O Sepultura nunca ajudou as bandas brasileiras, e ainda atrapalhou…

Existe uma história bastante divulgada no underground mineiro sobre o Sepultura ter sabotado o Overdose e outras bandas. Na última semana, depois de uma publicação ter viralizado no Instagram contando justamente este episódio, encontramos as declarações dos músicos envolvidos e, com isso, podemos entender de fato o que aconteceu.

Em uma entrevista ao Heavy Metal Online, o guitarrista do Overdose, Cláudio David, falou sobre a relação da banda com a imprensa. Questionado se alguém já tinha publicado alguma coisa que ele não gostou ou se alguém já tinha sido escroto com ele, Cláudio disse o seguinte:

“Algum detalhe ou outro eu não lembro, mas teve uma, quando você falou, a única coisa que bateu na minha cabeça foi uma polêmica quando a gente fez uma entrevista para o Estadão, lá de São Paulo, a gente ia fazer uma turnê com o Testament, Crowbar, Pro-Pain e eu não lembro a outra banda, chamava Noise Fest, foi uma turnê que acabou sendo cancelada infelizmente, ia ser mundial. E a gente deu a entrevista lá, foi bacana demais, depois a gente tava nos Estados Unidos e aí a nossa agente de turnê ligou pra gente, ‘o que vocês falaram no jornal? Vocês falaram que o Testment vai abrir pra vocês?’, eu disse ‘não tô sabendo disso não’.

A Glória, cara, a Glória (atual esposa de Max Cavalera e na época empresária do Sepultura)… mandou para nossa empresária que a gente tava falando mentira, que a gente era mentiroso e tal. E isso chegou pra gente. Pô, infelizmente. E cara, a gente não falou isso não. O cara colocou isso por conta própria na matéria. Ela mandou um fax, a gente estava em Nova York. Daí a Glória mandou um fax pra nossa agência de turnê, tipo, ‘olha o que esses caras do Overdose estão falando’.”

Questionado se era mais algo relacionado a Glória, ele disse:

“É, teve alguns momentos assim, né. Desde aquele negócio do Jairo ter falado que arranhava os discos do Overdose, mas passa por alguns outros momentos. Em alguns clubes o pessoal falava com a gente que a Glória tinha ligado… No Dynamo Open Air foi o pior né, porque a gente ia tocar no palco principal, e segundo informações, foi o único show do Nailbomb, não sei se a banda chegou a tocar depois, mas esse foi o primeiro e o que chegou foi que ela pediu pra tirar o Overdose. A gente acabou tocando no palco B, foi muito legal também, não dá para reclamar, não. Foi muito bacana, mas a gente tava assim, sempre tinha uma coisa ou outra bem chata que acontecia. É lógico, é passado e tal, mas aconteceu.”

Já sobre a história que o Sepultura não ajudou as outras bandas da cena mineira, mas ao invés disso atrapalhou, o músico foi sincero:

“Sobre o Sepultura… bom, o pessoal fala que ninguém tem obrigação de levar ninguém pela mão. E não tem mesmo. E também a gente não tinha obrigação de deixar o Sepultura abrir o primeiro show do Overdose, não tinha obrigação de deixar gravar o ‘Bestial Devastation’ do outro lado do ‘Século XX’, não tinha obrigação de emprestar equipamento pra eles gravarem o ‘Bestial Devastation’, não tinha obrigação de emprestar equipamento pra eles gravarem os bônus do “Squizophrenia’, Bozó não tinha obrigação de fazer um logo pra eles que vendeu milhões e ele não ganhou um centavo, ninguém tem obrigação de nada, mas é lógico, quando a pessoa é amiga você espera que essa pessoa seja legal com você. Ainda mais se você já fez algum favor, mas independente disso, amigo é amigo. E a gente tinha essa visão de amizade.

Obrigação não tem, mas com a gente teve umas pisadas na bola sim. Desde o Max, que o Jairo falou que eles arranhavam o lado do disco do Overdose, o contrato com a Cogumelo que a gente acabou lançando o ‘…Conscience…’ independente porque o pessoal tinha feito um acordo com a gente e descumpriu, a gente acabou dançando e ficou sem gravadora.

Tem essas questões da Glória também, e eu não sei se o Sepultura ficava pensando ‘vou foder tal banda’, mas bicho, algumas pisadas na bola pelo menos com o Overdose teve, e eu ouço falar de outras bandas também, mas algumas pisadas na bola com o Overdose, igual essa da Glória de mandar o jornal, essa da Glória de tentar tirar do Dynamo, essa do Max não cumprir a palavra com a gente na época do lançamento do segundo disco, essa mesmo de arranhar os discos, o pessoal acha infantilidade, cara mas é uma coisa que eu fiquei puto e, até hoje, eu acho assim, não é porque era criança, isso é coisa de caráter.

A gente apresentava o Sepultura, pegava o disco e falava, ‘olha aqui a outra banda, olha que legal e tal’, e os caras arranhavam o lado nosso pra falar ‘não, essa banda é uma bosta, vou arranhar o lado deles’. Então quer dizer, é coisa de criança? É! Mas é coisa de criança mau caráter. Então essas pequenas coisas, essas pequenas vezes, que eles poderiam não ter atrapalhado e eles atrapalhavam.

Não precisava ajudar, mas também não precisava atrapalhar. Não é muita coisa, a culpa não é do Sepultura, mas teve pequenos momentos que eles poderiam não ter atrapalhado.”

A história mencionada por Claudio, sobre os integrantes do Sepultura riscarem o lado do disco do Overdose, teve confirmação. O ex-guitarrista da banda, Jairo Guedez, assumiu isso em uma entrevista ao Rockast. Ele disse:

“A gente fazia as ações sem pensar nas consequências né, bem pré-adolescente, então a gente… o que acontece é que a gente falava assim, ‘cara, a gente gosta dos caras do Overdose, mas o som é muito ruim, é Power Metal, isso não é Death’, a gente não gostava do som, mas gostava dos caras. O Bozó sempre foi muito amigo nosso, até hoje um grande amigo, então a gente começou a comprar os discos na Cogumelo, a gente começou a pegar as caixas de discos deles pra distribuir, pra mandar pra São Paulo, pra mandar para Woodstock, pra mandar pra outros lugares e pra mandar para mídia.

E como era um split, lado A Sepultura, lado B Overdose, a gente tirou todos os discos e arranhou o lado B com prego. A gente fazia pentagrama de prego que era pro cara não escutar o Overdose. Então isso aí virou uma lenda do tipo, ‘ah os caras devem ser brigados’, mas não, na época ninguém sabia que era a gente que tava arranhando os discos. E a gente botava eles de volta na caixa, tipo tirava de 50 em 50 LPs e botava de volta tudo riscado no lado do Overdose. Era uma rixa de mercado, era Business, né. Só que Business de uma forma de moleque, de uma forma totalmente irresponsável, né”

É interessante ver histórias como esta vindo à tona, inclusive para entender o motivo pelos quais muitas atitudes se repetem até os dias de hoje.

Saber que há 40 anos atrás, nossa cena iniciava funcionando dessa forma explica bastante sobre o que temos hoje: um underground absolutamente disfuncional e cheio de gente envolvida que sobrevive puxando o tapete dos demais.

“Parabéns aos envolvidos”.

Fabio Reis
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
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