Por que NÃO devemos odiar o Manowar

A banda Manowar é um dos nomes mais controversos do heavy metal. Amada por uns e rejeitada por outros, ela desperta opiniões extremas desde os anos 80. Parte dessa polarização vem do comportamento de Joey DeMaio, baixista e líder da banda, e de sua postura arrogante em relação ao próprio metal.
Um episódio ocorrido em um show em 2011 em São Paulo, amplamente divulgado e transformado em meme, consolidou a imagem de que o grupo seria uma espécie de caricatura de si mesmo. Contudo, essa visão ignora a relevância e a história da banda dentro do gênero.
Formado em 1980, o Manowar lançou uma série de álbuns que se tornaram clássicos do metal. Independentemente da opinião pessoal sobre seus integrantes, é inegável que esses discos moldaram a estética e o som de várias bandas que vieram depois. Ao longo da carreira, o grupo atraiu fãs extremamente fiéis, mas também enfrentou resistência de parte do público, especialmente por causa das letras centradas na mitologia nórdica e na autoproclamação de “reis do metal”.
Essa insistência em um único tema, somada à atitude megalomaníaca de DeMaio, fez muitos considerarem o Manowar uma banda difícil de levar a sério.

O início avassalador
Ainda assim, é importante reconhecer sua contribuição. Musicalmente, o Manowar apresenta qualidade técnica, arranjos poderosos e a voz inconfundível de Eric Adams, um vocalista de enorme talento que soube adaptar-se ao envelhecimento com competência.
O primeiro álbum, Battle Hymns (1982), é um marco do metal tradicional, trazendo características que inspiraram o desenvolvimento posterior do power metal americano. Nesse disco, o grupo ainda não havia mergulhado completamente na mitologia nórdica, mostrando um equilíbrio entre força, melodia e narrativa épica.
Com o segundo registro, Into Glory Ride (1983), a banda começou a adotar a estética exagerada e as letras mitológicas que se tornariam sua marca registrada. A capa e o visual chamativos alimentaram a polêmica, mas musicalmente o disco manteve o alto nível, com faixas como “Gates of Valhalla”. Já em Hail to England (1984), o Manowar consolidou sua fama na Europa — especialmente na Inglaterra e na Alemanha —, onde é reverenciado até hoje, mesmo sem o mesmo reconhecimento nos Estados Unidos.

Manowar: os reis do Metal?
Logo depois veio Sign of the Hammer, também de 1984, outro disco sólido, com destaque para a faixa “Thor (The Powerhead)”, talvez uma das mais conhecidas do grupo. O álbum Fighting the World (1986), lançado em um ano considerado sagrado para o metal, trouxe canções poderosas e melodias marcantes. Apesar da imagem da banda não ajudar na conquista de respeito mais amplo, as músicas se destacam, com “Defender” sendo um ótimo exemplo de balada pesada e emocional.
Em Kings of Metal (1988), o Manowar levou sua autoproclamação ao extremo. O título e a capa são quase uma declaração de guerra ao restante da cena, mas o álbum trouxe hinos que se tornaram eternos, como “Kings of Metal”, “Heart of Steel” e “Hail and Kill”. É um dos pontos altos da discografia, com energia e grandiosidade. The Triumph of Steel manteve essa linha, sendo um dos discos mais lembrados pelos fãs, com composições longas e épicas.
Entre 1996 e 2007, o Manowar lançou uma série de trabalhos que reforçaram sua imagem de banda épica e devota ao heavy metal tradicional. Em 1996, “Louder Than Hell” marcou o retorno ao som mais direto e poderoso, com hinos como “Return of the Warlord” e “The Gods Made Heavy Metal”. Já em 2002, o grupo apresentou o ambicioso Warriors of the World, misturando temas mitológicos e patrióticos em faixas grandiosas como “Warriors of the World United” e “Call To Arms”, consolidando sua estética heroica e teatral.

O período de baixa
O período culminou com o lançamento de “Gods of War” em 2007, um álbum conceitual dedicado à mitologia nórdica e ao deus Odin. Nesse trabalho, o Manowar aprofundou seu estilo épico, incorporando orquestrações, narrações e uma atmosfera cinematográfica. Esses discos representaram uma fase de maturidade e reafirmação da identidade da banda, unindo a força do metal clássico com produções mais elaboradas e temáticas mitológicas intensas.
Em 2011, a banda relançou Battle Hymns em uma nova versão, Battle Hymns MMXI. A intenção foi homenagear o clássico original, mas o resultado não agradou a todos. Embora o vocal de Eric Adams estivesse mais grave e maduro, a nova gravação perdeu parte da aura mítica do primeiro álbum. O mesmo ano trouxe The Lord of Steel, um trabalho que, na visão de muitos fãs, marcou uma queda de qualidade. Produzido pelo próprio Joey DeMaio, o álbum teve mixagem desequilibrada, com o baixo em excesso e uma sonoridade inferior aos registros anteriores — reflexo, talvez, do ego inflado do líder da banda.

Uma banda gospel dos deuses nórdicos
Mesmo com esses tropeços, o Manowar segue sendo uma banda única. Sua sonoridade é poderosa, suas composições são consistentes, e sua identidade é inconfundível. É verdade que muitas vezes a banda parece sabotar a própria reputação, mas essa característica acaba fazendo parte do seu charme.
Chamar o Manowar de uma espécie de “Massacration levado a sério” é uma simplificação injusta. O grupo vai além da paródia: representa o metal em sua forma mais teatral, exagerada e, ao mesmo tempo, autêntica.
O Manowar pode ser visto como uma banda “gospel dos deuses nórdicos”, já que suas letras exaltam o panteão e valores heroicos do norte europeu. É repetitivo? Sim, mas também é coerente. É uma banda feita para se curtir, não para ser levada com seriedade acadêmica. É música para sentir — e para celebrar o espírito do metal.
Com todos os seus excessos e contradições, o Manowar é uma peça essencial da história do heavy metal.
Ouça Manowar!
Abaixo você pode conferir uma playlist preparada pelo Mundo Metal, com algumas das nossas composições favoritas da discografia do Manowar. Ideal para quem quer conhecer a banda ou aos fãs que querem reouvir os grandes clássicos.