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Metal é feito pela burguesia e para burguesia. Bruce Dickinson está certo!

Enquanto muitos amantes do Heavy Metal declaram à plenos pulmões o quanto o estilo é “inclusivo”, “politizado” e “feito pela classe operária”, uma das maiores personas do estilo resolveu afirmar justamente o contrário.

   

A declaração

Em uma nova entrevista concedida ao jornalista Matt Mills, do jornal britânico The Telegraph, o vocalista do Iron Maiden, Bruce Dickinson, afirmou que o Heavy Metal, principalmente, aquele representado pelas grandes bandas, é feito por nada menos que a burguesia. O comentário gerou uma enorme discussão nas redes e, desde então, o tema foi motivo de amplo debate nos últimos dias.

Segundo Bruce:

“Com exceção do Black Sabbath, nenhuma das grandes bandas de heavy metal é outra coisa senão a burguesia”.

Depois desta declaração, Bruce ainda foi provocado pelo entrevistador e precisou responder se ele também seria uma criança chique e parte da tal burguesia, já que ele estudou em uma escola particular. Bruce rebateu:

“Eu não era um moleque chique ou metido, e é por isso que meus colegas me batiam na escola. Eu achava eles todos um bando de idiotas metidos a gente chique, e eu disse isso a todos eles”.

Reprodução

Um adendo importante aqui. Se procurarmos pelo significado da palavra “burguesia”, vamos perceber que se trata da “classe social dominante do sistema capitalista, formada por proprietários de bens ou capitais”. Nas falas de Bruce, fica evidente que ele usa o termo como espécie de referência sarcástica e, portanto, não literal para falar de “riquinhos” e “pessoas chiques e metidas”. Isto é, ele faz referência a classes média e alta e chama ambas de “burguesia”.

Pois bem, entendendo isso, podemos fazer alguns questionamentos importantes. Será mesmo que Bruce Dickinson está com a razão e a maioria das grandes bandas que conhecemos são formadas por burgueses? Esses caras enganaram grande parte de seus fãs durante esse tempo todo? O Metal está mais elitizado nos dias atuais? Seja como for, vamos juntos decifrar essas questões e tentar chegar a um entendimento sobre a atual condição do Metal.

Opinião Mundo Metal

Primeiro de tudo, há um entendimento equivocado sobre o Black Sabbath ter sido poupado no comentário feito por Bruce. Muitos “jornalistas” e fãs abobalhados correram para levantar e expor os valores que correspondem a fortuna atual de Ozzy Osbourne e Tony Iommi, mas na verdade, o que o cantor do Iron Maiden quis dizer é que no começo do Heavy Metal, o Black Sabbath era a exceção por não ter surgido das elites burguesas e sim da classe operária. Obviamente, depois do sucesso conquistado através dos inúmeros clássicos que a banda apresentou ao mundo, os músicos ganharam muita grana e, dessa forma, deixaram de fazer parte da “classe operária”. Bruce apenas especificou que eles realmente começaram de baixo.

Reprodução

Sobre as outras grandes bandas da época, sabemos que muitos daqueles músicos podiam até não serem ricos, mas ostentavam certo status social e/ou contavam com recursos oriundos de familiares melhores estruturados financeiramente. É difícil exemplificar uma banda que se tornou realmente grande e seus membros vieram de baixo. Portanto, realmente, podemos dizer que com exceção do Black Sabbath, os outros grandes nomes chegaram ao estrelato com a vantagem de ter dado seus pontapés iniciais já com melhores condições e com uma “ajudinha externa”.

Não somente as grandes bandas…

Se passarmos a analisar a fala de Bruce saindo um pouco do escopo das grandes bandas, isto é, se resolvermos abranger todas as bandas, incluindo aquelas mais undergrounds, aí sim, vamos chegar a resultados um pouco diferentes. E o resultado é apenas “um pouco” diferente, pois caso uma banda não tivesse estrutura, ela necessitaria obrigatoriamente que uma gravadora resolvesse “acreditar” nela. Leia-se, apostar e investir grana.

