Live Review: Iron Maiden — Run For Your Lives Tour 2026

Domingo, 25 de outubro. Céu nublado, um pouco de frio, dia de votação para presidente da República do Brasil e também de contar uma história de 50 anos de carreira, milhares de apresentações, milhões de discos vendidos e uma trajetória que ajudou a transformar o heavy metal em um fenômeno mundial.

E, pelo modo como o dia terminou, ficou evidente que aquele não seria um domingo qualquer. Afinal, poucas bandas conseguiram atravessar tantas gerações mantendo uma identidade tão reconhecível quanto o Iron Maiden.

Naquele 25 de outubro de 2026, a Donzela de Ferro retornou a São Paulo para escrever mais um capítulo dessa extraordinária história. O palco escolhido foi o Nubank Parque, que recebeu uma multidão de fãs ansiosos para acompanhar a turnê comemorativa Run For Your Lives.

A turnê propõe uma viagem pelas origens da banda, pelos anos de sua consagração e pelas músicas que ajudaram a escrever alguns dos capítulos mais importantes da história do heavy metal.

Crédito da Foto: Stephan Solon @stephansolon / Move Concerts

Uma história de fidelidade e o início de uma nova era

A relação do Iron Maiden com o Brasil começou em 1985, durante a primeira edição do Rock in Rio. Desde então, o país se tornou um dos destinos mais importantes para o grupo, estabelecendo uma conexão de fidelidade que atravessou gerações. Entretanto, a apresentação de outubro de 2026 carregava um significado especial.

Era a primeira passagem da banda pelo país desde a despedida de Nicko McBrain, baterista que encerrou sua trajetória nos palcos justamente em São Paulo, em dezembro de 2024.

Para ocupar seu lugar, o grupo convocou Simon Dawson, músico experiente e parceiro de Steve Harris no projeto British Lion. Uma mudança forçada pelas circunstâncias, mas que representa o início de uma nova etapa na história da Donzela de Ferro.

Para celebrar suas cinco décadas de existência, o Iron Maiden decidiu concentrar o repertório nas composições lançadas entre 1980 e 1992. Uma homenagem aos anos que definiram sua sonoridade e consolidaram seu nome entre os titãs do heavy metal.

A abertura e os primeiros sinais de uma noite histórica

Crédito da Foto: Stephan Solon @stephansolon / Move Concerts

A responsabilidade de abrir a noite ficou com os norte-americanos do Alter Bridge. Liderado pelo vocalista e guitarrista Myles Kennedy, ao lado de Mark Tremonti, guitarrista do Creed, o grupo apresentou um show tecnicamente consistente, com músicas como “Metalingus”, “Blackbird” e “Isolation”.

Uma banda competente, sem dúvida, mas um tanto deslocada no universo dos fãs maiden-maniacs. Ainda assim, uma galera acompanhou suas músicas a plenos pulmões, demonstrando que o grupo também tinha seus admiradores naquela multidão.

Entretanto, o momento mais aguardado ainda estava por vir. Quando “Doctor Doctor”, clássico do UFO, começou a ecoar pelo estádio, ficou claro que a catarse coletiva havia chegado.

Logo depois, a instrumental “The Ides of March” preparou o ambiente para uma verdadeira viagem ao passado. E então, com “Murders in the Rue Morgue”, o Iron Maiden finalmente deu início à apresentação.

Um mergulho nas origens da Donzela de Ferro

Crédito da Foto: Stephan Solon @stephansolon / Move Concerts

Ninguém me tira da cabeça que o início do espetáculo, com “Wrathchild”, “Killers” e “Phantom of the Opera”, além de representar um resgate das origens da banda, também funcionou como uma singela homenagem a Paul Di’Anno, que nos deixou em 21 de outubro de 2024.

Com “The Number of the Beast”, o espetáculo entrou definitivamente na fase que transformou o Iron Maiden em uma potência internacional. Mas o show também reservava suas surpresas…

Uma delas foi “Infinite Dreams”, do álbum Seventh Son of a Seventh Son, de 1988. Um clássico que permaneceu ausente das apresentações da banda por muitos anos e, simplesmente, uma música linda. Suas mudanças de andamento, passagens melódicas e atmosfera progressiva demonstram como o Iron Maiden conseguiu expandir sua linguagem musical sem abandonar as próprias raízes.

Confesso que, naquele momento, um cisco caiu no meu olho. Não sei por quê… Em seguida, vieram simplesmente “Powerslave” e “2 Minutes to Midnight”. O que um pobre mortal como eu pode dizer sobre esses hinos? A sequência evidenciou a riqueza de um repertório capaz de combinar história, literatura, fantasia e questões políticas com toda a energia característica do heavy metal.

