O Angra está de volta… e isto é péssimo!

A volta dos que não foram

Há apenas sete meses, após uma turnê de revival do álbum “Temple Of Shadows” (2004), o Angra anunciou que entraria em um período de hiato por tempo indeterminado. A justificativa era preservar a saúde da banda e a formação atual. No entanto, o grupo aceitou sair do hiato para ser headliner do Bangers Open Air, que acontece no Memorial da América Latina, em São Paulo, no próximo dia 26 de abril.

O show marcará a aguardada reunião da formação “Nova Era” após quase 20 anos. Sim, desde 2007, Edu Falaschi (voz), Kiko Loureiro (guitarra), Rafael Bittencourt (guitarra), Felipe Andreoli (baixo) e Aquiles Priester (bateria) não dividem o mesmo palco.

Mas não se trata exatamente de uma reunião. Alírio Neto, anunciado como novo vocalista do grupo, estará presente na ocasião e cantará músicas da fase Andre Matos. O cantor italiano Fabio Lione, por outro lado, está fora dos planos futuros, mas também participará para fazer seu show de despedida e interpretar músicas de sua fase.

Além disso, um show extra com a formação “Nova Era” + Alírio Neto, Marcelo Barbosa e Bruno Valverde foi marcado para o dia 29 de abril, em São Paulo, no Espaço Unimed.

A nova notícia é o retorno às atividades do Angra para o segundo semestre. A proposta será simples: tocar o álbum “Holy Land” (1996) na íntegra em mais uma turnê de revival. E a pergunta que não quer calar é: que diacho de retorno é esse?

Aviso aos fãs xiitas, cheerleaders e advogados de defesa: recomendamos não prosseguirem com a leitura!

Do auge ao Cirque du Soleil

1. O Início

Por conveniência, muitos fãs se esquecem de pontos-chave da trajetória do Angra, mas aqui vamos relembrar alguns fatos.

Como todos sabem — ou ao menos deveriam saber — o Angra nasceu a partir de uma demanda do mercado europeu e japonês. O álbum “Theatre Of Fate” (1989), do Viper, destacou-se nessas regiões. Pouco depois, porém, Andre Matos deixou a banda.

Sem Andre, o Viper não conseguiu suprir o interesse do público estrangeiro. Diante disso, no início dos anos 1990, empresários brasileiros passaram a investir em um novo projeto liderado pelo vocalista. Era um investimento praticamente certo. A partir desse cenário, um projeto idealizado por Rafael Bittencourt, então estudante de música, se uniu às necessidades de Andre Matos e de seus empresários, dando origem ao Angra.

Antes mesmo da gravação do primeiro álbum, a banda já era um projeto viabilizado, com verba, estrutura e planejamento profissional. Isso não significa que os músicos não fossem talentosos ou que as músicas não fossem ótimas — mas sejamos honestos: quantas bandas você conhece que, logo no primeiro trabalho, gravam na Alemanha, no estúdio de Kai Hansen, com Charlie Bauerfiend na produção e contrato assinado com gravadora?

2. O Auge

Era um investimento com grandes chances de sucesso — e deu certo. “Angels Cry” (1993) apresentou a banda ao público, emplacou músicas de destaque e preparou o terreno para o que viria depois.

Com “Holy Land” (1996), o Angra realmente furou a bolha e conquistou o mercado europeu e japonês. No entanto, como já era comum, o relacionamento interno seguia conturbado. Mesmo com tudo dando certo profissionalmente, Andre Matos já cogitava deixar a banda antes das gravações de “Fireworks”.

Ele acabou permanecendo, e o disco consolidou o grupo como uma grande banda. Em 1999, o Angra tocava em casas cada vez maiores na Europa, acumulava diversos sold outs e contava com bandas de abertura como Blind Guardian, Stratovarius e Edguy.

Talvez o ápice tenha sido o show realizado em 16 de janeiro de 1999, no Le Zenith, em Paris, quando — segundo relatos — empresários de Bruce Dickinson solicitaram uma participação especial do músico. Felizmente, há registros em vídeo que comprovam o ocorrido.

3. Renascimento e Queda

Por que voltar tanto no tempo? Simples: no Brasil, existe uma narrativa quase fictícia sobre a trajetória do Angra.

Muitos fãs — especialmente os que não viveram aquela época — acreditam que o auge da banda ocorreu durante os álbuns “Rebirth” (2001) e “Temple Of Shadows” (2004). E há um motivo para isso: esses discos foram, de fato, os mais vendidos no Brasil.

Mas aqui está o detalhe: apenas no Brasil.

Internacionalmente, o Angra jamais repetiu o impacto da fase inicial — nem com Edu Falaschi, nem com Fabio Lione e, muito provavelmente, também não repetirá com Alírio Neto.

