PUBLICIDADE

Por que Gene Simmons vive dizendo que o Rock está morto?

Vamos deixar alguns pontos bem claros antes de nos aprofundar no tema proposto.

O Kiss foi formado em 1973 e, até 1992, foram extremamente produtivos. De 73 à 92, lançaram 16 álbuns de estúdio, sem contar os 4 discos solo de 78 e sem contar as coletâneas e registros ao vivo. A banda estava no lugar certo e na hora certa, tinha diversos diferenciais (performance, maquiagem, aparência, atitude e etc), mas mais do que isso, sabia usar muito bem esses diferenciais a seu favor. Pode-se afirmar que a fase clássica foi aquela que abrange os anos 70 e que vai do homônimo “Kiss”, de 1974, até “Love Gun”, de 1977, porém, é inegável que os 4 mascarados tiveram outros momentos muito impactantes nos anos 80, como no pesadíssimo “Creatures Of The Night” (1982), “Lick It Up” (1983), “Animalize” (1984) e mais alguns títulos igualmente aclamados pelos fãs.

   

Com o passar dos anos, o Kiss passou a se enquadrar nas novas modinhas musicais do momento e, com isso, acabou lançando alguns discos fracos e/ou sem o mesmo brilho de outrora. Ainda nos anos 70, haviam feito algo parecido com isso em “Dinasty” (1979), onde tentaram surfar na onda da Disco Music. Depois, passaram boa parte dos anos 80 lançando obras que remetiam ao chamado “Hard farofa” (que era a tendência de mercado na época) e, mais tarde, em 1997, apareceram com “Carnival Of Souls: The Final Sessions”, onde soavam como uma banda de Hard Rock que tentava se aproximar do Grunge. Obviamente, esse disco não foi bem sucedido entre os entusiastas de nenhum dos dois públicos e, no ano seguinte, voltaram a fazer o que sabiam melhor. “Psycho Circus” (1998) voltou a empolgar os fãs mais antigos e fez certo sucesso na época de seu lançamento.

Rock group Kiss has a day on the town in New York City. Peter Criss, Gene Simmons, Paul Stanley, Ace Frehley. (Photo By: Richard Corkery/NY Daily News via Getty Images)

O que veio a seguir foi um longo hiato de 11 anos até que o próximo álbum surgisse. E é neste ponto da história que o Kiss se perdeu totalmente.

A banda permaneceu sem lançar álbuns justamente no momento onde a indústria da música estava passando por sua maior metamorfose em todos os tempos. Foi a época onde a internet surgia, se consolidava e se proliferava, onde os downloads eram discutidos abertamente e o mundo do Rock, de forma geral, teve que se reinventar e se readaptar ao novo cenário. Neste momento, o Kiss simplesmente resolveu ficar fora de cena e começou uma turnê de despedida que na realidade foi apenas marketing (já que a banda não terminou). Quando resolveram retornar com um disco de inéditas em 2009, o cenário musical era outro completamente diferente daquele que a banda estava acostumada nos anos 70, 80 e 90, e eles sequer participaram desse novo processo como deveriam. Em outras palavras, nunca se adaptaram de forma adequada aos novos tempos e as novas tecnologias. E foi então que começaram a aparecer cada vez mais na mídia com esses discursos desvairados sobre direitos autorais, sobre o quanto a internet foi nociva para as bandas de pequeno porte e sobre como eles não eram pagos devidamente. Não demorou muito, vieram as lastimáveis falas dando conta de que o Rock estaria morto.

Há vários anos atrás, em 2014, Gene Simmons disse o seguinte: “O rock não morreu de velhice, ele foi assassinado. Algum artista brilhante, em algum lugar, seria descoberto e agora não será mais, porque é muito mais difícil ganhar a vida tocando e escrevendo músicas. Ninguém vai pagar você para fazer isso.”

