Max Cavalera relembra criação de “Chaos A.D.” e explica por que o Sepultura decidiu abandonar a fórmula de “Arise”

Em meio à turnê que celebra um dos álbuns mais importantes da história do Metal brasileiro, Max Cavalera voltou a revisitar o processo criativo de “Chaos A.D.”, trabalho lançado em 1993 e responsável por levar o Sepultura a um novo patamar de reconhecimento internacional. Ao lado do irmão Igor Cavalera, o músico tem apresentado o disco na íntegra em uma série de shows pela Europa e América do Norte, ao mesmo tempo em que compartilha histórias dos bastidores de sua criação.

Quando chegou às lojas, “Chaos A.D.” representou uma mudança significativa na trajetória do grupo. Após a sequência formada por “Schizophrenia” (1987), “Beneath The Remains” (1989) e “Arise” (1991), álbuns que ajudaram a consolidar a reputação da banda dentro do Death/Thrash Metal, o quarteto decidiu seguir por um caminho menos previsível. Em vez de repetir a fórmula que os havia tornado uma referência mundial do gênero, o Sepultura passou a incorporar elementos de Groove Metal, Hardcore/Punk e até mesmo passagens industriais em sua sonoridade.

A aposta deu resultado. Com faixas como “Refuse/Resist”, “Territory”, “Slave New World”, “Propaganda” e “Biotech Is Godzila”, o álbum conquistou espaço na imprensa especializada de diversos países e ajudou a transformar o grupo em um fenômeno global.

O álbum que expandiu as fronteiras do Sepultura

Além da evolução musical, “Chaos A.D.” também chamou atenção pelo conteúdo de suas letras. Questões políticas, conflitos sociais, violência urbana, manipulação midiática e críticas ao sistema aparecem ao longo de todo o trabalho. Canções como “Refuse/Resist” tornaram-se verdadeiros hinos da banda, enquanto “Biotech Is Godzilla”, escrita por Jello Biafra, trouxe discussões sobre biotecnologia e teorias conspiratórias para dentro do repertório.

O sucesso comercial certamente acompanhou a repercussão artística. Ao lado de “Roots” (1996), “Chaos A.D.” tornou-se um dos discos mais bem-sucedidos da carreira do Sepultura, alcançando inclusive certificação de ouro nos Estados Unidos ao ultrapassar a marca de 500 mil cópias vendidas. O álbum também ajudou a ampliar a presença da banda em diferentes mercados, fortalecendo seu nome como uma das maiores exportações do metal brasileiro.

A identidade visual do trabalho também marcou época. Dessa forma, a arte foi criada especialmente para o álbum pelo renomado ilustrador Michael Whelan, responsável pelas capas de “Beneath The Remains” e “Arise”. Diferentemente dos trabalhos anteriores, “Chaos A.D.” recebeu uma ilustração inédita desenvolvida especificamente a partir do conceito proposto pelos músicos.

Uma nova geração descobrindo os clássicos

Mais de três décadas após seu lançamento, o álbum continua atraindo novos ouvintes. Durante entrevista ao Mystic Festival, da Polônia, Max Cavalera comentou como tem sido tocar o repertório completo ao lado de Igor Cavalera.

Segundo o músico, a experiência tem um significado especial porque permite apresentar essas músicas para fãs que jamais tiveram a oportunidade de assistir à formação clássica executando o material ao vivo.

“Acho que é a melhor sensação possível porque nós amamos esse material. Prestamos homenagem àquela era. Existe toda uma nova geração de fãs que nunca teve a chance de ver a formação original tocando essas músicas.”

O vocalista e guitarrista também destacou a formação atual da banda que acompanha os irmãos na estrada. Ela é composta pelo guitarrista Travis Stone e pelo baixista Igor Amadeus Cavalera, filho de Max.

“A banda é incrível porque você tem eu e o Igor como os caras mais velhos, e o Travis e meu filho Igor como os jovens. Eles trazem juventude, trazem energia. Quando olho para os lados no palco, eles estão enlouquecendo porque amam esse disco.”

Por que o Sepultura não fez “Arise Part II”

Ao recordar o período de composição de “Chaos A.D.”, Max Cavalera revelou que a banda sabia que enfrentaria uma decisão importante após “Arise”. Muitos esperavam uma continuação direta daquele estilo, mas o grupo preferiu seguir em outra direção.

“É bem diferente de ‘Arise’. Eu me lembro de muita gente perguntando: ‘Eles vão fazer um ‘Arise Part II’ ou tentar algo diferente?’. E nós escolhemos a segunda opção.”

Na visão do músico, superar a sequência formada por “Schizophrenia”, “Beneath The Remains” e “Arise” seria uma tarefa praticamente impossível.

“Eu adoro ‘Arise’, mas é difícil superar aquilo. Entre ‘Schizophrenia’, ‘Beneath The Remains’ e ‘Arise’, existe uma trilogia de discos de death-thrash quase perfeitos. É muito difícil superar isso.”

Diante desse cenário, a banda optou por desacelerar o andamento das músicas e buscar composições mais diretas e impactantes.

“Seguimos por outra estrada. Queríamos desacelerar tudo, simplificar e tentar criar músicas mais sólidas.”

O próprio Max admite que vê “Chaos A.D.” como um trabalho peculiar dentro da discografia do grupo. Ele cita faixas como “We Who Are Not As Others” e “Kaiowas” como exemplos da liberdade criativa que dominava o processo naquele momento.

“É um disco estranho para mim também. Tem várias músicas quase instrumentais. Além disso, colocamos um cover do New Model Army no meio do álbum. Nós adorávamos a banda e pensamos: ‘Que se dane, vamos colocar isso no disco’. Era assim que fazíamos as coisas. Não existiam regras.”

Fabio Reis
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
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