Quantas pessoas deviam ter lá? Umas 3.000 pessoas. Umas 2500 pessoas? Vamos dizer 3.000, em São Paulo. O último show do Shamangra em São Paulo foi esse show do The Maestro no La Iglesia. Tinham 150 pessoas lá nesse show. Em um ano… E talvez isso seja… ou melhor, a gente pode apontar o dedo e colocar a culpa no que for, mas em um ano, no mesmo mercado, tivemos 150 pessoas para 3.000, qual a porcentagem de queda? 95% de redução no público.

Aí você tem a cara de pau de sentar e me dizer que o público ainda quer isso? Não, não tem como. Não tem como. E você pode, igual eu falei, você pode apontar o dedo e falar: ‘Ah, mas é que mudou a banda, não tem mais essa pessoa, não tem mais aquela pessoa’. Ou pode falar que talvez seja um projeto com gerenciamento muito fraco, muito ruim. Não sei. Pode falar que talvez seja desinteresse do público, tem inúmeras razões, mas os números estão aí, não mentem, entendeu? Não sei como vai ser esse esse projeto novo, né? Eu vi que tem o irmão do André tocando baixo. Fico curioso em saber se isso é uma coisa que ele fez parte da concepção. Ou se ele foi trazido no meio da conversa, no final. Não sei. Todo mundo tem o direito de fazer o som que quiser ao vivo, mas sei lá, é vergonhoso, mas todo mundo continuar forçando a mesma coisa, né? Conta quantas bandas já existiram e é uma pena porque eu sei que o público tem culpa nisso também. E o melhor exemplo disso é o Edu, porque o Edu lançou dois álbuns fantásticos e tentou tocar as músicas desses álbuns nos shows dele e o pessoal reclamava quando tocava. E aí que entra um ponto…”

Manu interrompeu para indagar Milton Mendonça se esse fenômeno do universo Angra se deve mais aos artistas, aos produtores ou público e, observou que todo mundo tem contas para pagar e família para sustentar e acrescentou que alguns desses artistas apostam em outros projetos paralelos, a exemplo da Ready To be Hated, mas que o público não se interessou e o projeto acabou:

“Cara, eu vou falar a minha opinião sobre a Ready To Be Hated mais uma vez. Músicos mais do que capazes de fazer um som foda, dois produtores na banda. A qualidade sonora dessa produção, tendo dois produtores na banda, ficou muito abaixo do esperado.

Até que ponto você fala as coisas que você sabe, mas que estão em off? Fico naquela. Eu acho que essa banda já acabou, inclusive, entendeu? Porque para você fazer tanto barulho que vai lançar um negócio tão legal, e com os músicos que tinham, acho que isso diz muito de quão fraco é o gerenciamento de bandas aí no Brasil, porque quem quer que estivesse atrás disso, por trás disso, como empresário, como manager, cara, devia estar sentindo vergonha. Porque mais uma vez, ao meu ver, tava tudo errado ali. Divulgação, lançamento, o conceito, arte péssima, desculpa, mas para os músicos desse nível, eu esperava algo muito acima, mas muito acima. E acho que foi assim, foi decepcionante. E é uma pena porque, mais uma vez, tem gente de uma qualidade ímpar ali. Não tem motivo para uma banda com gente desse nível já ter acabado. Quer dizer, tem motivo, mas, né, a gente deixa isso para lá. Igual o fim do Shaman, né? Que todo mundo fala que o fim do Shaman foi por causa do Confessori e não foi por causa do Confessori. Mas, deixa para lá, deixa para lá…”

O público tem culpa no que se tornou o Angraverso?

Manu retomou o começo de sua pergunta anterior observando que a Ready To Be Hated não deu certo, e que o guitarrista do projeto, Edu Ardanuy tem a banda Sinistra, mas que também não tem muito apoio na cena do Brasil. Além disso, ele mencionou as tentativas do baterista Aquiles Priester de tentar ressuscitar o Hangar e que talvez seria melhor para Aquiles fazer mesmo o tributo ao Andre Matos, no final das contas. E voltou à pergunta: “isso diz mais a respeito do artista ou do público? Ou será que não diz pelo menos um pouquinho a respeito do público? Será que o público não tem uma uma certa responsabilidade nisso?”

Milton respondeu:

“Claro que tem. O público tem responsabilidade, o artista tem responsabilidade e o produtor que tá comprando essa turnê, comprando esses shows, tem responsabilidade, porque é um peixe mordendo a bunda do outro, sabe? O fã… esses projetos nunca vão parar de existir enquanto o fã comprar ingresso para assistir, entendeu? E, mais uma vez, o Angra existe. Ainda está na ativa, né? Eu entendo muito mais a carreira solo do Edu, de fazer o som que o Angra faz, faz muito mais sentido para mim.

Até porque, mais uma vez, ele entrega um material solo de um nível muito alto, na minha opinião. Então, eu acho que eu estou bem empolgado para ver qual vai ser o fim dessa trilogia do Edu, que eu tenho certeza que vai ser no nível alto. E tenho certeza, pô, eu vi o show dele. A produção é excelente, a banda é super capaz. Mas, mais uma vez, quando eles tocam as músicas do álbum dele, o povo reclama. Depois querem assistir Acid Rain, Nova Era, pela centésima vez. Mas já deu o que tinha que dar, cara. Assim, é reflexo da cena do Brasil, por isso que não vai para frente, porque falam em metal melódico, metal progressivo. Ah, Angra, Angra, Angra… Pô, eu amo Angra, é uma das minhas bandas favoritas, mas o Angra existe… E essa coisa de homenagem e tributo, fala que vocês vão virar uma banda cover de uma vez, você está tentando encher o próprio bolso e tudo bem. Mais uma vez, todo mundo pode ir num bar, numa casa de show, fazer, tocar a música que quiser, mas daí quando uma banda autoral tenta o seu espaço não consegue, porque o Brasil é o a terra do cover, né? Eu não posso culpar o produtor completamente se quando ele busca o show de uma banda autoral, vai 20 pessoas no show. Eu não acho que isso diz muito sobre a banda. Eu não acho que isso necessariamente diz algo sobre a banda. Eu acho que diz mais algo sobre os fãs, tá? E eu não posso completamente culpar a banda também que precisa pagar suas contas. Então, é isso.”

Por fim, confira a entrevista na íntegra em seguida:

Deixe seu comentário
Sair da versão mobile