A declaração de Simmons repercutiu muito na época e, à partir de então, vira e mexe ele repete isso em algum lugar. Desta vez, ele repetiu no programa de Gulf News, onde o músico fez uma análise completamente surreal do cenário do Rock e da música mundial. Segundo ele: “O Rock está morto. E isso porque as novas bandas não têm tido tempo para criar glamour, emoção e coisas épicas. Quer dizer, o Foo Fighters é uma banda incrível, mas é uma banda de 20 anos atrás. Então você pode voltar de 1958 até 1988. Isso é 30 anos. Durante esse tempo, tínhamos Elvis, The Beatles, Jimi Hendrix, Rolling Stones e assim por diante. Na época da Disco Music, tínhamos Madonna, e então tivemos o Hard Rock, com AC/DC, talvez nós e alguns outros. Tivemos a Motown e toda aquela boa música. De 1988 até hoje, são mais de 30 anos. Diga-me quem são os novos Beatles? Você não pode. Existem bandas populares. O BTS é muito popular. Todos os tipos de bandas são muito populares. Isso não significa icônico ou que terão um legado para sempre. É diferente. Acho Billie Eilish fantástica. Ela é interessante porque ela e seu irmão realmente escrevem o material e esses materiais são únicos. Lady Gaga é fantástica na categoria feminina. Ela escreve seu próprio material, ela pode cantar como ninguém. Mas ela na verdade é uma musicista, escreve suas próprias músicas, toca piano, ela pode realmente fazer isso. O resto do mundo reage a muitas divas pop, embora na maioria das vezes elas não escrevam suas próprias músicas e não possam tocar um instrumento. E, a propósito, tudo bem, não importa o que você goste. Mas não são os Beatles.”

Quando questionado se alguns álbuns ou artistas serão icônicos daqui a 30 anos, ele ainda disse o seguinte: “Duvido. Por causa da singularidade que era os Beatles, era uma banda que escrevia suas próprias músicas, arranjava-as, produziam sozinhos, a maioria tocava seus próprios instrumentos. Sem faixas de apoio. Sem aprimoramento digital. Sem correção vocal. Sim, isso não vai acontecer de novo. Sabe, os artistas modernos dependem muito da tecnologia. Você pode não conseguir reconhecer o artista se ele se gravar cantando no chuveiro. Você ficaria chocado. E nenhum dos rappers toca instrumentos ou não escrevem músicas, eles escrevem palavras. Mas acordes, melodias, harmonias e outras coisas, não. Isso não significa que o rap não é importante. É muito importante. Mas não é os Beatles.”

Mas afinal das contas, o Rock está realmente morto?

Como diria Jack, o estripador, vamos por partes!

O Kiss sempre foi uma banda extremamente capitalista e, convencer um cara que está acostumado a vender milhões de discos que as coisas mudaram e ele vai precisar se reinventar, não deve ser uma tarefa muito fácil. Mas o fato é que a indústria da música como um todo precisou se reinventar e, se o Kiss quiser ficar reclamando pelo resto da vida, a realidade não vai se moldar a eles por conta disso. Dizer que a internet prejudicou as bandas pequenas é uma tremenda falácia e, até mesmo, uma desonestidade intelectual. As bandas novas, diferentemente do Kiss, se adaptaram de forma bastante rápida as novas tecnologias e usam as plataformas digitais muito bem. Hoje, uma banda na Índia grava um álbum e, imediatamente, este trabalho está sendo ouvido em todos os cantos do planeta, algo que seria totalmente inviável na época das gravadoras. Com as redes sociais, os músicos ficaram muito mais próximos de seus fãs e isto gerou um cenário positivo de interação que jamais existiria antes.

Apesar de não se vender mais milhares(milhões) de discos (há controvérsias e elas serão mostradas adiante), os artistas lucram muito com shows ao vivo, áreas vip, serviços de streaming, vendas digitais, meet & greet, produtos personalizados exclusivos e, agora, em tempos de pandemia, vendem ingressos para lives e ganham dinheiro com visualizações em seus canais do Youtube. O que fica claro é que mudaram-se as formas de capitalizar, mas estas maneiras existem aos montes e, principalmente, as bandas enormes como o Kiss, sabem e usufruem muito bem disso.

Sobre a análise de Gene Simmons sobre o cenário atual, me desculpem, mas é absolutamente pífia (para não dizer patética), e mostra um tremendo desconhecimento da cena Rock atual. A régua que Gene usa para comparações é ilógica. Usar os Beatles como uma régua de medição para o sucesso é absurdamente descolado da realidade. Os Beatles são o ponto fora da curva e qualquer banda de Rock que precise repetir ou se equiparar ao sucesso dos Beatles irá falhar miseravelmente. Os caras foram um fenômeno que só aconteceu uma vez na história e jamais foi igualado por ninguém. Poderíamos pegar o próprio Kiss, se fizermos esta comparação chegaremos a conclusão óbvia que eles também não são e nunca foram os novos Beatles. Nenhuma banda foi…

