O disco de Heavy Metal que vai te deixar morrendo de medo

Álbuns conceituais são aqueles que te contam uma história ou são baseados em um tema que guia a perspectiva lírica em todas as faixas do tracklist. Podemos dizer que o Rock e o Heavy Metal são os gêneros onde este tipo de obra se proliferou e ganhou contornos épicos.

Desde “The Wall” (Pink Floyd), “Tommy” (The Who) e “The Rise And Fall Of Ziggy Stardust And The Spiders From Mars” (David Bowie), até grandes obras do Heavy Metal como “Operation: Mindcrime” (Queensrÿche), “Streets: A Rock Opera” (Savatage) e “Nightfall In Middle Earth” (Blind Guardian), os conceituais passaram a fazer parte do imaginário dos fãs.

A imersão que um álbum conceitual proporciona é algo que precisa ser levada em consideração. Além de deixar-se impressionar com o som, com a técnica e com as melodias, no caso de uma obra conceitual, outros fatores serão certamente tão ou mais importantes. O desenvolvimento da narrativa, a interpretação, assim como a qualidade com que a história é contada, tudo isso fará que a experiência se transforme em algo transcendental.

O especialista!

Basicamente qualquer tipo de temática pode ser abordada num disco desse tipo, mas quando o compositor resolve levar o ouvinte para dentro de uma história densa de terror, a experiência pode ser ainda mais marcante. E se pensarmos que o músico em questão é um compositor fantástico e possui habilidades interpretativas muito acima da média, aí é jogo ganho.

E é exatamente o que Kim Bendix Petersen — ou se preferir, King Diamond — sabe fazer com maestria. Ao longo de sua carreira, King se transformou num mestre dos discos conceituais. Desse modo, podemos afirmar que todos eles trazem histórias que são verdadeiros roteiros para filmes de terror. E todos estes roteiros escritos pelo próprio músico, é bom que se diga.

As habilidades do vocalista são extremamente conhecidas dentro do mundo da música pesada, não apenas pelos dotes vocais que usam e abusam de falsetes e outras técnicas, mas também pelos álbuns temáticos e pelos shows teatrais. Acontece que tem um álbum específico que carrega uma história tão escabrosa que, caso você resolva ouvir seguindo as letras, vai receber em troca uma experiência realmente assustadora.

“Them” (1988)

A macabra reunião em Amon

“Them” não é apenas um álbum conceitual, mas uma verdadeira peça de horror teatral narrada em primeira pessoa. A história começa de maneira aparentemente inocente: King, sua mãe e sua irmã Missy recebem em casa a avó (Grandma), recém-saída de um asilo psiquiátrico. No entanto, o clima de reencontro familiar logo se transforma em algo inquietante. Durante a noite, King ouve vozes vindas da sala e, curioso, decide investigar. O que encontra é perturbador: sua avó participando de um chá fantasmagórico, onde as xícaras e bules flutuam como se tivessem vida própria. Ao ser convidado a sentar-se na cadeira da avó, King encara os olhos dela e, sob sua influência hipnótica, é instruído a esquecer tudo o que viu.

O segredo de Amon e a influência de “Them”

Não demora para que a avó revele segredos ainda mais sinistros. Ela desperta King e lhe apresenta o coração da trama: “Amon”, um bule que não é apenas um objeto de chá, mas um receptáculo de poder sobrenatural. É através dele que “Eles” – as vozes invisíveis, entidades chamadas apenas de “Them” – se manifestam.

Para satisfazê-los, é preciso sangue. Sem hesitar, a avó corta a mão da mãe adormecida e mistura seu sangue ao chá. Ao beber, King é enfeitiçado: o líquido funciona como um narcótico que inclusive o conecta às forças ocultas da casa. Já Missy, a irmã, percebe o mal que cresce ao redor da família. Desesperada, tenta convencer King a buscar ajuda, mas ele, já corrompido pela influência das vozes, corta a linha telefônica, isolando a todos do mundo exterior.

O sacrifício de Missy

O ponto de ruptura ocorre durante um novo “chá”. Missy, indignada, confronta a avó e denuncia o estado deplorável da mãe. Sua rebeldia, entretanto, tem consequências brutais. Em um ato de resistência, Missy quebra o bule “Amon”, desafiando diretamente o poder de “Them”. A resposta é imediata e impiedosa: as entidades, furiosas, usam um machado para esquartejá-la, jogando seus restos na lareira da cozinha. O horror faz King despertar do transe – agora sem o domínio das vozes, ele percebe o abismo em que sua família está lançada.

O confronto final

Atormentado, King decide que precisa agir. Ele descobre que a influência de “Them” enfraquece fora da casa. Assim, atrai a avó para fora e a mata em um último ato de desespero. Mas a vitória é ilusória. As vozes continuam a assombrá-lo, e sua sanidade se desfaz. Interrogado pela polícia, ele é considerado louco e enviado para um asilo. O ciclo parece completo: agora King ocupa o mesmo destino que outrora fora da avó.

O eterno retorno do horror

O epílogo, entretanto, é ainda mais sombrio. Anos depois e libertado, King retorna à casa de sua infância. Mas o que encontra prova que o pesadelo nunca teve fim: as vozes de “Them” ainda ecoam pelos corredores, e sua avó está de volta. O horror eterno aprisionado nas paredes de “Amon” faz com que o ouvinte fique com a sensação de que a história está condenada a repetir-se para sempre.

Esse álbum não é só uma coletânea de músicas, mas um conto de horror incrível contado através de riffs agressivos, vocais teatrais e uma atmosfera sobrenatural. Ao ouvi-lo, cada faixa se torna um capítulo da narrativa, mergulhando o ouvinte em um pesadelo progressivo que mistura loucura, espiritualismo e violência familiar. “Them” é um convite a atravessar os portões da casa de “Amon” e testemunhar, de dentro, a possessão do horror.

O álbum ainda possuiu uma continuação, com um novo capítulo da história. “Conspiracy” (1989) é mais um conto assombroso e cheio de reviravoltas envolvendo o personagem King, mas isso é assunto para outra matéria.

Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
1 comentário
  • Absolute metal, fantastic

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