Era outro contexto. Nos anos 1990, o Power Metal estava em alta. Hoje, o gênero perdeu força, e o Angra foi se desgastando com conflitos internos, exposição negativa, decisões ruins e outros fatores.

Houve, sim, um renascimento com “Rebirth” e “Temple Of Shadows”, mas depois disso a banda passou a falar apenas para convertidos. Criou-se uma bolha — o chamado “Angraverso” — fora da qual o grupo praticamente não possui relevância.

São palavras duras, mas verdadeiras.

4. Cirque du Soleil

Com o primeiro grande racha do Angra, após a saída de Andre Matos, Luis Mariutti e Ricardo Confessori, os fãs passaram a dividir a atenção entre duas bandas: Angra e Shaman. Inicialmente, isso foi positivo, já que surgiram dois grupos lançando ótimos discos. No entanto, com o passar do tempo, ambas as bandas também enfrentaram novas divisões, dando início a um cenário cada vez mais caótico.

Em 2007, Aquiles Priester foi desligado do Angra, retornou ao Hangar e, posteriormente, integrou o Noturnall. Já Edu Falaschi fundou o Almah e, atualmente, dedica-se à carreira solo. O Shaman, por sua vez, teve vida curta e acabou se fragmentando: de um lado, a carreira solo de Andre Matos; de outro, uma nova versão da banda liderada por Ricardo Confessori, com Thiago Bianchi nos vocais.

Com o tempo, os caminhos voltaram a se cruzar. O Almah, por exemplo, cedeu o guitarrista Marcelo Barbosa ao Angra, enquanto Bianchi passou a integrar o Noturnall ao lado de Aquiles, que hoje também toca com Edu Falaschi. Em determinado momento, o Shaman retornou com sua formação original. Porém, após a morte de Andre Matos em 2019, o grupo seguiu com Alírio Neto nos vocais — músico que atualmente também integra o Angra.

Além disso, Luis Mariutti chegou a formar o Ready To Be Hated com Thiago Bianchi, mas o projeto não prosperou. Hoje, ele lidera o Shamangra, uma banda cover cujo nome dispensa comentários. Como se vê, a história se transformou em uma verdadeira confusão.

Para piorar, ao longo das décadas, os integrantes do Angra se acostumaram a expor conflitos publicamente. Acusações, polêmicas, revelações de bastidores e trocas de farpas tornaram-se frequentes. Recentemente, no entanto, essas desavenças parecem ter sido amenizadas — segundo comentários — por motivos bastante pragmáticos: dinheiro.

O grande esquema do Angra

1. Cover x Autoral

No início dos anos 1990, com o surgimento do Angra, havia cinco jovens músicos talentosos em busca de um sonho. Hoje, pouco mais de 30 anos depois, existem entre 20 e 25 músicos — em sua maioria na casa dos cinquenta anos — concentrando grande parte do cenário nacional ligado a essas bandas.

E sabe o que todos estes caras têm em comum além de alguma conexão com o Angra? A percepção de que, na indústria musical atual, destacar-se com material inédito é extremamente difícil. Produzir novos álbuns, sair em longas turnês promocionais e construir uma carreira do zero exige esforço enorme — algo que milhares de bandas ao redor do mundo enfrentam diariamente.

Diante disso, muitos optaram por um caminho mais simples: investir em turnês comemorativas, tocando discos clássicos e explorando a nostalgia do público. Em vez de apostar no novo, preferem revisitar o passado.

Se fosse apenas o Angra fazendo isso, talvez não fosse um problema. No entanto, diversas bandas adotaram a mesma estratégia, ocupando espaços que poderiam ser destinados a novos artistas — inclusive em grandes festivais.

Nos últimos anos, houve uma enxurrada de apresentações com essa proposta. O Angra, mesmo com um álbum recente — “Cycles Of Pain” (2023) —, passou meses em turnê celebrando os 20 anos de “Temple Of Shadows”. E isso não foi algo isolado: o mesmo já aconteceu com “Angels Cry”, “Holy Land” e “Rebirth”.

Edu Falaschi seguiu caminho semelhante, realizando turnês dedicadas a “Rebirth”, “Temple Of Shadows” e até ao álbum ao vivo “Rebirth World Tour” (2001). Paralelamente, Luis Mariutti promove apresentações em homenagem a Andre Matos com o Shamangra, enquanto o All Metal Stars, com Aquiles Priester, Edu Ardanuy e Thiago Bianchi, repete a mesma fórmula.