Obras grandiosas, emoções e mais alguns ciscos nos olhos

Na sequência, surgiu a obra-prima “Rime of the Ancient Mariner”. Sem palavras! Inspirada no poema de Samuel Taylor Coleridge, a composição representa uma das criações mais ambiciosas da carreira do Iron Maiden. Com aproximadamente treze minutos de duração, a música acompanha a jornada de um marinheiro condenado a enfrentar acontecimentos sobrenaturais depois de matar um albatroz.

Um segundo cisco no olho… Antes de executar a canção, Bruce Dickinson ainda encontrou tempo para brincar com a cachaça brasileira, fazendo uma referência bem-humorada à história narrada na composição.

E outra aula veio na sequência! “Seventh Son of a Seventh Son” exemplificou a capacidade da banda de construir narrativas musicais grandiosas. Com suas mudanças rítmicas e atmosfera mística, a composição representou um dos pontos altos da noite.

Aliás, falar dessas músicas sem reconhecer a genialidade de seus criadores seria impossível. Entretanto, mais impressionante do que revisitar essas obras é perceber como seus responsáveis continuam levando esse legado aos palcos, mesmo depois de tantas décadas.

Bruce Dickinson: o menino de 68 anos

Crédito da Foto: Stephan Solon @stephansolon / Move Concerts

Aos 68 anos, o “menino” Bruce Dickinson continua sendo uma presença impressionante. Sua desenvoltura no palco, interpretação teatral e lírica, além da capacidade de comunicação com o público, permanecem únicas e gigantescas.

Naturalmente, o tempo trouxe mudanças à sua voz. Algumas passagens exigem adaptações, enquanto determinadas melodias já não apresentam exatamente a mesma agressividade de décadas anteriores. Ainda assim, Bruce demonstrou experiência e controle vocal, especialmente quando sustentou uma nota prolongada que arrancou aplausos da plateia.

Mas esse “menino” sobreviveu a uma doença que talvez seja a pior de todas. Vocês sabem qual…

Bruce Dickinson já é uma lenda, uma criatura abençoada que caminha e canta sobre a Terra. E abençoados somos nós também, que ainda podemos desfrutar de seu talento.

A força dos veteranos e a chegada de Simon Dawson

Steve Harris, por sua vez, permaneceu como o coração musical da banda. Seu baixo pulsante e suas tradicionais linhas galopantes continuam sustentando a sonoridade que transformou o Iron Maiden naquilo que ele é.

Nas guitarras, Dave Murray, Adrian Smith e Janick Gers mantiveram a combinação de harmonias, solos melódicos e riffs que caracteriza o grupo. Los Tres Amigos, firmes e fortes!

A principal mudança, naturalmente, estava na bateria. Simon Dawson apresentou uma abordagem mais direta e econômica, diferente da execução repleta de detalhes e variações que marcou a carreira de Nicko McBrain. Não precisa exagerar, tampouco aparecer demais. Simon é funcional para a banda, não altera significativamente as linhas e permanece ali, um senhor tímido, porém essencial e absolutamente dono de seu espaço.

Seria impossível analisar a apresentação sem reconhecer que o tempo também deixou suas marcas. Algumas músicas apresentaram andamentos um pouco mais lentos do que aqueles tradicionalmente associados às suas versões ao vivo. Isso ficou perceptível em composições como “Murders in the Rue Morgue”, “Iron Maiden” e, posteriormente, “Aces High”.

O peso do tempo e a capacidade de adaptação

Crédito da Foto: Stephan Solon @stephansolon / Move Concerts

Por outro lado, músicas como “2 Minutes to Midnight” ganharam uma sonoridade mais pesada e controlada, demonstrando que essas mudanças nem sempre representam perdas. Em determinadas situações, também oferecem novas possibilidades de interpretação.

É importante compreender que o Iron Maiden de 2026 não é exatamente a mesma banda que conquistou o mundo durante os anos 80. Seus integrantes amadureceram, suas interpretações mudaram e o espetáculo passou a refletir essas transformações.

Entretanto, a força das composições, a experiência dos músicos e a conexão com o público continuam sendo elementos fundamentais. Afinal, a passagem do tempo modifica determinadas características, mas não necessariamente diminui a grandeza de uma obra.

Além disso, a idade e a longevidade exigem capacidade de adaptação. E, para além da música, o Iron Maiden sempre compreendeu a importância do espetáculo visual como parte fundamental de sua identidade.

