Live Review: Helloween em São Paulo — Uma celebração de quatro décadas

Quatro décadas de história, três vocalistas que ajudaram a construir diferentes capítulos dessa trajetória e um repertório capaz de atravessar gerações. Era com essa responsabilidade que o Helloween chegava ao Suhai Music Hall, em São Paulo, no dia 19 de setembro, para sua turnê comemorativa de 40 anos. E havia ainda um ingrediente especial: aquela seria a última apresentação da turnê. Quando as luzes se apagaram e o relógio marcou pontualmente 21h, ficou claro que o público estava pronto para celebrar.

A casa estava bastante cheia e, apesar das reclamações envolvendo a organização da entrada e as enormes filas, o clima no interior do Suhai Music Hall era de pura expectativa. A infraestrutura do espaço mostrou-se adequada para receber uma produção desse porte e, depois que o público finalmente conseguiu entrar, o que se viu foi uma plateia extremamente participativa, cantando praticamente tudo e entregando ao Helloween a energia que uma banda desse tamanho merece.

Crédito: Ricardo Matsukawa / Mercury Concerts

A abertura com March Of Time, clássico do Keeper Of The Seven Keys Part II, já colocou o público para cantar em alto volume. A música é daquelas que parecem ter sido feitas para grandes arenas, e a resposta imediata dos fãs mostrou que a noite seria uma celebração da história da banda.

Clássicos, fase épica e o peso da nostalgia

Na sequência, The King For A 1000 Years, do álbum Keeper Of The Seven Keys: The Legacy, trouxe uma dose generosa da fase mais épica do Helloween. Mesmo sendo uma composição extensa e exigente, a música funcionou muito bem ao vivo e mostrou a capacidade da banda de alternar momentos grandiosos com passagens mais agressivas.

Quando Future World, um dos grandes clássicos do Keeper Of The Seven Keys Part I, começou, o Suhai Music Hall praticamente virou um enorme coro. É impressionante como algumas músicas do Helloween parecem existir em um lugar próprio na memória afetiva dos fãs. Bastaram os primeiros acordes para a plateia assumir o controle dos vocais em diversos momentos.

This Is Tokyo, do álbum Giants & Monsters, foi uma das boas surpresas da noite. E aqui está uma das melhores características desse show: as músicas mais recentes não ficaram parecendo apenas um intervalo entre os clássicos. Pelo contrário. As faixas novas foram recebidas com entusiasmo e mostraram que o Helloween atual possui material capaz de dialogar muito bem com seu passado.

We Burn, outra faixa marcante do The Time Of The Oath, trouxe novamente aquela combinação característica de peso, melodia e velocidade. Já Twilight Of The Gods, mais uma representante do Keeper Of The Seven Keys Part I, manteve o ritmo elevado e colocou novamente Michael Kiske diante de uma das músicas mais emblemáticas de sua história.

Crédito: Ricardo Matsukawa / Mercury Concerts

Kai Hansen revisita os primórdios do Helloween

E então veio um dos momentos mais especiais para os fãs da velha guarda: Ride The Sky, grande clássico do Walls Of Jericho. Kai Hansen assumiu os vocais e, mesmo tantos anos depois, a música continua tendo uma força absurda ao vivo. Foi uma verdadeira viagem aos primeiros anos do Helloween, e a reação do público deixou claro o quanto essa fase continua viva na memória dos fãs.

Into The Sun, do recente Giants & Monsters, voltou a apresentar a faceta mais atual da banda e funcionou surpreendentemente bem em meio a tantos clássicos. A sensação era de que o Helloween estava conseguindo fazer sua história conversar com seu presente sem que uma coisa precisasse competir com a outra.

Logo depois veio I’m Alive, mais um daqueles hinos do Keeper Of The Seven Keys Part I que parecem ganhar uma dimensão especial diante de uma plateia desse tamanho. O clássico foi recebido com enorme entusiasmo, embora tenha acontecido um pequeno problema técnico justamente em um momento que antecederia um solo de Kai Hansen. Uma falha na volta do vocal gerou uma situação um pouco estranha, mas não chegou a comprometer a apresentação.