Gene em toda a sua fala, menciona apenas uma banda de Rock “mais nova”, o Foo Fighters, e como ele mesmo diz, é uma banda com mais de 20 anos de carreira, portanto, só é uma banda nova nos devaneios dele. Mas se ele quisesse mencionar nomes dos últimos 30 anos, como foi proposto na análise, não faltariam bandas enormes para citar. O Rock, após um auge midiático que aconteceu nos anos 80 e 90, deixou de ser o queridinho da mídia e retornou ao underground, mas jamais deixou de revelar bandas. Veja bem, eu não espero que Gene Simmons mencione em uma entrevista como esta, nomes da NWOTHM (New Wave Of Traditional Heavy Metal), da nova onda do Thrash ou qualquer grupo de Metal extremo, nem é a praia dele isso, mas oras, é impossível negar o sucesso estrondoso de Metallica, Iron Maiden, Slipknot, System Of A Down, Ghost, Gojira, Avenged Sevenfold, Mastodon e Opeth, além de nomes emergentes como Greta Van Fleet, Five Finger Death Punch, Stone Sour, Volbeat e tantas outras. Veja bem, não estou entrando no mérito da qualidade desses artistas, eu mesmo não suporto a maioria dessas bandas moderninhas, apenas estou mencionando o fato de que são grupos que se tornaram grandes (alguns gigantes), e tudo isso mesmo com toda a mudança na indústria da música e com o Rock “em baixa” na mídia mainstream. Ignorar isso é algo totalmente fora da realidade.

Até agora, não consigo entender que raio de análise foi essa, onde para provar que o Rock está morto (?), menciona-se o Foo Fighters, o AC/DC, artistas que surgiram entre 58 e 88, depois se fala de Madonna, Lady Gaga, Billie Eilish, BTS (é sério que ele mencionou o BTS?) cantoras pop, rappers e, para fechar com chave de ouro, o cara compara todo mundo aos Beatles (??????). WHAT-THE-FUCK? Gene, você está bem? Tomou seu remedinho? Estou realmente preocupado!

(pausa de alguns minutos para uma tentativa fracassada de reflexão dessa salada)

Continue lendo após os links. SOM NA CAIXA!

Revigorado após ouvir algumas bandas novas “totalmente sem glamour, sem emoção e sem coisas épicas” (só que não), retorno para a conclusão.

É fato que o Kiss decidiu que não vai mais gravar um álbum de inéditas em sua carreira, isso já foi dito explicitamente por Paul Stanley e, claro, essa decisão tem uma explicação bastante óbvia. Após os “fracassos” (leia-se tentativa frustrada de faturar milhões de dólares com músicas novas) de “Sonic Boom” e “Monster” (dois álbuns bem decentes, por sinal), a banda percebeu que tem um nome tão forte e uma carreira tão sólida, que pode apenas fazer turnês de “despedida” tocando seus clássicos. Vão seguir lotando arenas pelo mundo e não precisarão estar sendo sempre reavaliados com lançamentos de álbuns novos.

É uma decisão xucra? Para muitos sim, mas eles tem todo o direito de fazer isso e é honesto. Afinal, as músicas que eles tocam ao vivo são deles e, se há uma demanda, que mal tem? O que não é legal é justificar essa escolha dizendo pelos quatro cantos do mundo que o Rock morreu. É quase como cuspir no prato que comeu ou tentar mandar um recado do tipo, “olha, nós fomos os últimos Beatles que surrgiram e quando nós pararmos, vocês estão todos ferrados”. Além de ser uma mentira deslavada, é um discurso vazio e sem conteúdo. Tanto isso é verdade, que quando tenta-se argumentar sobre tal declaração e embásar a fala, o que vemos é uma série de citações aleatórias, comparações descabidas e afirmações sem qualquer credibilidade.

   

Nós adoramos o Kiss, adoramos os seus álbuns e não nos importamos se eles resolverem fazer 10 tours de despedida só para tocar os seus clássicos e nadarem numa piscina de dólares. Mas Gene, por favor, para que tá feio…

Para finalizar, lembra que eu disse que existem controvérsias sobre não se vender mais milhares(milhões) de discos atualmente? Pois é, o Kiss não conseguiu fazer isso em suas últimas empreitadas, mas um certo álbum chamado “Power Up”, de uma certa banda chamada AC/DC (conhecem?), vem batendo recorde atrás de recorde e, caminha à passos largos para uma vendagem histórica! Isso mesmo, em pleno 2020/21, temos uma banda de Rock no topo do mundo, em primeiro lugar em diversas paradas musicais mundiais, provando por A+B que, não, O ROCK NÃO MORREU! E nem vai…

Redigido por Fabio Reis

PUBLICIDADE

Comentários

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

This site is protected by reCAPTCHA and the Google Privacy Policy and Terms of Service apply.

Veja também

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
PARCEIROspot_img

Redes Sociais

30,849FãsCurtir
8,583SeguidoresSeguir
197SeguidoresSeguir
194SeguidoresSeguir
1,151InscritosInscrever

Últimas Publicações