Músicos ligados ao Angra hostilizam deputada do PL por usar camiseta da banda; Kiko Loureiro nega comentário

Uma fotografia da deputada estadual eleita Eduarda Campopiano (PL-SP) usando uma camiseta do Angra acabou se transformando em mais um episódio da polarização política que tomou conta das redes sociais durante o período eleitoral.

A imagem foi publicada pelo perfil de Anderson Bonani, profissional responsável pelo visual da parlamentar. A postagem, acompanhada pela música “Make Believe”, chamou atenção depois que Marco Antunes, ex-baterista do Angra, resolveu se manifestar de maneira bastante agressiva.

Antunes, que atualmente utiliza o nome Marco Leão Sol, escreveu:

“Tira essa camiseta, fascistinha de merda, demônio precoce. Como cofundador e anjo brabo precoce, te declaro excomungada. E vá pro raio que a parta, psicopatinha de merda. É cada coisa que a gente gostaria de ‘desver’…”

A publicação acabou sendo apagada posteriormente.

Marco Antunes fala como cofundador, mas sua passagem pelo Angra foi irrisória

É verdade que Marco Antunes participou da formação original do Angra e, portanto, possui importância histórica na criação da banda. Também é verdade, porém, que sua passagem terminou ainda durante as gravações de “Angels Cry”, primeiro álbum do grupo.

O próprio Andre Matos contou posteriormente que o produtor Charlie Bauerfeind concluiu que Antunes não conseguiria entregar as partes de bateria dentro do padrão e do cronograma que pretendia para o disco. Bauerfeind apresentou duas alternativas: utilizar bateria eletrônica ou contratar outro músico para realizar as gravações. O Angra optou pela substituição.

Quem acabou gravando praticamente todas as baterias de “Angels Cry” foi Alex Holzwarth, enquanto Thomas Nack tocou em “Wuthering Heights”. Antunes, portanto, não possui nenhuma performance registrada nos álbuns de estúdio do Angra, embora tenha participado da fase inicial, tocado na demo “Reaching Horizons” e apareça entre os compositores de “Evil Warning”.

Com este histórico, Marcos decidiu mais de três décadas depois “excomungar” alguém do público do Angra por divergência política.

E então apareceu o “Credo” atribuído a Kiko Loureiro

A polêmica ganhou uma segunda camada quando começou a circular um print mostrando o perfil verificado de Kiko Loureiro comentando apenas:

“Credo”.

A captura se espalhou rapidamente e diferentes veículos chegaram a tratar inicialmente a manifestação como verdadeira. Depois da repercussão, porém, Kiko negou categoricamente ter escrito o comentário:

“Recebi a notícia mencionando que eu havia comentado nesse post e vim aqui descobrir do que se tratava. Eu nunca escrevi nenhum comentário aqui, eu nem sabia a existência dessa candidata até ontem. Comentário nunca existiu.”

A história, contudo, não terminou com a negativa.

Anderson Bonani, autor da publicação original, afirmou posteriormente que Kiko teria apagado o comentário depois de ele mencionar a possibilidade de tomar medidas judiciais. Outro usuário também declarou possuir prints e uma gravação de tela e afirmou ter sido bloqueado pelo guitarrista após repercutir o episódio.

Além disso, há relatos de pessoas que dizem ter visto o comentário enquanto ainda estava publicado e afirmam que, ao clicar diretamente no perfil exibido na interação, foram direcionadas à conta oficial do músico.

Neste momento, portanto, existem duas versões conflitantes. Kiko afirma que jamais escreveu a mensagem, mas pessoas que acompanharam o episódio sustentam que o comentário foi efetivamente publicado do perfil oficial e foi posteriormente apagado.

O Angra nunca foi uma banda político-partidária

É aqui que a história ultrapassa uma simples briga de Instagram. O Brasil atravessa mais uma eleição marcada por enorme polarização. Os ânimos estão acirrados, artistas fazem manifestações políticas e pessoas transformam praticamente qualquer assunto em extensão da disputa eleitoral.

Mas o Angra, durante mais de três décadas, nunca construiu sua trajetória como uma banda político-partidária. Seus discos não funcionam como propaganda de direita ou esquerda. Seu público não foi formado em torno de uma determinada candidatura, partido ou orientação ideológica. Muito pelo contrário.

É absolutamente óbvio que uma banda com décadas de história, milhões de ouvintes e fãs espalhados pelo Brasil e pelo mundo possui entre seu público pessoas de esquerda, direita, centro, liberais, conservadores, progressistas e gente que simplesmente não quer saber de política.

Esse público comprou discos, camisetas, pagou ingressos, acompanhou turnês e ajudou a transformar o Angra em uma das maiores bandas da história do Metal brasileiro.

Se determinados fãs não são bem-vindos, tenham coragem de dizer

Por isso, existe uma questão muito simples de coerência. Se músicos ligados à história de uma banda realmente acreditam que pessoas de determinado espectro político não deveriam utilizar suas camisetas, então talvez seja melhor dizer isso claramente.

Façam um comunicado público. Digam que não querem fãs de determinada orientação política. Digam que não querem vender merchandising para essas pessoas. Peçam que não querem que comprem seus discos e não querem o dinheiro delas nos ingressos dos shows.

Seria uma posição radical? Sem dúvida. Mas pelo menos seria coerente.

O que não parece minimamente razoável é aceitar durante décadas que pessoas das mais diversas opiniões sustentem comercialmente uma banda e, quando uma delas aparece publicamente usando uma camiseta, agir como se fosse necessário apresentar um certificado ideológico para fazer parte daquele público.

Músicos com mais de 50 anos agindo como adolescentes em rede social

Existe ainda um componente particularmente constrangedor nessa história. Não estamos falando de adolescentes descobrindo política e brigando em comentários de rede social. Estamos falando de músicos experientes, com décadas de carreira e mais de 50 anos de idade.

Discordar politicamente de Eduarda Campopiano é absolutamente normal. Mas partir para xingamentos como “fascistinha de merda”, “psicopatinha” e dizer que alguém deve “tirar a camiseta” de uma banda porque possui uma visão política diferente parece muito mais próximo de uma briga adolescente de internet do que da postura esperada de alguém com décadas de vida pública.

Marco Antunes utilizou explicitamente sua condição de cofundador para justificar a declaração. Ele não falou apenas como indivíduo. Usou sua ligação histórica com o Angra para afirmar que estava “excomungando” alguém do universo da banda. É justamente por isso que uma posição oficial do grupo seria pertinente.

Não sobre eleições. Não sobre quem os atuais integrantes pretendem apoiar, mas sobre algo muito mais básico: O Angra considera que pessoas de determinado espectro político não são bem-vindas entre seus fãs?

Se a resposta for não talvez seja importante deixar claro que ataques realizados por antigos integrantes não representam a posição da banda. Existe uma diferença enorme entre um músico expressar sua preferência eleitoral e tentar utilizar o nome de um grupo com milhões de fãs para determinar quem tem ou não autorização ideológica para vestir sua camiseta.

Pelo que nos lembramos, esse público nunca precisou apresentar título de eleitor para ouvir “Carry On”.

Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
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