O protagonismo de Andi Deris e as dificuldades de Michael Kiske

Hey Lord!, do álbum Better Than Raw, trouxe novamente Andi Deris para o centro das atenções. E foi justamente ele quem acabou tendo uma importância ainda maior durante a apresentação. Em alguns momentos mais complicados para Michael Kiske, Deris mostrou por que continua sendo uma peça fundamental nessa formação. Com sua experiência e presença de palco, ajudou a sustentar determinadas passagens e, em mais de uma ocasião, literalmente ajudou a salvar a pele do companheiro.

Michael Kiske, por sinal, esteve um pouco abaixo do que normalmente se espera dele. Em alguns momentos, os vocais pareceram mais difíceis e houve situações em que ele aparentou estar ligeiramente desconectado do tempo da música. Não chega a ser algo que apague sua importância ou o peso de sua voz na história do Helloween, mas foi perceptível naquela noite.

Universe (Gravity For Hearts), mais uma composição do Giants & Monsters, reforçou a boa impressão deixada pelas músicas novas. É interessante perceber como o material recente consegue se encaixar naturalmente ao lado de composições que já fazem parte da história do Heavy Metal.

Depois do solo de bateria de Dani Löble, chegou a hora de um dos maiores hinos do Helloween: I Want Out, talvez a música mais imediatamente reconhecível do Keeper Of The Seven Keys Part II. E aqui não havia qualquer dúvida sobre o que aconteceria. O público simplesmente tomou conta da música. Foi um daqueles momentos em que banda e plateia parecem funcionar como uma única entidade.

Crédito: Ricardo Matsukawa / Mercury Concerts

A calmaria antes da tempestade

Em seguida, cadeiras e pedestais foram colocados no palco, deixando claro que aquele seria o momento mais “calmo” do show. O próprio Andi Deris anunciou que seria a “calma antes da tempestade”, preparando o público para uma sequência completamente diferente do que vinha acontecendo até então. Michael Kiske pegou o violão e, acompanhado apenas por sua voz, começou a cantar Suspicious Minds, de Elvis Presley, surpreendendo a plateia. Na sequência, veio Yesterday, dos Beatles, e o público teve uma participação enorme, cantando junto e transformando aquele momento em uma espécie de grande coro coletivo.

Depois, foi a vez de Deris assumir o violão. Ele brincou com a situação, dizendo que também tinha uma música para tocar, e então iniciou A Tale That Wasn’t Right, outra joia do Keeper Of The Seven Keys Part I, com Kiske assumindo os vocais. O momento, inicialmente intimista, foi ganhando força até chegar à parte mais pesada da música. Foi então que Michael Weikath se juntou aos dois vocalistas e, na sequência, toda a banda entrou para executar o solo, transformando completamente a atmosfera do palco. O que começou como um dos momentos mais tranquilos da noite terminou crescendo naturalmente até se tornar mais uma grande demonstração da força do Helloween ao vivo.

A Little Is A Little Too Much, do Giants & Monsters, voltou a colocar o material novo em evidência. E novamente a música mostrou que o Helloween não depende exclusivamente de sua nostalgia para funcionar ao vivo. Assim, as novas composições conseguiram encontrar seu espaço em um setlist extremamente carregado de história.

Hinos absolutos e catarse coletiva

Mas se havia uma música capaz de provocar uma reação especial entre os fãs mais antigos, era Heavy Metal (Is The Law), outro grande momento vindo diretamente do Walls Of Jericho. Kai Hansen voltou ao microfone e novamente protagonizou um daqueles momentos que justificam a existência de uma turnê comemorativa como essa. Ver Hansen cantando novamente uma composição dos primórdios do Helloween diante de uma plateia brasileira completamente enlouquecida foi, sem dúvida, um dos grandes destaques da noite.

E então veio Halloween, talvez a obra-prima mais emblemática do Keeper Of The Seven Keys Part I. Inegavelmente, não existe maneira mais apropriada de descrever esse momento do que dizer que o Suhai Music Hall foi tomado por um coro gigantesco. A música continua monumental e, ao vivo, sua construção épica ganha uma dimensão ainda maior. É um clássico que não precisa de apresentação e que, mesmo depois de décadas, certamente continua capaz de dominar uma casa de shows.