E com as gravadoras funcionava da seguinte forma: os músicos recebiam adiantamentos em dinheiro para custear a gravação e o lançamento dos discos. Posteriormente, recebiam a oportunidade de excursionar para divulgar o material. Se tudo desse certo e o trabalho fosse considerado um sucesso, as gravadoras continuariam “bancando” a banda nos próximos registros. Obviamente, o adiantamento recebido, em caso de sucesso, era cobrado. E a cobrança vinha com juros, taxas, acréscimos e todo tipo de falcatrua que pudesse sugar o lucro do artista.

Photo: Tjeerd Royaards/Cartoon Movement

Mas enfim, depois de dar uma quantidade enorme de dinheiro para gravadoras e grandes empresários, os músicos finalmente começavam a ganhar muito dinheiro também. Traduzindo: caso não conseguissem passar pelo teste de fogo, voltavam para o underground endividados. Caso conseguissem, ganhavam valores assombrosos de dinheiro e, logo, se tornavam novos burgueses, muitos deles, no sentido literal da palavra, comprando gravadoras e se tornando os novos donos dos meios de produção.

   

Percebam que se você fosse uma banda naqueles tempos, ou você vinha da burguesia ou você se submetia aos mandos e desmandos dos executivos burgueses das megacorporações. Sendo assim, podemos concluir que a afirmação de Bruce Dickinson neste ponto está absolutamente correta.

Como assim, feito para a burguesia?

Mas e com relação ao título da matéria? Nele existe uma afirmação em que o Metal é feito para a Burguesia!

Sim, é feito para a burguesia. Principalmente, se aceitarmos essa visão ao qual Bruce Dickinson resolver colocar os burgueses apenas como pessoas detentoras de muito capital. Você duvida? Então responda rapidamente: quanto custa um CD novo? E um LP novo? Quantos você consegue comprar por mês? Quanto custa uma camiseta oficial? Você compra merchandising oficial com regularidade? Quanto você paga em um ingresso de show para ver uma banda internacional de prestígio? Quanto custa um par de ingressos para um festival badalado (como o Summer Breeze, Monsters Of Rock ou Knotfest, por exemplo)? Quantos destes você consegue assistir por ano? Quanto você paga em uma lata de cerveja dentro desse ambiente de show? Quanto custa o alimento dentro desse ambiente de show?

Reprodução/Facebook
Reprodução/Facebook
Reprodução/Youtube

Já parou pra pensar sobre isso?

São valores bem distantes da realidade da imensa maioria do povo brasileiro, por exemplo.

Separando o joio do trigo

Nós podemos ter um entendimento que a arte em si, e aqui me refiro as músicas criadas pelos artistas, não são feitas para burgueses e sim para todos os públicos. Só que mesmo assim, precisamos ter um entendimento mais aprofundado em que, caso você não seja um burguês, estará fadado a não usufruir do melhor que o Metal tem a te oferecer.

Esqueça aquela versão deluxe do Iron Maiden com CD triplo, uma infinidade de faixas bonus, livro, poster e demais bugigangas. Esqueça aquele box do Kreator megacaprichado com todos os LPs em vinil colorido. Não vai rolar assistir ao show do Mercyful Fate no Summer Breeze com sua namorada por que cada ingresso custa mil e duzentos reais. O AC/DC virá ao Brasil e, caso você consiga comprar o ingresso, provavelmente, irá parcelar no cartão em dez vezes para ficar num lugar tão longe do palco que você vai precisar assistir ao show pelo telão.

Eu sei, é triste!

Reprodução/Divulgação
Reprodução/Divulgação

Mas e o burguês?

