“O músico médio ganha US$ 12 por mês no Spotify. Eles dormem em suas vans, têm vários empregos e se esforçam ao máximo”

A indústria musical passou por transformações profundas ao longo dos anos — e a forma como consumimos música também mudou. Se antes um artista ou banda podia viver das vendas de mídias físicas, como vinis e CDs, além das turnês, hoje essa realidade é bem diferente. Embora as turnês ainda sejam lucrativas para quem está no mainstream, o cenário é mais complicado para quem ocupa uma posição intermediária e ainda mais desafiador para quem está no underground.
Com a chegada das plataformas de streaming e o avanço da inteligência artificial, somados à enxurrada de novas bandas que surgem diariamente, conquistar espaço no mercado musical tornou-se uma tarefa quase impossível. Sem um investimento significativo em produção, divulgação e marketing, as chances de alcançar visibilidade são muito menores. No underground, viver exclusivamente de música é praticamente inviável — por isso, muitos músicos precisam manter trabalhos paralelos para se sustentar.
Mesmo as bandas intermediárias, em situação teoricamente mais estável, vêm enfrentando dificuldades devido aos altos custos de turnês e à inflação dos gastos logísticos desde a pandemia de Covid-19. Alguns artistas relatam que a sua principal fonte de renda atualmente é a venda de merchandising, que se tornou o verdadeiro carro-chefe da subsistência de uma banda. Paralelamente, há também a luta dos músicos contra as plataformas de streaming — especialmente o Spotify — pelos valores ínfimos de royalties pagos aos artistas.
Na noite do último dia 12 de outubro, durante uma apresentação da banda de música alternativa/indie Garbage, no Mission Ballroom em Denver, Colorado, a vocalista Shirley Manson falou justamente sobre essa situação com o seu público. Ela criticou o Spotify por recompensar mais os artistas genéricos, enquanto os artistas relmente criativos, recebem apenas migalhas. Manson ainda informou os fãs que a banda não se apresentará mais como atração principal na América do Norte:
“Anunciamos que esta é nossa última turnê como atração principal pela América do Norte. Com isso, queremos dizer que se tornou totalmente insustentável para uma banda como a nossa fazer turnês em qualquer lugar, exceto na costa. E é frustrante, mas tivemos uma carreira gloriosa de 30 anos e realmente não temos do que reclamar. Mas eu falo sobre isso todas as noites porque acho fundamental que todos nós comecemos a entender o que exatamente está acontecendo na indústria musical.
E é difícil entender, né? Porque você vê todas essas grandes estrelas pop ganhando bilhões e bilhões e bilhões de dólares, são ricas, glamorosas e incríveis. Mas o problema é que a maior parte da indústria musical não é feita dessas grandes estrelas pop. Elas são feitas de músicos profissionais.
Isto não é uma festa de piedade para nós. É um alerta para todas as jovens gerações de músicos que estão na nossa esteira e que nos sentimos na obrigação de defender, porque não há ninguém que os defenda. Não existe um órgão governamental, não existe um sindicato realmente eficaz para os músicos, e essa luta para que os jovens músicos sejam pagos — o músico médio ganha US$ 12 por mês no Spotify. Eles dormem em suas vans, têm vários empregos e se esforçam ao máximo todas as noites.
E o fato de que eles nem conseguem vender um disco, e o disco é tirado deles por filhos da puta ricos em plataformas de streaming que recebem salários majestosos de gravadoras, que recebem salários majestosos da Ticketmaster, que recebem salários majestosos de empresas de merchandising, que recebem salários majestosos… a lista é infinita. Há contadores, há advogados, todos eles recebem um salário… exceto o músico.
Então, eu trago isso à tona hoje à noite porque vocês são os que vão perder uma geração de esotéricos, arriscados, criativos, aventureiros, rebeldes, agitadores, provocadores — vocês vão ficar com o pão branco. É isso. Muito obrigado por terem vindo hoje à noite, por nos apoiarem há 30 anos. Nosso amor por vocês é forte. Continuem apoiando a música ao vivo quando puderem, comprem vinil quando puderem.”