Malmsteen explica como a popularização da internet fez os artistas perderem seu valor

Em uma nova entrevista concedida a Jordi Pinyol, o lendário guitarrista sueco Yngwie Malmsteen falou sobre as mudanças da indústria musical e como isso afetou os artistas nos últimos anos.

Como sabemos, a internet possibilitou a disseminação da música de uma maneira muito mais rápida e anteriormente impensada. Diversas bandas, principalmente, as novas, conseguiram entender rapidamente este mercado, mas muitos gigantes da música também se beneficiaram.

Quem conseguiu assimilar esta transição se deu bem, quem não deu a devida atenção acabou ficando para traz. E convenhamos, diversos músicos veteranos até hoje não entendem como funciona o mercado musical dos dias atuais.

Nesta entrevista mesmo, fica claro como Malmsteen sabia tudo sobre o mercado pré internet, mas ainda não conseguiu entender o mercado atual. Ele começou dizendo o seguinte:

“A indústria em si não é uma coisa bonita. Mas a verdade é que a indústria fonográfica existiu com uma premissa nos anos 70 e 80 ou seja lá o que for, por muito tempo até hoje, e eram as gravadoras que queriam ganhar dinheiro. É como qualquer empresa — elas fazem um produto e querem vendê-lo. Portanto, se surgisse uma certa banda ou uma certa tendência, eles diriam: ‘Ah, vamos encontrar a próxima’. E eles seguiam fazendo isso, ‘vamos encontrar a próxima’, ‘vamos encontrar a próxima’. Eles contratavam bandas e artistas toda semana. E virou uma espécie de fábrica de filhotes, onde a qualidade talvez não fosse a melhor o tempo todo.

Havia um criador, e então havia muitas cópias, e então havia outro criador… E não estou falando de mim ou da guitarra; estou falando de estilos. Quando o movimento grunge surgiu, foi o Nirvana que começou e depois surgiram um milhão de bandas grunge cujos nomes eu nem sei. Ou a coisa do Glam, por exemplo, Poison ou qualquer outra coisa, quando isso aconteceu, eles tinham 15, 20 outras bandas na MTV todos os dias que soavam e tinham a mesma aparência. E então isso saiu de moda.

E a razão disso acontecer era porque eles sabiam o que venderia. Havia um formato. Tudo era resumido a um formato. Você tem um formato no rádio, você tem um formato na MTV, sabe — é isso. E então, se isso muda, você muda os artistas que contrata para seguir ganhando dinheiro. Agora o tapete foi puxado porque o produto não existe. Por que você gastaria dinheiro tentando vender algo que não existe? Não há lojas de discos, não há discos. Não é mais um produto. É uma assinatura de streaming com a qual você nunca poderá ganhar o tipo de dinheiro que era ganho nos anos 80. Você nunca poderá fazer isso.

Então, isso também é um reflexo do que aconteceu com todos os guitarristas que surgiram porque viram: ‘Ah, esse Malmsteen, ele está indo muito bem. Vamos pegar um monte de outros caras e tentar ganhar dinheiro com eles também’. A mesma coisa com qualquer banda, como Bon Jovi ou qualquer outra. Quando eles fizeram sucesso, criaram centenas de bandas que soavam e pareciam iguais a eles. Era assim que era naquela época. Eu estava lá. Eu não li em um livro. Eu estava lá. Eu vi com meus próprios olhos. Eu naveguei por tudo isso e permaneci praticamente no meu próprio caminho, mas foi o que aconteceu.”

Malmsteen também reclamou da facilidade que qualquer banda ou músico iniciante tem para conseguir produzir seu próprio material sem precisar estar sob a tutela de uma gravadora:

“Hoje, não há grandes escritórios de gravadoras com representantes locais em cada cidade. Eles não fazem mais isso, porque não há redes de gravadoras, não há um sistema. Claro, existem algumas — bem pequenas —, mas estou falando de quando era a coisa certa a se fazer. Naquela época, o investidor bilionário inglês, Richard Branson, disse: ‘quero ganhar dinheiro. Vou abrir uma gravadora’. Hoje, você abre uma gravadora porque ama música — talvez — não para ganhar dinheiro.

Então, agora, com o YouTube e tudo mais, qualquer um pode fazer um disco, qualquer um pode fazer um vídeo e assim por diante. Então, tudo se diluiu. Não há impacto. Nada tem impacto.

Se voltarmos ainda mais no tempo, em 1964, os Beatles chegaram aos Estados Unidos. Eles fizeram um programa de TV e eram a maior banda do mundo porque havia dois canais de TV. Se eles viessem e fizessem a mesma coisa hoje, no YouTube, ninguém daria a mínima. É o que estava acontecendo naquela época e é o que está acontecendo agora. Então, algo precisa ser feito a respeito. E eu não sei o que… quero dizer, há um renascimento do vinil.”

Ele finalizou com o seguinte raciocínio:

“Quando eu era criança, você pegava o metrô, ia à loja, comprava um disco, levava para casa, abria, tocava no toca-discos, ouvia e olhava as fotos. Era um grande evento. Não é mais. Não existe mais isso. Não é tipo: ‘Ah, sim, estou gravando um disco’. É, mas cadê a rede de lojas de discos? Cadê a loja? Não tem nenhuma. É isso que está acontecendo.”

Fabio Reis
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
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