Bem, o burguês irá ter todas aquelas versões de CD’s e LP’s dos sonhos, ele comprará ingressos para quantos festivais ele quiser ir e vai assistir aos shows diretamente da pista premium ou do camarote. Talvez ele queira participar do meet & greet para poder postar nas redes sociais uma foto ao lado do seu artista favorito. Talvez queira ir a edição do Wacken Open Air este ano, talvez ele vá ao Wacken e também vá ao Hellfest. Ah, esse cara também não se preocupa com preço de bebida ou comida nos eventos, ele compra o ingresso superfaturado que dá direito ao open bar…

Você pode não gostar do que está lendo, mas é a mais pura verdade. O Metal está cada vez mais elitizado. Os produtos oferecidos são destinados ao cara que pode pagar por eles.

   

Se você é um fã mais raíz, um frequentador do “boteco Rock” da sua cidade que está acostumado a assistir shows do underground e apoiar as bandas locais, nesse caso, você pode até achar exagerado o que está sendo exposto aqui. Mas não se engane! Caso as bandas da sua região consigam se profissionalizar ao ponto de viver da própria música, elas vão andar cada vez mais na direção da famigerada burguesia. Quanto mais dinheiro elas ganharem e quanto mais famosas ficarem, mais elitizado será seu público. Os ingressos custarão mais caro e os materiais de merchandising oficial idem. É um ciclo e não há como fugir disso. Somente as bandas que não conseguirem qualquer tipo de vizibilidade/destaque e permanecerem nos porões mais obscuros, manterão vivos algum tipo de discurso ideológico caricato sobre amor ao underground. Tudo balela.

O que realmente pensa Bruce Dickinson

Só para deixar registrado, ao mesmo tempo em que Bruce assume que o Metal é feito pela Burguesia, ele já demonstrou não gostar disso em outras ocasiões. Em 2014, ele disse o seguinte sobre o badalado festival Glastonbury:

“Quando o ‘Glasto’ era um festival alternativo, era muito interessante. Agora, é a coisa mais burguesa do planeta. Qualquer lugar onde a atriz Gwyneth Paltrow vá e você possa ficar em uma tenda com ar-condicionado não é para mim. Deixaremos as pessoas de classe média ir ao Glastonbury, enquanto os menos endinheirados vão acampar em Knebworth, beber um monte de cerveja e realmente se divertir.”

Foto: Divulgação/Campus Party Brasil

Bruce Dickinson também reclamou da famigerada taxa de conveniência cobrada aqui no Brasil. Ele esteve na CCXP em dezembro de 2023 e mandou um recado diretamente para o presidente do Brasil:

“Ingressos no Brasil são malucos, é o único lugar em que você tem que pagar mais caro por comprar online. Lula, faça alguma coisa!”

Para nós, meros mortais e fãs incondicionais deste gênero tão apaixonante, nos resta ter esperança que nossa moeda possa se valorizar em relação ao dólar. Esse é o único modo de conseguirmos exigir preços mais justos dos produtores. Caso isso não aconteça, a desculpa seguirá a mesma de sempre: “o dólar está custando 5,00 e os artistas recebem em dólar, não tem o que fazer…”

SAD BUT TRUE

Reprodução/Instagram

Redigido por Fabio Reis

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Comentários

  1. Todos os estilos sofrem desse mal. Se quiser ver de camarote os shows do Drake, Rihanna, Ratos do Porão e Ivete Sangalo, vai ter que pagar um valor que pra muitos é abusivo. Não é uma questão de estilo, e sim da exploração que a indústria de eventos e produtos cria em cima da música. Porém, a indústria não fica bem só com os valores de ingressos de camarote. Eles precisam que as pessoas mais pobres comprem os ingressos parcelados pra pista, até com meia entrada, tanto pra engrossar o lucro final dos shows e produtos quanto pros usuários de camarote se sentirem valorizados e superiores. Então não, o estilo não é feito pra burguesia. É feito pra todos. Quem não pode pagar spotify, pirateia. Quem não consegue comprar VIP, paga meia pista. Não importa quem você seja, a empresa está interessada no seu dinheiro, dado de forma sofrida ou não.

  2. Um bom início seria acabar com a meia entrada e qualquer outro tipo de intromissão governamental na organização dos eventos, deixa o público julgar se o preço cobrado é justo ou não pra ver se o valor dos ingressos não baixa.

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