Quando a banda deixou o palco, ninguém tinha dúvida de que o bis seria uma sucessão de hinos.

Crédito: Ricardo Matsukawa / Mercury Concerts

O bis, os deslizes e a força da plateia

Eagle Fly Free, outro clássico absoluto do Keeper Of The Seven Keys Part II, era provavelmente uma das músicas mais aguardadas da noite. E justamente por isso o pequeno deslize que aconteceu durante sua execução acabou chamando ainda mais atenção. Em determinado momento, houve uma espécie de “desconexão geral” da banda, com os músicos aparentemente atravessando o tempo da música. A situação chegou ao ponto de Michael Kiske interromper o vocal para evitar que o problema se agravasse.

Mas o Helloween fez o que uma banda experiente faz: respirou, reencontrou o compasso e seguiu em frente. Pouco depois, Eagle Fly Free voltou a brilhar como sempre. E a reação do público foi fantástica. Em vez de transformar o erro em um problema, a plateia simplesmente continuou cantando e empurrando a banda para frente.

Power, do The Time Of The Oath, veio na sequência e foi mais uma demonstração de que determinadas músicas do Helloween parecem ter sido compostas especificamente para serem cantadas por milhares de pessoas. O refrão ecoou pelo Suhai Music Hall e mais uma vez o público mostrou que sabia exatamente o que fazer.

Dr. Stein, mais um clássico incontestável do Keeper Of The Seven Keys Part II, fechou a apresentação com aquele clima de festa que só uma música do Helloween consegue proporcionar. E o encerramento com o trecho final de Keeper Of The Seven Keys, também do segundo Keeper, foi a maneira perfeita de concluir a noite.

Crédito: Ricardo Matsukawa / Mercury Concerts

Considerações finais

No fim das contas, o Helloween entregou exatamente aquilo que se espera de uma banda com 40 anos de estrada: história, personalidade, técnica, diversão e, acima de tudo, muita energia.

Tirando os problemas de organização da casa e os mínimos deslizes de uma banda que entrega tudo ao vivo, a impressão que tive é que a plateia saiu bem feliz e satisfeita com a apresentação.

Para mim, que já acompanho a carreira da banda há algum tempo e já assisti a várias apresentações do Helloween, foi mais uma oportunidade de presenciar um show com muita energia. Fiquei particularmente surpreso com a forma como as músicas novas funcionaram ao vivo, sendo intercaladas por outras de várias fases da banda.

Helloween é uma banda que ainda tem muito o que mostrar, tanto em estúdio quanto, principalmente, ao vivo. E encerrar essa turnê de 40 anos em São Paulo, diante de uma plateia tão participativa, foi uma maneira bastante significativa de fechar mais um capítulo dessa longa história.

Setlist

  1. March Of TimeKeeper Of The Seven Keys Part II
  2. The King For A 1000 YearsKeeper Of The Seven Keys: The Legacy
  3. Future WorldKeeper Of The Seven Keys Part I
  4. This Is TokyoGiants & Monsters
  5. We BurnThe Time Of The Oath
  6. Twilight Of The GodsKeeper Of The Seven Keys Part I
  7. Ride The SkyWalls Of Jericho
  8. Into The SunGiants & Monsters
  9. I’m AliveKeeper Of The Seven Keys Part I
  10. Hey Lord!Better Than Raw
  11. Universe (Gravity For Hearts)Giants & Monsters
  12. Drum SoloDani Löble
  13. I Want OutKeeper Of The Seven Keys Part II
  14. A Tale That Wasn’t RightKeeper Of The Seven Keys Part I
  15. A Little Is A Little Too MuchGiants & Monsters
  16. Heavy Metal (Is The Law)Walls Of Jericho
  17. HalloweenKeeper Of The Seven Keys Part I
  18. Eagle Fly FreeKeeper Of The Seven Keys Part II
  19. PowerThe Time Of The Oath
  20. Dr. SteinKeeper Of The Seven Keys Part II
  21. Keeper Of The Seven KeysKeeper Of The Seven Keys Part II

Assista ao show completo disponibilizado no canal IsmaugTV – Live Concerts:

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