Muito além da música: um espetáculo para os olhos

Cenários elaborados, uma enorme tela em Full HD e elementos teatrais transformaram o palco em uma extensão das histórias que as canções contam. A banda soube explorar esses recursos para ampliar a experiência do público, sem abandonar a essência de suas apresentações.

Durante “The Trooper”, Bruce Dickinson empunhou a bandeira inglesa e também a brasileira, provocando uma reação entusiasmada da plateia.

Já em “Hallowed Be Thy Name”, que, para este humilde servo do Metal, é a melhor música da Donzela, Bruce surgiu em uma cela, representando o drama de um homem condenado à execução. Um momento que reforçou a dimensão teatral de uma composição absolutamente extraordinária.

E, naturalmente, Eddie também participou da celebração. O lendário mascote, presente na identidade visual da banda desde seus primeiros lançamentos, continua sendo um dos símbolos mais reconhecíveis da história do heavy metal. Todos esses elementos reforçaram a sensação de que o público não acompanhava apenas um show, mas uma obra criativa que o Iron Maiden construiu ao longo de cinco décadas.

Crédito da Foto: Stephan Solon @stephansolon / Move Concerts

O bis: três clássicos para encerrar uma noite inesquecível

Depois de encerrar a primeira parte da apresentação com “Iron Maiden”, a banda retornou ao palco para o bis. E não poderia faltar mais uma sequência de clássicos.

O histórico discurso de Winston Churchill anunciou “Aces High”. Embora a música tenha apresentado um andamento um pouco mais lento, suas linhas clássicas de baixo, guitarras, bateria e vocais deixaram os fãs estupefatos. Naquela altura do espetáculo, Bruce Dickinson ainda fazia sua sirene aérea ecoar pelo estádio.

Em seguida, “Fear of the Dark” transformou o estádio em um enorme coro. Aquela que você já cantou, eu sei… Poucas músicas representam tão bem a conexão entre o Iron Maiden e seu público quanto essa composição lançada em 1992.

Mas o encerramento reservava um significado especial. “Wasted Years”, do álbum Somewhere in Time, de 1986, foi a última música da noite. Sua mensagem sobre a passagem do tempo e a importância de valorizar o presente parecia especialmente adequada para uma turnê comemorativa de 50 anos. Uma escolha que transformou a despedida em uma reflexão sobre a própria trajetória do grupo.

Iron Maiden: uma história que continua viva

O show do Iron Maiden em São Paulo não representou apenas uma celebração do passado. Foi também o retrato de uma banda que continua enfrentando os desafios impostos pelo tempo sem abandonar sua identidade.

É verdade que algumas composições já não apresentam a mesma velocidade de décadas anteriores e que seus integrantes não demonstram a intensidade física dos tempos de juventude. Entretanto, reduzir a importância do Iron Maiden a essas limitações seria ignorar a dimensão de sua história.

Estamos falando de uma banda que ajudou a definir o heavy metal, influenciou gerações de músicos e construiu uma relação extraordinária com milhões de fãs. Naquela noite de domingo, em São Paulo, a Donzela de Ferro demonstrou que sua história continua viva.

E talvez essa seja a maior mensagem da Run For Your Lives World Tour: não se trata apenas de olhar para trás, mas de reconhecer a importância de tudo aquilo que permanece, mesmo diante das inevitáveis transformações provocadas pelo tempo.

Crédito da Foto: Stephan Solon @stephansolon / Move Concerts

Porque algumas bandas atravessam gerações…

O tempo passa, as gerações mudam, os músicos envelhecem, mas existem músicas que permanecem.

E o Iron Maiden continua por aí. Enquanto os primeiros acordes de “The Trooper”, “The Number of the Beast” ou “Hallowed Be Thy Name” continuarem despertando emoções, o legado da banda estará garantido.

Porque algumas bandas fazem parte de uma época.

O Iron Maiden ajudou a construir uma história que atravessa todas elas.

Lá vem outro cisco…

Up the Irons!


Setlist — Iron Maiden — São Paulo, 25/10/2026

  1. The Ides of March
  2. Murders in the Rue Morgue
  3. Wrathchild
  4. Killers
  5. Phantom of the Opera
  6. The Number of the Beast
  7. Infinite Dreams
  8. Powerslave
  9. 2 Minutes to Midnight
  10. Rime of the Ancient Mariner
  11. Run to the Hills
  12. Seventh Son of a Seventh Son
  13. The Trooper
  14. Hallowed Be Thy Name
  15. Iron Maiden

Bis:

  1. Aces High
  2. Fear of the Dark
  3. Wasted Years

Assista aos melhores momentos do show, capturados pelo canal Xexeugraner Metal & Rock & Sport:

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