2. Os espólios de Andre Matos

Em entrevista ao canal Manrasta Connection, o músico brasileiro Bill Hudson, atualmente radicado nos Estados Unidos e com passagens por bandas como I Am Morbid, Doro Pesch, Circle II Circle, Trans-Siberian Orchestra, UDO e As I Lay Dying, comentou sobre Andre Matos:

“Para mim, o maior gênio do estilo foi o André Matos. Não é apenas uma questão de gosto pessoal, mas de talento. Hoje, no Brasil, tem umas vinte pessoas gozando com o pau dele, tocando suas músicas. Deveriam deixar o cara descansar e criar algo próprio. Ele foi extremamente talentoso e, ainda assim, subestimado. Se fosse europeu ou americano, seria uma lenda mundial.”

As declarações geraram repercussão negativa, mas, ao observar os acontecimentos ao longo dos anos, é difícil ignorar o ponto levantado.

Em determinados momentos da carreira, Andre Matos enfrentou dificuldades significativas. Chegou a se apresentar em locais pequenos, com público reduzido, enquanto seu talento era constantemente questionado. Muitos de seus trabalhos após o fim do Shaman passaram despercebidos.

Entretanto, como frequentemente ocorre, o reconhecimento pleno veio apenas após sua morte. Infelizmente, o protagonista não está mais aqui e sua própria obra está sendo comercializada e explorada por coadjuvantes.

3. A exploração do Angraverso

É inegável que a música desperta emoções profundas. Os discos associados ao Angra e seus derivados estão ligados a momentos importantes na vida de muitos fãs. Nesse contexto, o que se observa atualmente é uma tentativa de extrair ao máximo esse valor emocional.

A lógica parece simples: explorar essas obras até que se esgotem completamente. Enquanto isso não acontece, o público continua sendo exposto a diferentes formações e projetos, todos orbitando o mesmo repertório.

Embora os rostos mudem, as músicas permanecem as mesmas. Além disso, com o avanço da idade dos músicos, as performances tendem a se distanciar das versões originais. Em alguns casos, novos integrantes são incluídos sem qualquer ligação histórica com o material, o que reforça a sensação de estarmos diante de verdadeiras bandas cover.

Até mesmo bandas autorais acabam sendo absorvidas por esse sistema. Atualmente, é possível pagar para abrir shows do Angra — uma prática que evidencia um modelo de negócio questionável e pouco saudável para a cena.

Um retorno fajuto?

Diante desse cenário, surge um ponto preocupante: a segunda maior banda brasileira da história parece operar mais como uma empresa do que como um projeto artístico. Não existe uma direção clara nem quando pensamos em plano de carreira.

Cada vez mais, a impressão é de que os músicos envolvidos buscam caminhos mais fáceis, priorizando o lucro imediato em detrimento da criatividade. Realizar turnês tocando álbuns clássicos, como “Holy Land”, exige muito menos esforço do que produzir material inédito.

Além disso, esse tipo de turnê praticamente garante casas cheias, fãs xiitas satisfeitos e algumas oportunidades comerciais vantajosas — como vender aberturas de show.

Resta, então, a pergunta: até quando?

Esse será o legado do Angra para o Metal brasileiro? Uma discografia relevante concentrada em cinco álbuns, sendo o mais recente lançado há mais de duas décadas e seguido por trabalhos considerados burocráticos, com uma sucessão de turnês nostálgicas?

Enquanto isso, ex-integrantes disputam espaço em um cenário cada vez mais saturado, dividindo um público que, aos poucos, pode se tornar indiferente.

Um desfecho, no mínimo, melancólico. Para não dizer patético…

Fabio Reis
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
4 comentários
  • Sou fã, mas entendo o ponto do artigo. Tem um misto de felicidade de saber que o Holy Land vai ganhar uma turne merecida, com uma decepção de não seguirem em frente com algo novo. Nesse ponto, sinto falta do Fabio Lione que queria tocar novos projetos. E por sinal, Cycles of Pain é um dos melhores álbuns da banda na minha opinião …

  • Não tem nem o que falar a respeito… Gostaria que mais pessoas lessem isso.

  • excelente materia ,para mim e puro oportunismo e ganancia por grana facil viver puramente de nostalgia erro crasso vai custar a relevancia desses musicos que literalmente vivem do passado que muitos vezes nem viveram ,da colocar um paralelo do Death com trocentas bandas cover de luxo vivendo da eterna nostalgia dos albums do chuck.

  • Artigo muito lúcido. Mencionaria a carreira solo de Edu Falaschi que tenta fugir desse ostracismo. Mas realmente é triste porque não são os próprios músicos envolvidos com o Angra os culpados. Rafael Bittencourt já tentou novo projeto, não embalou. Kiko vira e mexe faz alguma coisa, não embala. Ricardo Confessori, Luis Mariutti, Andre Matos… todos tentaram coisa diferente e não tem retorno algum. A verdade é que o público só quer aquilo que se faz a muito tempo atrás. Não há mais uma industria da música… há uma indústria da nostalgia.

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